terça-feira, março 21, 2006
Ando sem tempo para sonhar durante a noite. Ela parece passar num ápice em que consigo descansar o corpo apenas o suficiente. Como se deixasse de existir porque não dou pelo passar da noite. Quando estou a domir, às vezes sinto que durmo. Porém, actualmente, o hoje é como uma continuação do ontem, como se nunca me lembrasse de ter parado. O dia segue na sequência de tarefas, de obrigações, de deveres e de satisfação de direitos, mas esse dia é como a noite. E as manhãs já só nascem nos momentos em que me sinto adormecer.
domingo, março 19, 2006
Este ser de amar quem já não é, como se o mundo desprendesse dos rios o grito de quem bate a si próprio, no peito, onde as lembranças causam abanões à consciência, e onde, afinal, todos somos mártires de alguém.
Pedimos todos os dias que a vida nos corra bem, porque precaver o corpo dalguma enxurrada que por aí fora nos leve é a arte natural de passear por este chão tropeço.
Aos aleijões perdemos o tempo entre coisas estúpidas e supérfluas, que também elas acabarão por apodrecer nalgum canto da casa que habitamos, porque o próprio lixo se torna uma bênção pelo alívio de o podermos deitar fora.
Reparos fazem-se a toda a gente, e a nós também, que não somos excepção de nada senão de nós mesmos e das ideias que temos, já que a vida é um mar brando, onde até as mais violentas tempestades têm uma razão de ser, quer as aceitemos quer não.
E os olhos cansam-se igualmente de ver todos os dias as mesmas cores e formas, as mesmas pessoas, que nunca conhecemos, afinal.
As armas dos nossos vícios apetrecham-nos de desculpas para evitar a realidade, por ser, talvez, demasiado dura para uma couraça demasiado mole, que se desfaz à mais pequena pinga de chuva.
Pedimos todos os dias que a vida nos corra bem, porque precaver o corpo dalguma enxurrada que por aí fora nos leve é a arte natural de passear por este chão tropeço.
Aos aleijões perdemos o tempo entre coisas estúpidas e supérfluas, que também elas acabarão por apodrecer nalgum canto da casa que habitamos, porque o próprio lixo se torna uma bênção pelo alívio de o podermos deitar fora.
Reparos fazem-se a toda a gente, e a nós também, que não somos excepção de nada senão de nós mesmos e das ideias que temos, já que a vida é um mar brando, onde até as mais violentas tempestades têm uma razão de ser, quer as aceitemos quer não.
E os olhos cansam-se igualmente de ver todos os dias as mesmas cores e formas, as mesmas pessoas, que nunca conhecemos, afinal.
As armas dos nossos vícios apetrecham-nos de desculpas para evitar a realidade, por ser, talvez, demasiado dura para uma couraça demasiado mole, que se desfaz à mais pequena pinga de chuva.
sábado, março 18, 2006
E, de repente, sou uma pessoa triste. Tão triste cá dentro, tão grande esta tristeza que sinto, que dela não consigo distinguir-me. Somos uma e a mesma coisa. Só quem observa por fora não dá conta. Só quem não conhece, nem tenta conhecer, não nota. Acho que estas coisas marcam os olhos, os tornam baços e com pouca vida. Outros distanciam-se o suficiente, apenas, para não se sentirem afectados, porque o desconforto que esta tristeza provoca ainda é grande. Deixam-se ficar junto à linha de água, suficientemente perto para que possam socorrer. São os braços dos pais a 4 centímtros do tronco do filho que começa a dar os primeiros passos. Longe o suficente para que faça por si próprio o caminho, perto o suficiente para não o deixar cair. Como se não cair fosse mais importante, como se a derrota fosse a pior consequência.
sexta-feira, março 17, 2006
Ohana
A família, e tudo o quanto dela faz parte e a ergue, é a única coisa que está acima de todas as outras, sem as substituir.
E, para mim, a razão pela qual existirmos.
E, para mim, a razão pela qual existirmos.
domingo, março 12, 2006
Império do Silêncio
O mundo, vejo-o através de um véu, que não é nem puro, nem branco, nem de cor alguma. É rasgado junto ao chão, encardido de sujidade seca, pó da aragem que o faz balouçar para trás e por diante.
O silêncio é uma dádiva pesada de simbolismo, de sentido e significados e para que exista pede o sacrifício de alguma coisa, que dantes o apagava; sons de pessoas e, até mesmo, de ideias claras e organizadas que oscilavam, com alguma segurança, entre o sentido prático da vida e o idealismo da perfeição.
Hoje, as ideias estão tão indefinidas como a tal cortina que deturpa o sentido do mundo em meu redor. E lembram-se apenas de fragmentos de uma vida passada, em que o sentido era viver, porque isso era bom, isso bastava para ser feliz.
Agora impõem-se os sentidos e os sentimentos, baloiçando ao vento, entre o idealismo da felicidade, ou de mais alguns momentos de felicidade que ainda podem vir e o descrédito que a mágoa e o sofrimento gravam na memória do peito.
As mãos sobem ao rosto, cobrindo-o, com muito maior frequência, sem se saber bem se o quero esconder, ou arrancar dele a frustração e vergonha de não ser capaz de o fazer. A razão de ser do nunca mais, que tranca à serenidade a necessidade de estar presente nos entretantos.
Tantos são os momentos, em que desperto para o mundo, como se toda a minha vida fosse um segredo sem propósito, por não haver ninguém de quem o esconder. As pessoas, ao mesmo tempo que recuperam, aos meus olhos, uma dignidade superior por cada batalha que travam, parecem estar cada vez mais distantes.
A música repetida, vezes e vezes sem conta, embalada numa noite de calor de Verão, trazem até aqui histórias perdidas, do tempo em que ainda não desejava voltar ao tempo dessas histórias.
Esses sons chegam e abrem-me ao meio, tirando para fora tudo o que o dia me leva a enraizar profundamente.
E a solidão, a solidão que chama todos os nomes daqueles que a podiam resgatar, a esta alma que me habita, enrouquece no soluçar de não ser ouvida, de não se conseguir ouvir sequer a si mesma. E adormece a chorar.
O silêncio é uma dádiva pesada de simbolismo, de sentido e significados e para que exista pede o sacrifício de alguma coisa, que dantes o apagava; sons de pessoas e, até mesmo, de ideias claras e organizadas que oscilavam, com alguma segurança, entre o sentido prático da vida e o idealismo da perfeição.
Hoje, as ideias estão tão indefinidas como a tal cortina que deturpa o sentido do mundo em meu redor. E lembram-se apenas de fragmentos de uma vida passada, em que o sentido era viver, porque isso era bom, isso bastava para ser feliz.
Agora impõem-se os sentidos e os sentimentos, baloiçando ao vento, entre o idealismo da felicidade, ou de mais alguns momentos de felicidade que ainda podem vir e o descrédito que a mágoa e o sofrimento gravam na memória do peito.
As mãos sobem ao rosto, cobrindo-o, com muito maior frequência, sem se saber bem se o quero esconder, ou arrancar dele a frustração e vergonha de não ser capaz de o fazer. A razão de ser do nunca mais, que tranca à serenidade a necessidade de estar presente nos entretantos.
Tantos são os momentos, em que desperto para o mundo, como se toda a minha vida fosse um segredo sem propósito, por não haver ninguém de quem o esconder. As pessoas, ao mesmo tempo que recuperam, aos meus olhos, uma dignidade superior por cada batalha que travam, parecem estar cada vez mais distantes.
A música repetida, vezes e vezes sem conta, embalada numa noite de calor de Verão, trazem até aqui histórias perdidas, do tempo em que ainda não desejava voltar ao tempo dessas histórias.
Esses sons chegam e abrem-me ao meio, tirando para fora tudo o que o dia me leva a enraizar profundamente.
E a solidão, a solidão que chama todos os nomes daqueles que a podiam resgatar, a esta alma que me habita, enrouquece no soluçar de não ser ouvida, de não se conseguir ouvir sequer a si mesma. E adormece a chorar.
sábado, março 11, 2006
Goodbye my lover
Did I disappoint you or let you down?
Should I be feeling guilty or let the judges frown?
'Cause I saw the end before we'd begun,
Yes I saw you were blinded and I knew I had won.
So I took what's mine by eternal right.
Took your soul out into the night.
It may be over but it won't stop there,
I am here for you if you'd only care.
You touched my heart you touched my soul.
You changed my life and all my goals.
And love is blind and that I knew when,
My heart was blinded by you.
I've kissed your lips and held your head.
Shared your dreams and shared your bed.
I know you well, I know your smell.
I've been addicted to you.
Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.
I am a dreamer but when I wake,
You can't break my spirit - it's my dreams you take.
And as you move on, remember me,
Remember us and all we used to be
I've seen you cry, I've seen you smile.
I've watched you sleeping for a while.
I'd be the father of your child.
I'd spend a lifetime with you.
I know your fears and you know mine.
We've had our doubts but now we're fine,
And I love you, I swear that's true.
I cannot live without you.
Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.
And I still hold your hand in mine.
In mine when I'm asleep.
And I will bear my soul in time,
When I'm kneeling at your feet.
Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.
I'm so hollow, baby, I'm so hollow.
I'm so, I'm so, I'm so hollow.
segunda-feira, março 06, 2006
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
quarta-feira, março 01, 2006
Though dreams remain like a secret
though stars are no longer so bright
when silence became the answer to me
I just knew you were no longer mine.
Gone all the mystery around you
Gone all the stories we lived
And silence remains instead
as the answer I no longer need.
And if heavens keep love so far
Will my lips keep telling your name?
Will your light fill this empty space?
May your love mend this soul once again?
though stars are no longer so bright
when silence became the answer to me
I just knew you were no longer mine.
Gone all the mystery around you
Gone all the stories we lived
And silence remains instead
as the answer I no longer need.
And if heavens keep love so far
Will my lips keep telling your name?
Will your light fill this empty space?
May your love mend this soul once again?
terça-feira, fevereiro 28, 2006
The Blower's Daughter
And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new
sábado, fevereiro 25, 2006
Enquanto as pessoas correm de um lado para o outro, vamos passando por elas, como se fossem apenas fantasmas, onde encontramos pequenos pedaços de nós, mas que não conseguirão nunca preencher-nos. Sentimo-nos tão especiais, isolados dos desejos do que somos, que perdemos uma parte da própria vontade.
Sento-me, assim, numa cadeira em frente a este ecrã, penso no frio lá fora, sentindo a mão direita enregelada, arrefecida pela movimento do rato.
Sento-me, assim, numa cadeira em frente a este ecrã, penso no frio lá fora, sentindo a mão direita enregelada, arrefecida pela movimento do rato.
De quantos meses, anos, décadas se fará a espera? Este aguardar em silêncio doloroso, pontualmente interrompido no choro convulso das lágrimas, que umas vezes caem, outras não.
***
Através da escuridão consigo ver a tua luz
e hás-de para sempre brilhar,
e posso sentir no meu o teu coração.
Na memória esse teu rosto,
o único que quero ainda adorar.
Olho para cima, para tudo o que és,
que aos meus olhos és apenas perfeição,
e este meu amor tanto durou
que depois das palavras e dos gestos,
afinal, tu és apenas tu;
tu és, ainda, apenas tu.
Tu que passas por mim,
deixas-me só com a tua dor,
e o tempo que tudo muda,
deixa porém uma certeza,
afinal, tu és apenas tu;
tu és, ainda, apenas tu.
Olho para cima, para tudo o que és,
que aos meus olhos és apenas perfeição,
e eu acredito ainda em ti,
e nunca a tua boca mo pediu,
e a ti vou-te lembrar,
e ao que vida te fez passar.
e neste mundo cinzento e frio,
encontrei por fim um amor,
porque afinal, tu és apenas tu;
tu és, ainda, apenas tu.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
kinder surpresa
Às vezes entro em cada embrulhada, que não sei com muita certeza se vou chegar a sair dela com vida, ou, no mínimo, ainda com alguma qualidade de vida.
Este ano, que para mim apenas começou no dia 13 de Fevereiro, de modo a deixar em 2005 tudo o que não é possível lembrar constantemente, sob pena de comprometermos seriamente a nossa sanidade mental, inscrevi-me em 11 cadeiras diferentes. Convém, porém, advertir que, destas 11, apenas 9 se protelam pela totalidade do semestre. E o que fazer com estas 9?
Aí está o meu verdadeiro problema. Não sei minimamente o que me passou pela cabeça no dia das inscrições - estaria com toda a certeza nalgum estado alterado de consciência, induzido por algum psicotrópico que infiltraram, à socapa, nas minhas doses diárias de iogurte. É a única explicação plausível! E mais me convenço que não apenas foi administrada à época naquelas doses, mas que ainda hoje o continua a ser. Caso contrário, não se explicaria que, após uma reflexão toldada pelas incertezas e pelo medo do fracasso académico, me tenha hoje vindo a inscrever em mais uma cadeira, que eu mesmo apelido de "suplementar", para me convencer que a tenho que "tomar", a bem da minha própria vitalidade, como se de uma receita médica de vitaminas se tratasse.
A patologia é severa; o tratamento moroso, doloroso e manifestamente insuficiente e ineficaz. Deste estado de descocamento cerebral ensaio um adeus a quem passa sorridente, de férias, como se o mundo fosse um lugar alegre, onde habitar se converte num enorme prazer, em lugar de um permanente estado de luta, para que nos consigamos manter vivos.
Em boa verdade, não sei muito bem se é isso que quero - manter-me vivo - mas, porém, a outra alternativa - que é não estar vivo, pelo simples facto de não dar importância - parece que já não me satisfaz como até agora. Há coisas pelas quais vale a pena estar presente, mais que não seja para lhes dar-mos a oportunidade de nos surpreenderem, e para que, nós mesmos, também tenhamos a oportunidade de nos deixarmos surpreender.
Este ano, que para mim apenas começou no dia 13 de Fevereiro, de modo a deixar em 2005 tudo o que não é possível lembrar constantemente, sob pena de comprometermos seriamente a nossa sanidade mental, inscrevi-me em 11 cadeiras diferentes. Convém, porém, advertir que, destas 11, apenas 9 se protelam pela totalidade do semestre. E o que fazer com estas 9?
Aí está o meu verdadeiro problema. Não sei minimamente o que me passou pela cabeça no dia das inscrições - estaria com toda a certeza nalgum estado alterado de consciência, induzido por algum psicotrópico que infiltraram, à socapa, nas minhas doses diárias de iogurte. É a única explicação plausível! E mais me convenço que não apenas foi administrada à época naquelas doses, mas que ainda hoje o continua a ser. Caso contrário, não se explicaria que, após uma reflexão toldada pelas incertezas e pelo medo do fracasso académico, me tenha hoje vindo a inscrever em mais uma cadeira, que eu mesmo apelido de "suplementar", para me convencer que a tenho que "tomar", a bem da minha própria vitalidade, como se de uma receita médica de vitaminas se tratasse.
A patologia é severa; o tratamento moroso, doloroso e manifestamente insuficiente e ineficaz. Deste estado de descocamento cerebral ensaio um adeus a quem passa sorridente, de férias, como se o mundo fosse um lugar alegre, onde habitar se converte num enorme prazer, em lugar de um permanente estado de luta, para que nos consigamos manter vivos.
Em boa verdade, não sei muito bem se é isso que quero - manter-me vivo - mas, porém, a outra alternativa - que é não estar vivo, pelo simples facto de não dar importância - parece que já não me satisfaz como até agora. Há coisas pelas quais vale a pena estar presente, mais que não seja para lhes dar-mos a oportunidade de nos surpreenderem, e para que, nós mesmos, também tenhamos a oportunidade de nos deixarmos surpreender.
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
miguel esteves cardoso
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.
Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber.
Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e é mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banançides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra.A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber.
Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e é mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banançides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra.A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
As pessoas são coisas. E, pior, são coisas estranhas. É com o mesmo rosto, com a mesma facilidade com que dão um sorriso, que esboçam um ar de tristeza. Tudo num mesmo dia, numa mesma hora, até, por vezes.
Hoje encontrei uma pessoa que já não via há algumas semanas. Na realidade, nunca tinha falado com ela antes. Da última vez que a vi, chorava compulsivamente, como se toda a melancolia lhe desaguasse no coração. Parecia que os olhos dela eram as únicas fontes de verdadeiras lágrimas, sem que as pudesse, quisesse, ou conseguisse controlar. Tive pena dela nesse dia e vergonha de mim mesmo. Há reacções que não conseguimos dominar e o choro é uma que está para além da minha capacidade. E não chorei tanto quanto devia, e se calhar a quantidade de lágrimas que devia ter chorado era a mesma que a vi chorar a ela.
Hoje encontrei-a, de novo, e fomos apresentados, pela primeira vez. E confirmei o que já muitas vezes me tinha interrogado. É mais uma daquelas raras pessoas de alma mais acima de todas as que estão à sua volta. Ou possivelmente, serás assim apenas aos meus olhos, que me obrigam a querer acreditar que se ela te tinha escolhido como amiga era porque devias ser especial de algum modo. É preciso que uma alma seja especial para que possa reconhecer outra também especial. Isto reconforta-me, pensar que, apesar da solidão em que se sentia, construira um mundo harmónico e perfeito de pessoas que verdadeiramente lhe reconheciam a chama e luz que só os génios da humanidade têm.
Qual é o preço que se paga pela genialidade de carácter? Um preço tão alto que só pode ser suportado por todas as pessoas em seu redor? Para que sobre nós recaia suportá-lo? O preço de ensinar, até e sobretudo, em todos os momentos marcados por uma ausência?
Agora já não nos vai ser possível dizer, nem eu, nem ela, como tinhas razão em viver da maneira que vivias, e que o tempo que nos davas parecia ser limitado, sempre, por algo que ainda estava para vir. Que esse tempo era o teu próprio tempo.
Será que o paralelismo das nossas vidas se mantém até na morte? Tenho-me feito esta pergunta vezes sem conta, lembrando-me o espelho que a minha vida foi da tua, até hoje. Brincámos uma vez com isso, porque parecia que eu te tinha imitado, mesmo sem que nos tivessemos ainda conhecido.
Tu tinhas consciência disso, por isso me proibiste de desistir de lutar fosse pelo que fosse. Creio eu, lembraste-te de algo que te fez parar um ano na tua vida - nunca mo disseste, apenas o adivinho - e não quiseste isso para mim. Se a minha intuição para as coisas estranhas de nós não me engana, como não me costumava enganar, isso fez-nos aproximar uns anos, funcionando como um atalho para chegar às conclusões a que chegaste, sem que tenha que passar pelo que passaste.
Será que também a tua morte terá evitado a morte do meu pai, ou da minha mãe? Este paralelismo deixa-me curioso, porque quase que sugere, antes, um fatalismo. Mas não me assusta. De facto, quase que desejo que assim fosse e não apenas um impulso para estabelecer como meta o reencontro de ti.
Tu tinhas consciência disso, por isso me proibiste de desistir de lutar fosse pelo que fosse. Creio eu, lembraste-te de algo que te fez parar um ano na tua vida - nunca mo disseste, apenas o adivinho - e não quiseste isso para mim. Se a minha intuição para as coisas estranhas de nós não me engana, como não me costumava enganar, isso fez-nos aproximar uns anos, funcionando como um atalho para chegar às conclusões a que chegaste, sem que tenha que passar pelo que passaste.
Será que também a tua morte terá evitado a morte do meu pai, ou da minha mãe? Este paralelismo deixa-me curioso, porque quase que sugere, antes, um fatalismo. Mas não me assusta. De facto, quase que desejo que assim fosse e não apenas um impulso para estabelecer como meta o reencontro de ti.
sábado, fevereiro 11, 2006
Hoje acordei com aquela sensação de que nos estamos a esquecer de alguma coisa e por mais voltas que dê-mos à cabeça, já farta de pensar e ainda nem o dia vai na sua primeira hora, não consigo descobrir o que me falta. Stones taught me to fly... oiço, nesta música que toca repetidamente, como se me tentasse fazer lembrar.
Há coisas que se apagam da memória. Mas,apenas nos seus contornos visíveis, aqueles que lhes davam uma forma e que mais facilmente poderiamos convocar ao centro das nossas memórias. Resta, porém, um sentir, um conteúdo, uma alma sem forma - ideias sem possibilidade de expressão, sem possbilidade de contemplação.
Por vezes, paro, simplesmente. Olho para os dedos das mãos, para o pulso e vejo salientes as veias, os tendões. Enquanto as olho, não vejo o que são, nem penso nelas, só admiro a forma e o aspecto que têm sob a pele.
Dava cem vezes a minha vida para saber a razão que nos faz parar de pensar, de sentir, de viver. E quando não nos sentimos vivos, até essa própria vida vale pouco, como se os anos que passam sobre nós não tivessem importância e os dias fossem só uma sequência de acontecimentos que presenciamos, sem nos envolvermos nas suas rotinas e problemas, que são as rotinas e problemas de todas as outras pessoas - mortas, elas também, sem saberem que o estão.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Through the darkness
I can see your light
And you will always shine
And I can feel your heart in mine
Your face I've memorized
I idolize just you
I look up to
Everything you are
In my eyes you do no wrong
I've loved you for so long
And after all is said and done
You're still you
After all
You're still you
You walk past me
I can feel your pain
Time changes everything
One truth always stays the same
You're still you
After all
You're still you
I look up to
Everything you are
In my eyes you do no wrong
And I believe in you
Although you never asked me to
I will remember you
And what life put you through
And in this cruel and lonely world
I found one love
You're still you
After all
You're still you
I can see your light
And you will always shine
And I can feel your heart in mine
Your face I've memorized
I idolize just you
I look up to
Everything you are
In my eyes you do no wrong
I've loved you for so long
And after all is said and done
You're still you
After all
You're still you
You walk past me
I can feel your pain
Time changes everything
One truth always stays the same
You're still you
After all
You're still you
I look up to
Everything you are
In my eyes you do no wrong
And I believe in you
Although you never asked me to
I will remember you
And what life put you through
And in this cruel and lonely world
I found one love
You're still you
After all
You're still you
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Centelhas, apenas
É a minha alma imortal que escreve e denuncia a pobreza e fragilidade do que sou. É a minha imoral presença que me faz contrariar os impulsos com a sensibilidade, com a saudade, com a esperança, com a meiguice, com o amor.
Fecharmos as portas do que somos é desiludir quem confia, quem vive em cada letra do que escrevemos, quem nunca haveria de querer despedidas e finais com a sua ida. Promessas essas que fiz, promessas que quero honrar. Promessas de retorno, de regresso, de partilha. Promessas que não nos deixam sós, nunca. Por mais rios de lágrimas salgadas que corram no meu rosto, por mais cegados por elas que estejam os meus olhos e pensamentos, restam ainda as promessas que nos erguem sobre nós.
E as durezas, os calos nas mãos e no espírito, as cicatrizes que não fecham, serão de nós a marca da vida que nos cabe viver. São a minha fraqueza e também a minha fortaleza. A fortaleza de todos nós, que podemos ainda cumprir as razões que nos fazem estar onde estamos, ser quem somos. Centelhas divinas que umas vezes brilham e outras se deixam apagar. Imortais, eternizadas pela diferença que marcamos nas vidas dos outros, pela diferença com que, também eles, marcam as nossas próprias vidas.
Fecharmos as portas do que somos é desiludir quem confia, quem vive em cada letra do que escrevemos, quem nunca haveria de querer despedidas e finais com a sua ida. Promessas essas que fiz, promessas que quero honrar. Promessas de retorno, de regresso, de partilha. Promessas que não nos deixam sós, nunca. Por mais rios de lágrimas salgadas que corram no meu rosto, por mais cegados por elas que estejam os meus olhos e pensamentos, restam ainda as promessas que nos erguem sobre nós.
E as durezas, os calos nas mãos e no espírito, as cicatrizes que não fecham, serão de nós a marca da vida que nos cabe viver. São a minha fraqueza e também a minha fortaleza. A fortaleza de todos nós, que podemos ainda cumprir as razões que nos fazem estar onde estamos, ser quem somos. Centelhas divinas que umas vezes brilham e outras se deixam apagar. Imortais, eternizadas pela diferença que marcamos nas vidas dos outros, pela diferença com que, também eles, marcam as nossas próprias vidas.
este texto, sim, a ti... Marta
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