sexta-feira, novembro 04, 2011

Define-nos a antítese, ou a verdade do que somos exige uma contraparte, nivelada pelo que temos e manifestamos?

Há um anjo que me agarra,
No poeiral do terreno
Que abraçando me ampara
Suspenso sobre o abismo

Há um anjo negro e branco,
Preso na sombra que me embala
Terno lamento
E de novo sem intento
Caio em desamparo.

Anjo branco, luz e sombra
Que me entonteces a mente louca
Acordas o sonho, a quimera negra
Que tão de certo
No meu antro rebaixado
Me agoniza a pena lestra
Que me leva ao teu regaço.

Altura enorme e crua que pede,
Anjo de terna morte
Que nada vive onde te enlaças.

Numa vingança tão violenta
Tão estupre e ansiosa
Anjo negro e anjo branco
Ao recanto esperando,
À coca, o tropeço derradeiro
Do servo errante.

o Mestre

Existe uma procura incessante, por um achado tão raro e distante do qual apenas rezam os livros de história, os contos bíblicos, Homero e os clássicos nas suas epopeias, os fascinados da nova era, da nova ordem, do novo despertar.

Há muitos nomes para o que se procura, muitas expectativas sobre o que se irá encontrar, e muita tinta, muitas ideias discorridas sobre os métodos, a preparação interior e exterior para atingir tal epifania do ser, como se a própria existência de quem procura estivesse ameaçada de morte, em perigo de extinção.
Entre livros de auto-ajuda, relatos de tradições ocultistas perdidas no tempo, na memória de ordens secretas com fins obscuros ou, pelo menos, cuja revelação esteja sujeita à prática iniciática, todos mais ou menos confluem na sua génese, naquilo que os moveu ao encontro de um despertar, de um conhecimento mais profundo.

O Homem dos dias de hoje – nele me incluo, ou doutro modo nunca disto me daria conta – procura o que tantos outros procuraram na antiguidade clássica, na idade medieval, no renascimento, no iluminismo, no modernismo, na contemporaneidade.

Procura-se um caminho, é certo, mas algo mais além do caminho. O caminho é o alvo fácil. Conhecer a existência do caminho e até os detalhes do percurso em nada acalmam os que têm sede de nele se aventurarem. Por vezes três passos são suficientes para satisfazer a curiosidade. Outras vezes, ascender a escadaria até aos últimos degraus da iluminação, do conhecimento último é suficiente para preencher o vazio, mas insuficiente para encontrar respostas contundentes.

Alguns apaziguam a sua natureza inquisitiva com a companhia de outros ambulantes, perdem-se na magia dos rakings e das iniciações, apresentam-se e auto-integram-se numa hierarquia imperfeita, reflexo da ordem cabalística dos céus. Criam-se cursos, conferem-se graus, iniciam-se e reiniciam-se praticantes e curiosos na esperança de apaziguamento intelectual muito além do espiritual, muito além do mental.

Há enraizada na humanidade uma amnésia colectiva, uma necessidade de redescoberta na ordem inversa da progressão do tempo. Um passado histórico da humanidade, esquecido e enterrado em eras, séculos e décadas, correntes doutrinais e académicas, escolas e confissões, dogmas e rejuvenescimentos.
Mas tudo busca, todos procuram um Mestre que lhes diga o que foram, o que são e o que serão.
O Mestre é quem falta no caminho percorrido e a percorrer, o último degrau na hierarquia. É a quem recorrer, o guia maior do templo que guarda os melhores indícios para as respostas às perguntas mais difíceis de formular.

Para o discípulo, o Mestre é aquele que conhece a pergunta verdadeira que reorienta a busca e é a certeza de companhia no meio da solidão.

O Mestre para muitos apresenta-se como o próprio caminho ou, vice-versa, o caminho é o próprio Mestre.
A mestria magistral, aquela que ensina sem ser pedida, a que está presente sem se revelar, a que se releva sem ofuscar; é esta a busca incessante do homem inquieto e cobarde.

A cobardia aqui é boa. Não me tomem por arrogante. Cobarde sou eu também que vivo na imensa busca de um saber transcendente, na esperança de encontrar alguém que me mostre o caminho para lá chegar.
A cobardia, sinto-a todos os dias quando sigo o caminho mais fácil para o trabalho, o que me leva em linha recta, sem desvios, e que me transporta, talvez pela parte mais feia da cidade, quando na rua ao lado existe um belo jardim pronto a ser atravessado.

Hoje procuro o Mestre dos mestres, na história, no presente, no futuro, como se a dimensão do tempo de nada importasse. E tenho para comigo, como tese que proponho explorar, que tal Mestre é uma ilusão se o julgarmos uno, indivisível, presente, omnisciente.

Os muitos que procuram um Mestre procuram um Deus em disfarce, um peregrino que resgate S. Martinho debaixo do intenso aluvião.

Chamam-lhe Mestre porque a palavra Deus soa, na Europa e em geral na ocidentalidade, como algo desconfiável, uma ideia sem sustentação científica como se a sustentação científica fosse pressuposto da fé e não, talvez, parte da sua antítese necessária e imutável.

Não me lanço na procura de Deus. Muitos tentaram e continuam a tentar, com bastante mais displicência, conhecimento e sabedoria que aquela que eu posso oferecer a tão imensa tarefa. Aos teólogos e ateus deixarei esse labor; aos primeiros a prova da existência, aos segundos a sua refutação.

Mas um Mestre é diferente de um Deus. A procura de um Mestre é menos pretensiosa, é mais pessoal.

Como próprio caminho, o Mestre é individual, fala ao coração e à razão de uma forma tão clara e directa que se torna incontestável a verdade relativa e absoluta do que afirma.

Tenho convivido com alguns mestres: uns autoproclamados, com mérito e sem mérito, outros aos quais reconheço mestria na sua dimensão humana e intelectual profunda – o que não deixa de ser a minha percepção, ajustada em função meu próprio mapa mental –, outros são mestres nas artes da escrita, da política, da associação comunicativa e de gentes.

Como pressuposto de teste, assumo que a todos estes a mestria acorra como uma dimensão, uma parte de um todo maior, uma inspiração, uma dádiva, uma canalização, um reflexo de um espírito, de um cérebro e de uma mente activa, toldada pelas vivências, pelas paixões, pelas lições apreendidas e dadas.

Conversarei com alguns destes pequenos mestres, com homens e mulheres insuspeitos mas que apresentem alguma das características puramente indiciáticas, suspeitas, incomuns ou meramente extraordinárias que nos propomos deslindar.

O objectivo desta obra é encontrar ou reencontrar esse Mestre natural, consensual, essa trave-mestra que temos presente ou da qual sentimos falta. Em boa verdade, um desafio não menos exigente que a própria procura da afirmação ou negação irrefutáveis de Deus.

Uma diferença impera, contudo. Procura-se o Mestre não para saber se é existente ou inexistente, apenas para o conseguir identificar quando um dia, verídico ou hipotético, estejamos na sua presença.

domingo, outubro 30, 2011

Lamparina

Lamparina, que danças
perdida uma chama de fogo
sangue e amor.

Iluminas esta vida vazia,
Pelo desespero entrecurtada
consumindo na tua luz um segredo

No teu regaço,
o calor de um beijo
No teu azeite,
uma só alma deixada.

Ao encontro do teu desejo,
A chama reluzente adorna
dois corpos inanimados

Lamparina antiga, deixada em oração,
Iluminaste quanto podias,
Mas nunca tão negro coração.


a epopeia dos sonhos leva-me longe, onde não há mestre ou estrela guia, numa perseguição infalível do que nunca posso agarrar

cerro os dentos e avanço, despedaço estilhaços e faço da terra chão circulante. das manhãs às noites, rios de gente que esperam, aguardam, reclamam e pedem um pouco de tom, um pouco de atenção, alarmantes as vozes que vagueiam entre choros e gargalhadas.

a minha atenção divide-se em mil pedaços, escoados entre vastos lagos de tempo e razão, amores perdidos e vontades conquistadas pela força do punho fechado.

não sou o monstro que me apareço, nem o anjo de asas desfraldadas.

há um pouco do que leva cada um, em mim, como em nós, um sopro de expectativa que ao longe, trazida por ecos, nos desperta em silêncio.

regressando hoje um dia a antes de ontem, as escolhas tomadas, incoerentes e certas, serão calhaus e pedras certeiras com a mira cega entre os olhos.

a manhã é assim mesmo, como a noite. o céu como a terra, a gente como a solidão. perpétuos ciclos elípticos, ilusórios como reais. e, de repente, não sei mais em que confiar.

no que vejo? no que sinto? no que ouço? no que espero? no que lembro? no que desconheço? no que sei e não mostro?

segunda-feira, março 07, 2011

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Épica Epopeia

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!


II


E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!


III


Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano.
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.


IV


E vós, ninfas do Douro onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene

 
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