"Recomeça... Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."
Miguel Torga
segunda-feira, junho 20, 2005
sábado, junho 11, 2005
À Minha Própria Genealidade
Um único tempo em que se acalma, saciada, a voz íntima que vai segredando os desejos. Um momento introspectivo em que volta a concentração, só interrompida por espasmos involuntários, lancinantes, mas que rapidamente são controlados.
O trabalho rende mais, como que houvesse uma descarga contínua de energia acumulada. O tempo, multiplicado, dá uma sensação de paz, tranquilidade e segurança, em que tudo pode ser finalizado.
Parece um verão permanente, mesmo que chova copiosamente do lado de fora da janela.
E aos poucos, apesar de tanta actividade, de tantas distracções... tudo vai voltando ao seu ritmo normal... tudo vai? ou serei eu que vou? Serei, também, parte do tudo que está lá fora?
Aos poucos a fadiga faz-se sentir, e os pensamentos começam, lentamente, a sucederem-se num circulo. No final do terceiro dia já dou por mim a pensar "- Não. Concentra-te no que tens que fazer, que isso só te leva a nada." Mas, no quarto dia, já nem essa tentativa de autocontrole se afigura com clareza. "- Não devia mas, também, não importa.".
É um vício, um estupefaciente que causa habituação. Um constante sentar e levantar da cadeira em direcção ao armário, ao frigorífico. O passear entre uma divisão e outra da casa, à procura da única coisa que me vai saciar, como se, por milagre, a fosse encontrar nalgum desses sítios.
Olho cada local em que ele esteve, o meu tabaco, e, fitando apaticamente esse espaço, lembro, ou imagino - já nem sei -, os pormenores que dão a alma a cada imagem... a forma, a cor... o cheiro. E de tanto pensar os pormenores já nem sei se são verdade, ou fruto da minha alucinação patológica.
E os efeitos físicos não tardam em surgir: uma sonolência, um cansaço. Uma vontade de me abandonar a cada ímpeto, quando o mais certo seria, no entanto, ficar apático, durante horas e horas a fio, olhando uma parede nua e branca. Um estado de choque e desilusão. Um destilar de vontades frustradas. Uma sensação de impotência, um apagar das luzes. Sentir que perdi uma parte de mim, que só por breves momentos reencontrei. Sinto-me incompleto.
E, lentamente, batendo no fundo, sente-se novo solo sob os pés. Ainda que lamacento, é suficiente para que se dê um novo impulso ascendente. Um novo erguer após cada queda. O caminho natural de ser.
Oxalá houvesse alguma mão que me içasse ou deitasse uma corda. Assim, escalarei com os meus próprios braços e pernas, com estes músculos doridos e estas unhas rasgadas e ensanguentadas.
A partir deste momento, só se ascende até que se atinja o limite superior. Aí nada mais resta que recomeçar a descida. Para que novamente nos voltemos a erguer. Não há nada estático e imutável para quem se submeta a este vício por que me deixei conquistar.
Cada momento é uma batalha que se trava: umas vezes para nos libertarmos, outras para nos deixarmos aprisionar.
É o fim do quarto dia.
O trabalho rende mais, como que houvesse uma descarga contínua de energia acumulada. O tempo, multiplicado, dá uma sensação de paz, tranquilidade e segurança, em que tudo pode ser finalizado.
Parece um verão permanente, mesmo que chova copiosamente do lado de fora da janela.
E aos poucos, apesar de tanta actividade, de tantas distracções... tudo vai voltando ao seu ritmo normal... tudo vai? ou serei eu que vou? Serei, também, parte do tudo que está lá fora?
Aos poucos a fadiga faz-se sentir, e os pensamentos começam, lentamente, a sucederem-se num circulo. No final do terceiro dia já dou por mim a pensar "- Não. Concentra-te no que tens que fazer, que isso só te leva a nada." Mas, no quarto dia, já nem essa tentativa de autocontrole se afigura com clareza. "- Não devia mas, também, não importa.".
É um vício, um estupefaciente que causa habituação. Um constante sentar e levantar da cadeira em direcção ao armário, ao frigorífico. O passear entre uma divisão e outra da casa, à procura da única coisa que me vai saciar, como se, por milagre, a fosse encontrar nalgum desses sítios.
Olho cada local em que ele esteve, o meu tabaco, e, fitando apaticamente esse espaço, lembro, ou imagino - já nem sei -, os pormenores que dão a alma a cada imagem... a forma, a cor... o cheiro. E de tanto pensar os pormenores já nem sei se são verdade, ou fruto da minha alucinação patológica.
E os efeitos físicos não tardam em surgir: uma sonolência, um cansaço. Uma vontade de me abandonar a cada ímpeto, quando o mais certo seria, no entanto, ficar apático, durante horas e horas a fio, olhando uma parede nua e branca. Um estado de choque e desilusão. Um destilar de vontades frustradas. Uma sensação de impotência, um apagar das luzes. Sentir que perdi uma parte de mim, que só por breves momentos reencontrei. Sinto-me incompleto.
E, lentamente, batendo no fundo, sente-se novo solo sob os pés. Ainda que lamacento, é suficiente para que se dê um novo impulso ascendente. Um novo erguer após cada queda. O caminho natural de ser.
Oxalá houvesse alguma mão que me içasse ou deitasse uma corda. Assim, escalarei com os meus próprios braços e pernas, com estes músculos doridos e estas unhas rasgadas e ensanguentadas.
A partir deste momento, só se ascende até que se atinja o limite superior. Aí nada mais resta que recomeçar a descida. Para que novamente nos voltemos a erguer. Não há nada estático e imutável para quem se submeta a este vício por que me deixei conquistar.
Cada momento é uma batalha que se trava: umas vezes para nos libertarmos, outras para nos deixarmos aprisionar.
É o fim do quarto dia.
11 de Junho de 05
segunda-feira, junho 06, 2005
Azul bebé?
Atrás destas grades, vejo-me passar e chamo e grito. Já fui, sem reparar que fiquei para trás.
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