segunda-feira, outubro 31, 2005

domingo, outubro 30, 2005

Momentos

«Há momentos na vida em que sentes a falta de alguém que até gostarias de tirar dos teus sonhos e abraçá-lo! Sonha o que quiseres sonhar, vai até onde quiseres ir, sê o que tu quiseres ser. Porque só tens uma vida e uma oportunidade para fazer todas as coisas que quiseres fazer.
Que tenhas...
...suficiente felicidade para seres doce
...suficientes provas para seres forte
...suficiente dor para seres humano
...suficiente esperança para seres feliz.

Coloca-te sempre no lugar dos demais. Se te dói é provável que doa também à outra pessoa. As pessoas mais felizes não têm necessariamente o melhor de tudo no seu caminho.
A felicidade aguarda...
...aqueles que choram
...aqueles que sofrem
...aqueles que se esforçam

Porque só essas pessoas podem apreciar a importância daqueles que deixam marcas nas suas vidas. O Amor nasce com um sorriso, cresce com um beijo e acaba com uma lágrima. O futuro mais brilhante se faz quando não se valoriza demais o passado, pois não vencerás se não deixares para trás os teus fracassos e tristezas.»

não teria trazido este texto
se não tivesse sido escrito por uma grande amiga minha,
cuja sensibilidade vai tão além do que mostra
Y.

sábado, outubro 29, 2005

Catrapuz

Sinto-me na corda bamba e não sei bem para que lado cair, mas lá que caio.. caio!

sexta-feira, outubro 28, 2005

O país que não merece ser desenvolvido

Portugal fez tudo errado, mas correu tudo bem. Esta é a conclusão de um relatório internacional recente sobre o desenvolvimento português. Havia até agora no mundo países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Mas acabou de ser criada uma nova categoria: os países que não deveriam ser desenvolvidos. Trata-se de regiões que fizeram tudo o que podiam para estragar o seu processo de desenvolvimento e... falharam.
Hoje são países industrializados e modernos, mas por engano. Segundo a fundação europeia que criou esta nova classificação, no estudo a que o DN teve acesso, este grupo de países especiais é muito pequeno. Alias, tem mesmo um só elemento: Portugal.
A Fundação Richard Zwentzerg (FRZ), iniciou há uns meses um grande trabalho sobre a estratégia económica de longo prazo. Tomando a evolução global da segunda metade do século XX, os cientistas da FRZ procuraram isolar as razões que motivavam os grandes falhanços no progresso. O estudo, naturalmente, pensava centrar-se nos países em decadência. Mas, para grande surpresa dos investigadores, os mais altos índices de aselhice económica foram detectados em Portugal, um dos países que tinham também uma das mais elevadas dinâmicas de progresso.
Desconcertados, acabam de publicar, à margem da cimeira de Lisboa, os seus resultados num pequeno relatório bem eloquente, intitulado: "O País Que Não Devia Ser Desenvolvido - O Sucesso Inesperado dos Incríveis Erros Económicos Portugueses".
Num primeiro capítulo, o relatório documenta o notável comportamento da economia portuguesa no último meio século. De 1950 a 2000, o nosso produto aumentou quase nove vezes, com uma taxa de crescimento anual sustentada de 4,5 por cento durante os longos 50 anos. Esse crescimento aproximou-nos decisivamente do nível dos países ricos. Em 1950, o produto de Portugal tinha uma posição a cerca de 35 por cento do valor médio das regiões desenvolvidas. Hoje ultrapassa o dobro desse nível, estando acima dos 70 por cento, apesar do forte crescimento que essas economias também registaram no período. Na generalidade dos outros indicadores de bem-estar, a evolução portuguesa foi também notável.
Temos mais médicos por habitante que muitos países ricos. A mortalidade infantil caiu de quase 90 por mil, em 1960, para menos de sete por mil agora. A taxa de analfabetismo reduziu-se de 40 por cento em 1950 para dez por cento.
Actualmente a esperança de vida ao nascer dos portugueses aumentou 18 anos no mesmo período. O relatório refere que esta evolução é uma das mais impressionantes, sustentadas e sólidas do século XX. Ela só foi ultra passada por um punhado de países que, para mais, estão agora alguns deles em graves dificuldades no Extremo Oriente. Portugal, pelo contrário, é membro activo e empenhado da União Europeia, com grande estabilidade democrática e solidez institucional. Segundo a FRZ, o nosso país tem um dos processos de desenvolvimento mais bem sucedidos no mundo actual. Mas, quando se olha para a estratégia económica portuguesa, tudo parece ser ao contrário do que deveria ser. Segundo a Fundação, Portugal, com as políticas e orientações que seguiu nas últimas décadas, deveria agora estar na miséria. O nosso país não pode ser desenvolvido. Quais são os factores que, segundo os especialistas, criam um desenvolvimento equilibrado e saudável? Um dos mais importantes é, sem dúvida, a educação.
Ora Portugal tem, segundo o relatório, um sistema educativo horrível e que tem piorado com o tempo. O nível de formação dos portugueses é ridículo quando comparado com qualquer outro país sério. As crianças portuguesas revelam níveis de conhecimentos semelhante às de países miseráveis. Há falta gritante de quadros qualificados. É evidente que, com educação como esta, Portugal não pode ter tido o desenvolvimento que teve. Um outro elemento muito referido nas análises é a liberdade económica e a estabilidade institucional. Portugal tem, tradicionalmente, um dos sectores públicos mais paternalista, interventor e instável do mundo, segundo a FRZ.
Desde o "condicionamento industrial" salazarista às negociações com grupos económicos actuais, as empresas portuguesas vivem num clima de intensa discricionariedade, manipulação, burocracia e clientelismo. O sistema fiscal português é injusto, paralisante e está em crescimento explosivo. A regulamentação económica é arbitrária, omnipresente e bloqueante.
É óbvio que, com autoridades económicas deste calibre, diz o relatório, o crescimento português tinha de estar irremediavelmente condenado desde o início. O estudo da Fundação continua o rol de aselhices, deficiências e incapacidades da nossa economia. Da falta de sentido de mercado dos empresários e gestores à reduzida integração externa das empresas; da paralisia do sistema judicial à inoperância financeira; do sistema arcaico de distribuição à ausência de investigação em tecnologias. Em todos estes casos, e em muitos outros, a conclusão óbvia é sempre a mesma: Portugal não pode ser um país em forte desenvolvimento.
Os cientistas da Fundação não escondem a sua perplexidade. Citando as próprias palavras do texto: "Como conseguiu Portugal, no meio de tanta asneira, tolice e desperdício, um tal nível de desenvolvimento? A resposta, simples, é que ninguém sabe.
Há anos que os intelectuais portugueses têm dito que o País está a ir por mau caminho. E estão carregados de razão. Só que, todos os anos, o País cresce mais um bocadinho. "A única explicação adiantada pelo texto, masque não é satisfatória, é a incrível capacidade de improvisação, engenho e "desenrascanço" do povo português. "No meio de condições que, para qualquer outra sociedade, criariam o desastre, os portugueses conseguem desembrulhar-se de forma incrível e inexplicável."
O texto termina dizendo: "O que este povo não faria se tivesse uma estratégia certa?".
por João César das Neves

A aprender a viver

No universo de cada um há um equilíbrio dourado, que se mantém por si mesmo.
Recebemos quando pedimos, recebemos sem o fazer. Damos quando nos pedem, damos sem saber que o fazemos. E temos a capacidade de multiplicar o que chega até nós e redistribuí-lo. Confidenciamos num momento e logo de seguida somos confidentes. Soltamos os nossos lamentos e ouvimos os lamentos dos outros.
E o alento que os amigos nos dão, quer saibam que o estão fazendo, quer ignorem os efeitos que despertam, torna-se a fonte de alento que doaremos novamente.
No espaço de uma hora, passei o que recebi e tornei-me mais rico. Vejo uma corrente, um circulo de pureza.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Um pouco mais de sul

«Há uns tempos, o Zé Carlos escrevia que ninguém se deve despedir com lágrimas nos olhos, porque havendo-as não há justa causa para uma despedida. Antes deve valer tudo, desde urros a humilhação, passando por insultos, ou não há motivo para a despedida. É preciso votar o outro ao desprezo e matar o que quer que seja necessário matar. Não assim, aqui, n'Um Pouco Mais de Sul. As lágrimas existem nesta despedida e ter a consciência de fechar esta porta implica voltar costas a algo que foi bom ao longo destes dois anos; mas por vezes as palavras escapam-nos, crescem, autonomizam-se e adquirem significados e interpretações que não foram por nós queridas e atingem aqueles por quem nutrimos a mais sentida estima. E escrever é um acto de liberdade que não pode ser cuidado nos seus limites nem nos significados, porque de outra forma deixa de ser um prazer.»

quarta-feira, outubro 26, 2005

Chained

Está qualquer coisa em bruto, cá dentro, e quer sair. Mas não deixo. Não assim, porque se o permitisse seria demasiado devastador. Tenho que lhe dar uma forma, limitar-lhe a energia. Tenho que deixar que as ameias do meu peito absorvam os seus embates, a ferocidade das investidas. Deixar que os murros e pontapés que se desfiram contra mim, esperando que se acalme. Se o soltasse agora destruir-me-ia e a todos os que sentisse. Um fulgor bestial carregado em sangue e lágrimas. Carregado em vida e morte. Mata por dentro, lentamente e com prazer, alimentando-se ruidosamente. Não posso soltá-lo. Já não.

Céu

Cada vez mais longe de mim, vou subindo e subindo, ao céu de azul, onde tudo é etéreo e familiar. As nuvens são sempre iguais umas às outras, onde quer que estejas. Na Holanda, ou na China, em Marrocos ou em Cuba, nos Estados Unidos ou na Rússia. São sempre as mesmas. As que transportam chuva são negras, como em qualquer outra parte. As brancas algodoais têm sempre as mesmas formas. E um céu sem nuvens é sempre um céu sem nuvens.
Este céu é sempre o mesmo. Para mim ou para ti. Não difere em nada do outro céu de há meses atrás, porque o que se passa lá em cima é grande demais para que percebamos cá em baixo. Subimos, para ver melhor, porque em perspectiva nunca havemos de estar longe o suficiente para ter a visão do todo.
É grande demais. Tão grande que quatro braços estendidos não chegam para o abraçar pela metade. Qualquer coisa que peça mais que quatro braços estendidos deve ser imensurável. Quatro braços estendidos deviam ser o máximo que se podia exigir para medir o céu. E qualquer um que fosse além disso devia ser retirado da cartografia.
Céus há muitos. Há o céu dos pássaros, o céu das moscas, o céu de Deus, o céu de cada um, o céu que dá toucinho, o céu da terra, o céu das nuvens, o céu da lua, o céu do sol, o céu estrelado, o céu dos prédios altos, o céu dos aviões, o céu de tempestade, o céu azul.
Não há o céu dos homens porque, esse, ou é, já, o céu de cada um, ou é o céu de Deus. Se calhar, não fomos feitos para ter um céu só nosso.
Ou, então, não. Se calhar, foi um só um lapso e, apenas, ainda não se lembraram de fazer um céu só para nós.

domingo, outubro 23, 2005

sábado, outubro 22, 2005

Espectro de mim

Sinto-me cansado. Sabes? Sinto-me completamente esgotado. Pelo menos hoje dormi muito, acordei perto das duas da tarde, com um sabor amargo na boca, como se tivesse bebido na noite anterior. Senti-me sozinho, no quarto da minha infância. Conheces aquela sensação quando te encontras num espaço só teu? Em que tudo está da forma que queres, mas em que não há vida além de ti próprio? Estava eu, assim, quando acordei.
Ao longo do corpo percorria-me um calor abrasivo provocado pelo calor combinado do aquecimento, do edredon e do cobertor. Curiosamente, os lençóis ainda são de Verão.
Como me apetecia poder continuar a dormir. Gostava de ficar a dormir durante toda uma semana, ou durante um mês. Sem interrupções. Se calhar, assim, conseguia descansar, que achas?
A verdade é que, quando acordo tenho a sensação de nem sequer ter dormido. A noite passou no momento em que cerrei as pálpebras e as voltei a abrir. Era escuro antes de o fazer, continua escuro depois de abrir os olhos. O dia e a noite já não se distinguem. Tudo é uma luz cinzenta escura, onde antes era cor.
Pensas que ceguei? Não. Porque dizes tu algo tão terrível? Como é que podes pensar que ceguei?
Morreram os meus olhos, mas ainda oiço, ainda cheiro, ainda consigo sentir as paredes molhadas, quando tacteio o caminho. Eu não estou cego.
Que carta é essa que sai em baralho? É uma paus? É uma ouros? O que é? Um três de copas. Bom. É uma boa carta. É uma carta de equilíbrio. Diz-me que devo estar no caminho errado. Não é possível! Eu estava a tocar a parede, vim sempre a tocá-la até aqui e conheço-a de cor. De certeza que é um três de copas? Estás a ver bem? Não será um dois?
Quem quer saber do que dizem as cartas, também? Elas não nos conhecem. E não sabem o que vamos fazer a seguir, não o podem prever. São conspirações de gente que se quer guiar por oráculos para poder dizer que nao tem culpa. Eu acho que a parede é um guia muito melhor que o baralho. Vou continuar a tacteá-la até onde conseguir.
É sempre lisa, sem esquinas, e segue sempre em frente. Já devemos ter andado um terço do percurso. Que te parece? Ainda aí estás? Ainda vens comigo, ou ja fechaste esta janela no teu ecrã? Eu vim ter contigo, aqui. Dei-te uma parte preciosa do meu tempo. Tempo de quem não consegue ver o mostrador do relógio, ou a própria cara de manhã. E tu? Dás-me algum do teu tempo? Dás-me o tempo de me leres, e de descobrires onde esta parede nos leva? Vá lá... não me largues agora, que eu já não posso voltar para trás e para onde vou torna-se penoso ir sozinho. Podes seguir outra direcção se quiseres, podes agarrar outra parede que te guie melhor que esta, mas não queria que voltasses para trás.
Já falta pouco, vês? Quantas linhas? Não sei ao certo, mas já não podem ser muitas. É que, sabes... eu estou cansado e as noites já não me revigoram. Durmo parece que sonho, mas não, é só o espectro das cores do dia. Agora é tudo cinzento escuro, já to tinha dito? Desculpa, então. Dá-me o teu tempo, peço-te.
Não. Não insistas. Eu não estou cego. Só não consigo ver.

In Nomine Rei


Há coisas com as quais não sei lidar. E quanto mais as receio mais erro, e quanto mais erro mais as receio. E quando não as erro, nem receio, é porque não soube lidar com elas.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Amorphophallus titanum

A maior flor do mundo, o jarro titã (Amorphophallus titanum), floriu em Stuttgart. Numerosos visitantes admiram a espantosa flor, com 2,91 metros, no Jardim Zoológico e Botânico Wilhelma. A flor resiste no máximo 48 horas.
Stuttgart, Alemanha

quinta-feira, outubro 20, 2005

Milagres

"A Course in Miracles" diz que não há graus de dificuldade com os milagres. Isto porque, para Deus, nada é difícil. Todas as coisas são possíveis, e não meramente possíveis como também fáceis.
No entanto, apesar de não haver graus de dificuldade, há espécies e tamanhos diferentes. Existem milagres grandes e milagres pequenos. Há milagres rápidos e milagres que levam mais tempo. Há milagres que podem ser facilmente explicáveis, e milagres que não podem.
Nem todos os milagres se parecem com curas. Fred Ruth ficou curado, mas isso não deve levar outras pessoas a perguntar por que razão o seu ente querido não recebeu um "milagre" e morreu. Até a morte de uma pessoa pode ser um milagre, embora possa não ser a forma que desejaríamos para o milagre.
A minha definição de milagre é "exactamente a coisa certa, da forma exactamente correcta, na altura exactamente certa." A história da separação do velho Sr.Colson do seu corpo é um explêndido exemplo. Como é também, de um modo menos dramático mas não menos perfeito, a história do homem que apanhou David Daniel naquela placa pedonal no meio da rede de auto-estradas da cidade de Nova Iorque.
Sempre que rezo por um milagre, para mim ou para outra pessoa, descubro que dá muita força e é muito reconfortante "deixar Deus decidir" a forma que o milagre vai ter. Utilizo estas palavras: "Isto era o que eu gostava, Deus, mas só se for para maior e melhor bem de todos os envolvidos. Por favor, Deus, faz o que for para maior e melhor bem. De toda a gente. Sei que o farás. Ámen."
Há vinte e cinco anos que utilizo esta oração e tem sido muito reconfortante. É a minha versão de "entregar-se e entregar a Deus".Disse antes que quanto mais nos apercebermos de que os milagres acontecem todos os dias nas nossas próprias vidas, tanto mais milagres nos virão a acontecer. No entanto, muitos milagres passam despercebidos, sem serem reconhecidos como tal, por não serem considerados por nós "milagrosos".
Frequentemente não é o que aconteceu que é milagroso mas sim o momento em que aconteceu. O acontecimento pode ser facilmente explicado, mas o facto de ter acontecido quando aconteceu foi o que o tornou invulgar. E assim podemos não lhe chamar um milagre mas sim sincronicidade .
Muitas vezes o que é milagroso não é o que aconteceu ou quando, mas como. Uma série de acontecimentos totalmente explicáveis pode reunir-se de uma maneira particular, quase quixotesca, para produzir um resultado altamente improvável. Podemos não lhe chamar um milagre mas sim acaso feliz .
Por vezes o acontecimento que ocorre nas nossas vidas é totalmente explicável e nem o momento nem a forma como acontece são invulgares. Contudo o próprio facto de estar a acontecer, e a nós, é impressionante. Mesmo assim, podemos nem chamar a isso um milagre, mas sim sorte .
Muitos seres humanos darão todos os nomes que forem capazes de imaginar aos milagres de Deus excepto "milagre de Deus", porque não acreditam em Deus ou não acreditam em milagres - ou não acreditam que os milagres lhes possam acontecer. E, se não acreditarem numa coisa, não a verão como ela realmente é. Porque crer é ver. Não é o contrário.
É precisamente por esta razão que podem não se ver a si próprios como Quem Realmente São. Nem sequer sabem que o vosso Eu é um milagre. No entanto, é isso que vocês são. Um milagre em curso. Porque ainda estão longe de ter terminado e Deus nunca termina convosco.
Neale Walsch in "Momentos de Graça"

Indian Painting

sábado, outubro 15, 2005

Rain and Warmth


No recorte transbordante de uma chama, num pavio de vela branca, inspira-se o sabor da luz e do calor. E, lá fora, bate a chuva na janela e sinto cada pingo tocar as telhas, escorregando por estas paredes frias. Ao longe, um rio de sussurros de aves, salpicando os ramos dos cedros, no jardim. E, cá dentro, um som reconfortante e calmo que soa, mais ou menos, assim...

quinta-feira, outubro 13, 2005

pirâmide

Que, por tão curva, encheu o espaço

Carreiros na Lua

As coisas que oiço de quem passa são versos soltos ao vento, acordes insofismáveis da alma em brancura. Reflexos do linho nos campos, que aguarda ser colhido e fiado e tecido.

Uma manta de malhas entrecruzadas no espaço de um lençol, o seu esvoaçar num estendal, sendo levada pelo vento e caindo no chão. Naquela erva verde, rebolando sobre si mesma, dobrando-se e amarrotando-se contra o seu próprio corpo, acariciando o pasto dos rebanhos.

É trabalho das mãos hábeis e frias de alguém que não lembra o dia em que nasceu. Aquela carcaça enrugada, presa em xailes que já se confundem com a pele. Levou os rebanhos vezes sem conta para os montes frescos e o vento cortou-lhe o rosto, cavou-lhe os traços dos olhos, cerrou-lhe as sobrancelhas, de tanto que franziu o cenho.

Não consegue contar em números de gente as horas, os dias, os meses. É a Lua que a rege, a Lua que lhe dita os jeitos do mundo, das árvores, das criações e do próprio cabelo, atado numa burleta preta.

Deita os ovos às galinhas quando a noite é mais escura, coisas de gente que não fala os dialectos do mundo. Lá, onde as noites iluminam o céu das nuvens em tons de fogueira, chamam-lhe, as pessoas, nova, à Lua. Mas, esses, não sabem aquele palavreado de gente, que é gente porque não lembra a idade.

Vive o mundo no que sente, incerta se aquele carreiro que percorre desemboca no mesmo sítio de dias anteriores. Os carreiros mal marcados e pouco vagueados têm destas coisas, mudam de noite os seus destinos, só para se divertirem quando as velhas cegas e decrépitas se perdem em lugar estranho. Elas, velhas carcomidas pelos anos que não contam, olham as árvores, baças, a seus olhos já vesgos, esperando reconhecer-lhes o tronco por alguma marca talhada a canivete, por algum resto de resina, por algum cheiro de outros tempos. Cheiro dos tempos de luz em que as terras lhes pareciam novas, ou novidade.

Rodopia, trémula, sobre si e bate com as costas num tronco, como numa parede que a ampare. Prostra-se com a cara gelando contra o manto de caruma e húmus daquele chão, lavado de chuvas novas. As mãos erguidas ao céu de um Deus que nunca viu mas sempre lhe disseram que existia. Solta-se-lhe uma lágrima que compreende a solidão onde se acha, o abandono a que se votou nos seus séculos de clausura. Está só em sangue e alma, num chão húmido e repleto de vida que a recebe e consome, perdida de si na irmandade de um mundo que lhe escapou entre os dedos.

World Press Photo 2005, 1st prize

quarta-feira, outubro 12, 2005

O Orgulho de Ser Português


«A Quinta da Regaleira constitui um dos mais surpreendes monumentos da Serra de Sintra. Situada no termo do centro histórico da Vila, foi construída entre 1904 e 1910, no derradeiro período da monarquia. Os domínios românticos outrora pertencentes à Viscondessa da Regaleira, foram adquiridos e ampliados pelo Dr. António Augusto Carvalho Monteiro (1848-1920) para fundar o seu lugar de eleição. Detentor de uma fortuna prodigiosa, que lhe valeu a alcunha de Monteiro dos Milhões, associou ao seu singular projecto de arquitectura e paisagem o génio criativo do arquitecto e cenógrafo italiano Luigi Manini (1848-1936) bem como a mestria dos escultores, canteiros e entalhadores que com este haviam trabalhado no Palace Hotel do Buçaco.

Homem de espírito científico, vastíssima cultura e rara sensibilidade, bibliófilo notável, coleccionador criterioso e grande filantropo, deixou impresso neste livro de pedra a visão de uma cosmologia, síntese de memória espiritual da humanidade, cujas raízes mergulham na Tradição Mítica Lusa e Universal.

A arquitectura e a arte do palácio, capela e demais construções foram cenicamente concebidas no contexto de um jardim edénico, salientando-se a predominância dos estilos neo-manuelino e renascentista.

O Jardim, representação do microcosmo, é revelado pela sucessão de lugares imbuídos de magia e mistério. O paraíso é materializado em coexistência com um inferius - um dantesco mundo subterrâneo - ao qual o neófito seria conduzido pelo fio de Ariadne da iniciação. Concretiza-se com estes cenários a representação de uma viagem iniciática, qual vera peregrinatio mundi, por um jardim simbólico onde podemos sentir a Harmonia das Esferas e perscrutar o alinhamento de uma ascese de consciência que viaja pelas grandes epopeias. Nele se vislumbram referências à mitologia, ao Olimpo, a Virgílio, a Dante, a Camões, à missão templária da Ordem de Cristo, a grandes místicos e taumaturgos, aos enigmas da Arte Real, à Magna Obra Alquímica.


Nesta sinfonia de pedra - cinzelada pelas mãos de construtores de Templos , imbuídos num verdadeiro espírito de Tradição - revela-se a dimensão poética e profética de uma Mansão Filosofal Lusa.

Aqui se fundem o Céu e a Terra numa realidade sensível, a mesma que presidiu à teoria do Belo, da Arquitectura e da Música, que a concha acústica o Terraço dos Mundos Celestes permite propagar pelo infinito.»

por ocasião da visita à quinta, hoje.

terça-feira, outubro 11, 2005

segunda-feira, outubro 10, 2005

Primeira Página...

«Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?

Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.

PEDRO TAMEN

1. Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus - mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira. Quando o pior acontecia, aquele sorriso descia às minhas trevas com um soluço de baloiço, um gingar de gonzos arrancado às cordas da infância. Eu sentava-me nele e subia, balouçando até à luz. O pior aconteceu-me cedo, tive sorte. Deus procura primeiro os que sofrem antes do conhecimento específico da dor, talvez porque os outros sabem demasiado para poderem ser salvos.

Tu dizias que era ao contrário: que Deus nasce da ignorância própria dos sofrimentos prematuros. Mas tu, meu aluno dilecto, cedo te deixaste povoar pelo excesso do saber. Deus não sabia nada do Universo quando o criou. Imagino que se sentiria só. Imagino que num momento impreciso essa solidão se terá tornado maior do que Ele próprio, estourando numa gigantesca flor de luz. E imagino-O, depois, tentando dar um sentido particular a cada uma das pétalas dessa luz dispersa. Agora que saí do corpo que fui - para me tornar pólen, poeira nos teus olhos, pura imaginação de mim - imagino-o melhor ainda, ébrio de luz, lúcido, encandeado por um Lúcifer oculto e criador incrustado no seu próprio se, em estado de paixão com a história desencadeada pela sua omnipotente solidão. E balouço no Seu sorriso outra vez, a vez definitiva porque o meu corpo está lá em baixo, num caixão, contemplado e lembrado e chorado pela última vez.

Não me levantarei da cama amanhã depois de Lhe pedir em surdina que dê um impulso maior ao balouço, que o empurre com força até que os pés me voem para fora do calor aterrado dos lençóis. Ninguém mais vai estar à minha espera, não terei de me disfarçar de desculpas, não voltarei a iludir ou desiludir ninguém. Não voltarei a morrer no corpo do único homem que me abriu no corpo a passagem secreta para a morte. Não voltarei à desilusão do renascimento. Sobretudo não voltarei a desiludir-te a ti, o descrente que ensinou a crer melhor, o meu pequeno e velho Deus de algibeira, o meu amigo.

Despojada de corpo é-me mais fácil transformar-me no próprio balouço, na luz dançante de que ele é feito. Num murmúrio de vento peço-Lhe que não me empurre tão depressa para esse lugar iluminado que é a Sua Carne, peço-Lhe que me deixe matar saudades desse mundo que deixei tão de repente. Matar saudades de ti. Ou matar-te, como fazem as crianças, para recomeçar uma outra história, no balouço quotidiano do teu sorriso.

Só o teu riso dura. Mostrei-te o mar.
Mostrei-to antes e depois de morreres.

LUIS FILIPE CASTRO MENDES
»

Inês Pedrosa

sábado, outubro 08, 2005

Reminiscências

Fui transportado até aqui, como se viajasse numa nuvem alta, ao som da música dos Counting Crows. Era a isto que os antigos clássicos chamavam "reminiscência", parece-me. «Ao veres Símias, lembras-te de Cebes». O Fédon, Platão.














Serra da Estrela, 27/02/05

quinta-feira, outubro 06, 2005

Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

segunda-feira, outubro 03, 2005

Luar

O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.

Sophia

sábado, outubro 01, 2005

 
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