Que não atendas o telefone, que vires a cara qd passamos um pelo outro, que não desças para conversar. Tudo isso eu percebo.
Mas sabes o que me entristece? É ver-te sem saberes o que queres. Tentas eliminar a história que te transformou no que és hoje, quando há tantas coisas boas nela.
E depois, de madrugada, à noite, ou durante a tarde, ou durante uma hora de almoço, e por vezes logo ao acordar, vens aqui procurar algo familiar. Voltas sempre ao passado. Voltas sempre a mim e ao que escrevo. Parte por curiosidade, parte porque se tornou um hábito. Parte porque é uma forma de controlares o estado das coisas. E, sem falsa modéstia, parte porque eu sou importante para ti e porque tens sentimentos conflituantes quando pensas no percurso que seguimos lado a lado no último ano.
E se eu te fechasse a porta? Se deixasse de acreditar em ti e no bom que tens? Tinhas a desculpa que precisavas para virares completamente as costas. Tomava eu a decisão por ti.
Mas não o faço. Porque gosto de ti. Porque sei quem és de verdade. Porque conheço-te e sei que precisas de uma pausa e de uma oportunidade.
Adivinho que o trabalho te esteja a correr bem, mas que já procuras outra coisa. Suponho que já estás aborrecido, que não sentes ali grandes expectativas de evolução. Penso que estás a contactar com muita gente interessante e, no entanto, desejas trabalhar onde essas pessoas trabalham, mais do que no sítio onde estás. Por agora é conveniente, permite-te fazer o q gostas. Mas chega-te para o futuro? Acredito que a fiscalidade continue a parecer-te aliciante, mas tens dúvidas se é caminho certo. Mas, ao mesmo tempo, por que não? Aproveita este ano para fazeres um bom CV em fiscal, se o dinheiro te sobra. É preciso tomar riscos, fazer investimentos.
A carreira é algo fundamental para ti, que justifica vir em primeiro lugar, porque é algo que depende exclusivamente teu trabalho individual. É matemático, seguro e racional. Se trabalhas, colhes bons frutos. Tu és inteligente, competente e sabes que ter uma carreira de sucesso implica sacrifício. Tens razão, é essa a fórmula. Mas há muitos tipos de sacrifício e, infelizmente, a maioria não tem impacto para a carreira, apenas para a tua felicidade pessoal.
Como em todos os trabalhos, uma pessoa tem de mostrar-se forte e confiante. Por tanto acreditares nisto, achas que as tuas relações pessoais com colegas de trabalho e amigos são um caminho aberto para pareceres fraco e sujeito a ataques. Dessa forma, tentas mantê-los afastados e, com isso, perdes um pouco a confiança deles, ou pelo menos, trata-los como um meio para os teus fins. Isto seria tolerável se tu fosses um cabrão, mas felizmente tens uma consciência e, no final, é essa ética que acaba por pesar nas tuas escolhas e os teus objetivos desvanecem um pouco com o passar do tempo. Relativizam-se.
A parte antagónica nisto tudo é que tu precisas muito da validação externa - a mesma que procuras afastar do teu dia-a-dia e do teu raciocínio. A tua autoconfiança só é suficiente para lidar com uma certa área da tua vida. O que verdadeiramente te dá estabilidade para perseverar no trabalho e no resto são os reforços e os estímulos positivos que recebes de quem te acompanha e está em redor. E se eles te faltam entre quem te conhece bem, vais procura-los em desconhecidos. E novamente, volta a tua consciência a falar mais alto.
Reconheces aqui algum padrão? Soa-te de alguma maneira familiar relativamente às escolhas pessoais e profissionais que tens feito?
E eu falo-te nisto não para te expor, nem para demonstrar um lado teu que se calhar preferias manter guardado e certamente que não falo nisto para julgar-te.
Eu falo nisto para nos justificar aos dois e ao que se está a passar.
Tu sabes que eu vejo um pouco (bastante) através das tuas defesas. Achas que me deixaste entrar demais na tua vida, que me deste esse voto de confiança e que eu não o soube manter. Achas que, por isso, eu me tornei uma parte do problema, alguém que sabe demais, que te faz recordar coisas que preferes esquecer e que, na mesma linha de raciocínio, te vai manter preso a um momento e a um estado do qual te queres libertar.
Por outras palavras, enquanto te deres comigo não evoluis, não te distancias do que foste num determinado momento e a minha presença há-de levar-te sempre a reviver memórias pesadas e desilusão.
Mas eu não sou tudo isso. É verdade que sou uma testemunha. Mas não sou testemunha de um crime, nem de uma traição, nem de um assassinato.
Sou apenas testemunha de ti. Sou testemunha de momentos maus, mas também sou testemunha de momentos excelentes. Tu és testemunha de bons momentos meus, que partilhei contigo, e também dos mais negros que só a ti confessei.
Se somos alguma coisa um ao outro, somos apenas testemunhas das mudanças. Não podemos ser marcos do tempo. A história, a tua e a minha, não podem ser catalogadas numa cronologia "antes de MV-RJ" e "depois de RJ-MV". Nenhum de nós tem assim tanta importância, nem influenciou de tal forma a vida um do outro. O que estava para acontecer, ia acontecer de uma maneira ou outra, quer tu ou eu ou outra pessoa qualquer estivesse presente.
Tens direito a estar cansado, chateado e a quereres distância, assim como eu tenho direito a dizer-te que isso é uma forma de meter a cabeça na areia em vez de lidar com o problema de fundo: a incapacidade de nos ignorarmos completamente e os simultâneos sentimentos de raiva, desilusão, tolerância, ódio e amizade, todos metidos dentro do mesmo saco. Se há um ponto até ao qual conseguimos perceber por que o outro se comportou daquela maneira, por outro lado a expectativa que tínhamos relativamente ao outro foi frustrada e traz muito ressentimento.
E entristece-me que o que aconteceu entre nós possa contribuir para abraçares ideias e sentimentos que não são verdadeiros e não nos fazem bem. Fico triste porque sinto que uma parte de ti está presa a ressentimento e raiva (eu como objeto), quando uma simples conversa podia ser suficiente para limpar esse estado de espírito. Eu sei que estás zangado com muita coisa, incluíndo comigo. Mas também sei que uma parte de ti continua a gostar de mim.
Eu também tenho os mesmos sentimentos relativamente a ti e procuro desenleá-los uns dos outros, um a um. Procuro andar tranquilo e desejo acreditar que a amizade que temos um pelo outro não morra debaixo dos escombros. E durante todo o dia vou pedindo perdão, não sei bem a quem, por ter magoado a pessoa de quem mais gosto além da minha família.
Esta "conversa" que estou a ter, destina-se apenas a uma parte de ti, àquela que pensa a sério sobre todos os assuntos e não tem tabus; aquela que consegue reconhecer a amizade que subsiste e que só raramente vem ao de cima.
Não estou a falar para o teu Eu superficial, orgulhoso e teimoso.
É para o teu Eu mais profundo, sem barreiras mentais, que estou a falar, porque é aí que vive o meu amigo. E se para rever o meu amigo tenho que ser mordido pela outra fera, então que seja. Porque continuas a valer a pena.
Obrigado por leres.
Um abraço!