Acabadinho de regressar, não haverá, à partida, muito que contar sobre mais um país que, por pertencer à união europeia, se quer europeu. A Holanda, contudo, é um fenómeno raro em que, embora estejamos em solo europeu, parece que nos encontramos numa realidade autónoma, com regras e costumes extremamente diferentes daqueles a que estamos habituados nos restantes países da União.
Não sei muito bem como explicar, mas parece que o padrão de vida da Europa ocidental-central é desajustado ao estilo de vida holandês.

Comecemos por aquilo que salta à vista de imediato. Circulação rodoviária. Os carros são pouquíssimos, quando comparando com os que circulam nas principais cidades de cada país. A rede de transportes é extremamente coerente com as necessidades sociais e bem organizada, ainda que com um custo elevado. A bicicleta prolifera como se de uma praga se tratasse. Não há holandês que não tenha sua querida bicicleta pasteleira e que não a leve de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Hierarquicamente têm prioridade: as bicicletas sobre os tram (eléctricos), os tram sobre os carros, os carros sobre os peões. Se somos peões, o melhor a fazer é atravessar depressa antes que sejamos atropelados por um ciclista em sprint, ou calcinados por um tram. Nunca cedem passagem aos peões. Atravessar uma rua releva-se, por isso, uma tarefa complexa que envolve um elevado grau de risco, visto que as passadeiras são escassas, e uma qualquer estrada ou rua é composta na seguinte ordem: ciclovia, via para automóveis, carris de tram, via para automóveis, ciclovia. Isto implica, por isso, olhar para cada lado da rua uma média de 10 vezes, antes que se consiga atingir a outra margem.

Quanto aos horários, estes são bizarros e com certas nuanças dificilmente explicáveis. O comércio, serviços e todo o resto do conjunto de actividades citadinas (à excepção dos transportes) começam às 10 horas da manhã e terminam às 18 horas da tarde. Impreterivelmente. A partir das 18 horas as ruas (que já durante o dia têm pouquíssima gente) ficam completamente desertas. Duas excepções: Às 5ªs-Feiras, por algum motivo que não consegui apreender, mas que deve existir, as lojas fecham apenas às 21 horas; aos Domingos, os restaurantes (apenas) abrem às 13 horas.

Outra coisa um tanto bizarra é o sistema de recolha do lixo, que só é realizado 1 vez por semana, o que implica guardar em casa (devido à inexistência, prática, de contentores de rua) o lixo que se vai acumulando ao longo de uma semana.
Um ponto positivo... toda a gente fala inglês fluentemente. Desde o pessoal do aeroporto, ao simples varredor de ruas (que não me consta que existam por lá, a julgar pela quantidade de dejectos canídeos e pastilhas que atapetam o chão).

Arquitectura. Tradicionalmente, existem casas revestidas a tijolo tipo burro, uma espécie de tijoleira vermelha, com telhados inclinados. As janelas são amplas e ocupam uma grande área das paredes exteriores, não tendo estores, mas apenas cortinas. Quase todas as casas estão equipadas com bons sistemas de aquecimento, que contrastam com as temperaturas baixas que se fazem sentir nas ruas. O planeamento urbanístico é excelente e rege-se por um critério de funcionalidade, tentando eliminar ao máximo a permanência fora de casa. Por este motivos, as cidades holandesas são cidades desoladoras e sem vida, em que um planeamento tão rigoroso faz delas autênticas maquetas - cidades-modelo, mas que não se destinam preferencialmente ao encontro dos cidadão em sede de re publica. As cidades tornam-se meras fontes de rendimento para as pessoas, em vez de espaços de vida e convívio.

Os holandeses, como sociedade, são extremamente racistas, ainda que parte do consumo interno e consequente taxação seja realizado pelas extensas comunidades árabes e negras do país. Costumávamos dizer, a título de (alguma, mas não total) brincadeira que os holandeses são uma minoria que está em casa.
A língua... não é bem uma língua... como alguém que conheço costuma dizer.... «Dutch is not a language... it's a throat disease.»
As cidades são megalómanas. Na construção, na decoração e na instrumentalização. Um exemplo dito é Roterdão. Destruída com a II Guerra Mundial, as linhas de reconstrução fundaram-se num estilo vanguardista, característico das grandes metrópoles americanas. Edifícios altíssimos com um planeamento milimétrico de espaços e funções disponibilizadas aos transeuntes. Roterdão tem o maior porto náutico do mundo, com um tráfego anual de cerca de 40.000 mil navios, e cuja área será cerca de 10 vezes superior à da cidade terrestre de Roterdão (que é já a 2ª maior da Holanda, após Amsterdão).

A alimentação é pobre em diversidade. Alimentam-se diariamente de pé, nas ruas, às horas de almoço, e quase exclusivamente à base de fritos e pão. O pequeno-almoço comum de um holandês, parece-nos, a nós, adeptos da torradita e do iogurte, que se esbate num único alimento - batatas fritas. Assim como o almoço, o lanche e o jantar. E elas existem de todas as formas, tamanhos e feitios. Existem pequenas, média e grandes, compridas e curtas, em palitos, em espiral, em rodelas, em círculos, em bolas, etc etc etc.. Proliferam os McDonalds, os Burger King, e os KFC, sempre cheios de gente, e em quantidades de 3 e 4 restaurantes por rua.
O clima é húmido nas zonas baixas, onde chove de cerca de meia em meia hora, durante cerca de 10 minutos, uma espécie de chuva que não molha. As temperaturas são baixas, mas suportáveis. Por isso, acabámos por concluir que naquelas terras estranhas "O frio é psicológico, e a chuva não molha!". Foi a nossa máxima. O que eles não fariam se tivessem metade do nosso sol.
Não obstante tudo isto, têm das melhores colecções de arte (sobretudo pintura) da europa e alguns dos nomes mais sonantes da história das artes têm aquela nacionalidade e estão nos seus museus.

Ali ao lado, Bruxelas, e novamente entramos na europa a que estamos habituados.
