Já não brilho como costumava brilhar. Os que hoje me olham não podem compreender onde estou. Dias há em que me sinto uma candeia sem azeite. Olham para mim em busca daquilo a que os habituei, em busca de uma serenidade que perdi. Procuram um resto do que dantes lhes podia dar, o alento e o exemplo de paz interior a seguir. Já não a tenho. Gastei-a. Eu não me costumo queixar às pessoas que me rodeiam. Em casa, sou acusado de ninguém saber o que faço, ou quem sou. Deve ser estranho, para os pais, ter alguém debaixo do mesmo tecto que não conhecem. Deixei de poder confiar neles. Deixei de confiar em quem quer que seja no momento em que criam expectativas sobre o que faço, ou não faço, sobre o que penso, ou não penso. Tentam adivinhar, por tentativas, quem eu sou, na esperança do cansaço me fazer revelar o que não me sinto preparado para dizer. Sinto-me apartado das pessoas. Não percebo nada de gente. Porque gente sente, não pensa. E eu penso na gente que parece que não pensa e vejo-me só. Afasto-me do mundo porque nunca lhe pertenci. Não sou parte de maiorias, nem de minorias. Olho para mim e vejo as minhas qualidades e os meus defeitos, e deixo uma ampla margem de dúvida para tudo o que sei que a minha visão não abarca. Eliminei as expectativas e, consequentemente, eliminei as surpresas. Por isso quando me deparo com algo que não espero, não me surpreendo, e como não tenho qualquer resposta preparada para dar ao que não espero, simplesmente, também, não reajo. E vejo as situações passar, ao meu largo, incapaz de tomar uma posição e uma atitude. E, mais uma vez, fico só com os meus pensamentos, que não interessam a ninguém. E a outra pessoa segue, porque eu a ignorei, ou desprezei. Vejo-me tão vazio neste momento que não me interesso muito se lêem o que escrevo. Escrevo, porque um mundo de desconhecidos que por aqui passa consegue dar mais importância ao meu pedido de socorro que os que estão junto a mim, ou comigo se cruzam diariamente. Erro, Erro, Erro, Erro. Eu sei que erro. Eu vejo que erro. Eu admito-te que erro e errei e continuarei a errar. Não o consigo evitar. E eu quero corrigir o que erro, quero, pelo menos, tentar fazê-lo. Mas não sei como. Não sei onde estou, ou como vim aqui parar. Não sei como sair. E ninguém percebe, ninguém ouve. Eu preciso da mesma atenção que vos dou, mesmo quando pensam que não vejo. Que não ouço. Que não sinto. Eu nunca escrevi um texto com tantos "eus". Eu nunca precisei de o fazer. Agora preciso. Sinto-me desamparado, desajustado, frustrado, recriminado, enganado, humilhado, perdido, desfeito, enclausurado, estraçalhado, esgotado. Preso dentro de mim mesmo, à rigidez de carácter que me preserve a sanidade mental, que sinto escapar-me aos poucos. O meu equilíbrio mantinha-me e foi quebrado. E o meu equilíbrio vivia não na materialidade dos meus dias, não numa qualquer escola ou instituição. Não no que tinha ou podia comprar para mim ou para outros. Mas numa habituação a um estado de solidão com que toda a vida convivi e pelo qual nunca me permiti afectar. E o que escrevo, neste momento, são novas descobertas a que chego só agora, enquanto as ponho na escrita, à medida que penso sobre mim. E esse estado foi afectado e essa lacuna aparentemente preenchida. E o que temo, nesta hora, pensar que tudo tenha assentado no preenchimento de um buraco na minha personalidade e, consequentemente, no medo de o voltar a abrir. A injustiça que vislumbro assombra-me ainda mais que este meu estado de confissão depressiva. E a ideia do meu medo, de voltar a uma situação que não me satisfazia, ainda que não me torturasse, parece-me tão mesquinha e pequenina, que me vejo indigno de qualquer afectividade. E ainda assim não a consigo evitar, nem a quero evitar. Vai e vem, simplesmente. E quando vem, o mundo parece-me melhor e cheio de esperança. Como agora. E quando vai, encerro-me sobre mim mesmo e soluço compulsivamente as incertezas e inseguranças da minha vida. Como agora. Eu já li, que estes são os sintomas de uma depressão, cito: "Perda de energia ou interesse, humor deprimido, ou oscilações injustificáveis de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações do apetite e do sono, lentificação das actividades físicas e mentais, sentimento de pesar ou fracasso, chorar à toa, dificuldade para chorar, sentimento de pena de si mesmo, sentimentos de culpa injustificáveis, insónia", etc. Mas nem isso me assusta. Só me entristece ainda mais, porque sempre achei que era mais forte que isso. Afinal não sou. Mesmo que não esteja deprimido, na sua acepção técnico-patológica, estou-o no seu sentido corriqueiro. E ninguém sabe. E ninguém quer saber. E eu já não quero saber que não saibam, porque as pessoas que o sabiam preferiram ignorar, ou porque acreditavam que eu havia de ser sempre capaz de superar tudo, ou porque desvalorizaram o sofrimento contínuo por que passo, como forma de se precaverem do mal que lhes possa causar. Encontrei, por fim, o estado final a que me reconduzo: abandono. Abandonado pelos outros, que só querem o que tenho de bom e fogem do resto, e por mim próprio, em quem já não acredito.
segunda-feira, novembro 07, 2005
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