segunda-feira, maio 07, 2012

Ain't no memories left
Ain't anymore rest
Your love's fading last
As my life's plugin' in

Never Let Me Go

sexta-feira, novembro 04, 2011

Define-nos a antítese, ou a verdade do que somos exige uma contraparte, nivelada pelo que temos e manifestamos?

Há um anjo que me agarra,
No poeiral do terreno
Que abraçando me ampara
Suspenso sobre o abismo

Há um anjo negro e branco,
Preso na sombra que me embala
Terno lamento
E de novo sem intento
Caio em desamparo.

Anjo branco, luz e sombra
Que me entonteces a mente louca
Acordas o sonho, a quimera negra
Que tão de certo
No meu antro rebaixado
Me agoniza a pena lestra
Que me leva ao teu regaço.

Altura enorme e crua que pede,
Anjo de terna morte
Que nada vive onde te enlaças.

Numa vingança tão violenta
Tão estupre e ansiosa
Anjo negro e anjo branco
Ao recanto esperando,
À coca, o tropeço derradeiro
Do servo errante.

o Mestre

Existe uma procura incessante, por um achado tão raro e distante do qual apenas rezam os livros de história, os contos bíblicos, Homero e os clássicos nas suas epopeias, os fascinados da nova era, da nova ordem, do novo despertar.

Há muitos nomes para o que se procura, muitas expectativas sobre o que se irá encontrar, e muita tinta, muitas ideias discorridas sobre os métodos, a preparação interior e exterior para atingir tal epifania do ser, como se a própria existência de quem procura estivesse ameaçada de morte, em perigo de extinção.
Entre livros de auto-ajuda, relatos de tradições ocultistas perdidas no tempo, na memória de ordens secretas com fins obscuros ou, pelo menos, cuja revelação esteja sujeita à prática iniciática, todos mais ou menos confluem na sua génese, naquilo que os moveu ao encontro de um despertar, de um conhecimento mais profundo.

O Homem dos dias de hoje – nele me incluo, ou doutro modo nunca disto me daria conta – procura o que tantos outros procuraram na antiguidade clássica, na idade medieval, no renascimento, no iluminismo, no modernismo, na contemporaneidade.

Procura-se um caminho, é certo, mas algo mais além do caminho. O caminho é o alvo fácil. Conhecer a existência do caminho e até os detalhes do percurso em nada acalmam os que têm sede de nele se aventurarem. Por vezes três passos são suficientes para satisfazer a curiosidade. Outras vezes, ascender a escadaria até aos últimos degraus da iluminação, do conhecimento último é suficiente para preencher o vazio, mas insuficiente para encontrar respostas contundentes.

Alguns apaziguam a sua natureza inquisitiva com a companhia de outros ambulantes, perdem-se na magia dos rakings e das iniciações, apresentam-se e auto-integram-se numa hierarquia imperfeita, reflexo da ordem cabalística dos céus. Criam-se cursos, conferem-se graus, iniciam-se e reiniciam-se praticantes e curiosos na esperança de apaziguamento intelectual muito além do espiritual, muito além do mental.

Há enraizada na humanidade uma amnésia colectiva, uma necessidade de redescoberta na ordem inversa da progressão do tempo. Um passado histórico da humanidade, esquecido e enterrado em eras, séculos e décadas, correntes doutrinais e académicas, escolas e confissões, dogmas e rejuvenescimentos.
Mas tudo busca, todos procuram um Mestre que lhes diga o que foram, o que são e o que serão.
O Mestre é quem falta no caminho percorrido e a percorrer, o último degrau na hierarquia. É a quem recorrer, o guia maior do templo que guarda os melhores indícios para as respostas às perguntas mais difíceis de formular.

Para o discípulo, o Mestre é aquele que conhece a pergunta verdadeira que reorienta a busca e é a certeza de companhia no meio da solidão.

O Mestre para muitos apresenta-se como o próprio caminho ou, vice-versa, o caminho é o próprio Mestre.
A mestria magistral, aquela que ensina sem ser pedida, a que está presente sem se revelar, a que se releva sem ofuscar; é esta a busca incessante do homem inquieto e cobarde.

A cobardia aqui é boa. Não me tomem por arrogante. Cobarde sou eu também que vivo na imensa busca de um saber transcendente, na esperança de encontrar alguém que me mostre o caminho para lá chegar.
A cobardia, sinto-a todos os dias quando sigo o caminho mais fácil para o trabalho, o que me leva em linha recta, sem desvios, e que me transporta, talvez pela parte mais feia da cidade, quando na rua ao lado existe um belo jardim pronto a ser atravessado.

Hoje procuro o Mestre dos mestres, na história, no presente, no futuro, como se a dimensão do tempo de nada importasse. E tenho para comigo, como tese que proponho explorar, que tal Mestre é uma ilusão se o julgarmos uno, indivisível, presente, omnisciente.

Os muitos que procuram um Mestre procuram um Deus em disfarce, um peregrino que resgate S. Martinho debaixo do intenso aluvião.

Chamam-lhe Mestre porque a palavra Deus soa, na Europa e em geral na ocidentalidade, como algo desconfiável, uma ideia sem sustentação científica como se a sustentação científica fosse pressuposto da fé e não, talvez, parte da sua antítese necessária e imutável.

Não me lanço na procura de Deus. Muitos tentaram e continuam a tentar, com bastante mais displicência, conhecimento e sabedoria que aquela que eu posso oferecer a tão imensa tarefa. Aos teólogos e ateus deixarei esse labor; aos primeiros a prova da existência, aos segundos a sua refutação.

Mas um Mestre é diferente de um Deus. A procura de um Mestre é menos pretensiosa, é mais pessoal.

Como próprio caminho, o Mestre é individual, fala ao coração e à razão de uma forma tão clara e directa que se torna incontestável a verdade relativa e absoluta do que afirma.

Tenho convivido com alguns mestres: uns autoproclamados, com mérito e sem mérito, outros aos quais reconheço mestria na sua dimensão humana e intelectual profunda – o que não deixa de ser a minha percepção, ajustada em função meu próprio mapa mental –, outros são mestres nas artes da escrita, da política, da associação comunicativa e de gentes.

Como pressuposto de teste, assumo que a todos estes a mestria acorra como uma dimensão, uma parte de um todo maior, uma inspiração, uma dádiva, uma canalização, um reflexo de um espírito, de um cérebro e de uma mente activa, toldada pelas vivências, pelas paixões, pelas lições apreendidas e dadas.

Conversarei com alguns destes pequenos mestres, com homens e mulheres insuspeitos mas que apresentem alguma das características puramente indiciáticas, suspeitas, incomuns ou meramente extraordinárias que nos propomos deslindar.

O objectivo desta obra é encontrar ou reencontrar esse Mestre natural, consensual, essa trave-mestra que temos presente ou da qual sentimos falta. Em boa verdade, um desafio não menos exigente que a própria procura da afirmação ou negação irrefutáveis de Deus.

Uma diferença impera, contudo. Procura-se o Mestre não para saber se é existente ou inexistente, apenas para o conseguir identificar quando um dia, verídico ou hipotético, estejamos na sua presença.

domingo, outubro 30, 2011

Lamparina

Lamparina, que danças
perdida uma chama de fogo
sangue e amor.

Iluminas esta vida vazia,
Pelo desespero entrecurtada
consumindo na tua luz um segredo

No teu regaço,
o calor de um beijo
No teu azeite,
uma só alma deixada.

Ao encontro do teu desejo,
A chama reluzente adorna
dois corpos inanimados

Lamparina antiga, deixada em oração,
Iluminaste quanto podias,
Mas nunca tão negro coração.


a epopeia dos sonhos leva-me longe, onde não há mestre ou estrela guia, numa perseguição infalível do que nunca posso agarrar

cerro os dentos e avanço, despedaço estilhaços e faço da terra chão circulante. das manhãs às noites, rios de gente que esperam, aguardam, reclamam e pedem um pouco de tom, um pouco de atenção, alarmantes as vozes que vagueiam entre choros e gargalhadas.

a minha atenção divide-se em mil pedaços, escoados entre vastos lagos de tempo e razão, amores perdidos e vontades conquistadas pela força do punho fechado.

não sou o monstro que me apareço, nem o anjo de asas desfraldadas.

há um pouco do que leva cada um, em mim, como em nós, um sopro de expectativa que ao longe, trazida por ecos, nos desperta em silêncio.

regressando hoje um dia a antes de ontem, as escolhas tomadas, incoerentes e certas, serão calhaus e pedras certeiras com a mira cega entre os olhos.

a manhã é assim mesmo, como a noite. o céu como a terra, a gente como a solidão. perpétuos ciclos elípticos, ilusórios como reais. e, de repente, não sei mais em que confiar.

no que vejo? no que sinto? no que ouço? no que espero? no que lembro? no que desconheço? no que sei e não mostro?

segunda-feira, março 07, 2011

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Épica Epopeia

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!


II


E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!


III


Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano.
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.


IV


E vós, ninfas do Douro onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene

quinta-feira, setembro 16, 2010

Come Home

"O que me move é a vocação divina da palavra, que não apenas nomeia mas que inventa e produz encantamento.
Estamos todos amarrados aos códigos colectivos com que comunicamos na vida quotidiana. Mas quem escreve quer dizer coisas que estão para além da vida quotidiana."
Mia Couto

quarta-feira, agosto 18, 2010

My thought My mind My heart

The cruelty of life is not in being given no second chances but in having new ones permanentely offered back.

quarta-feira, julho 28, 2010

sábado, julho 10, 2010

a desculpa dos "porquê?", como se o "porque sim!" não bastasse

por vezes, gostaria de saber pensar como uma pessoa normal. não sei o que há de normal nas pessoas normais, mas gostava de pensar como tal, de conseguir conversar como tal, de encontrar e sentir interesses como tal. Tal e qual qualquer pessoa normal, sinto vontade de experimentar, de conhecer, de me exprimir, talvez, por vezes, com demasiada veemência - tanta, que parece até presunção inaudita ou desajustada à conversa que se proporciona. A proporção da conversa face ao momento ou ao tema conversado é, também, algo que me aflige - será que sei?, será que saberei? será que interesso ou me interessa, sequer, o que penso que sei? E, no entranto da hesitação, o risco de que o momento, a oportunidade se eclipse, sem mais nem porquê, parece de tal forma previsível que uma pessoa alvitra hipóteses ou interrogações, consciente de que as mesmas servem um propósito de saber, mas, adicionalmente, o de não deixar cair em saco roto a conversa com pessoas que nos interessa conhecer. Digo conhecer, não compreender, isso não acontece... por maior e mais legítimo o interesse, dificilmente acontecerá. Não me entendo a mim próprio, pelo como entender-te a ti também através de conversa de circunstância, ainda que descontextuada do padrão "normal" de conversa de café? Não respondo a tais questões; não ouso sequer fazê-lo, mas espero consegui-lo, algures num tempo que seja limitado ou delimitado pelo recorte dos programas e agendamentos pelos quais formatamos encontros e nos deixamos formatar. Digo deixamos pois acredito na supremacia última do ser e da vontade que sou em ser. Em afirmar-me através do espaço, em perpetuar-me através do tempo. A minha auto-imposição não carece de requerimentos nem de autorizãções, e quem me olha nos olhos, como que lendo linhas soltas, apercebe-se da revolta do sentir desmesuradamente e do grito permanentemente abafado. Mas o grito inaudível sou eu, também. Talvez até mais que a sonoridade da minha voz ou a irrespeitável pseudo-intelectualidade que me arrogo. Não que não afirme o que saiba; faço-o e com prazer, como que ensinando o que me foi ensinado e assim posso ser eu mesmo uma profecia autorrealizada. E embora o apego enfraqueça o espírito, o espírito prevalece sempre, mais além do que me prende aos ditames sociais e da sociabilização entre aparentes irrisórios iguais - como se a própria igualdade quisesse ou desejasse arrogar-se mais que o papel de mediana entre os extremos personificativos em que nos movemos. Os limites, máximo e mínimo, existem. São absolutos e intransponíveis quão instransponível é própria concepção e fé que destes fazemos, como se o nosso mundo, aquilo que somos, fosse por estes balizados e destes não se evadisse - o que é uma ideia ridícula e errada. O tecido que nos entrecruza é vivo, humano e sentimental. Sentimental porque sente, física e psicologicamente; vivo porque se desvanece e o deixa de ser. Se assim não fosse, nem sequer o seria. Acreditar no alpha e no ómega, no saber e no desconhecer, corrermos atrás do conhecimento ou em perseguissão da ignorância não passa disso mesmo: ir atrás. Sempre atrás e nunca à frente. É preciso esquecer o que somos e acreditar no que vamos ser, não pelo que seremos mas pelo que já somos na fé do que seremos. É esta a verdadeira essência de ser, a insustentável leveza que nos atormenta e da qual, desligados, nos acreditamos apartados e necessitados de maior busca que não seja apreender o que até nós é trazido, na ilusão de que aquilo que é trazido não somos também nós que trazemos sempre, por mais roupagens que vistamos.

terça-feira, julho 06, 2010

A Universal Philosophical Refutation

A philosopher once had the following dream.

First Aristotle appeared, and the philosopher said to him, "Could you give me a fifteen-minute capsule sketch of your entire philosophy?" To the philosopher's surprise, Aristotle gave him an excellent exposition in which he compressed an enormous amount of material into a mere fifteen minutes. But then the philosopher raised a certain objection which Aristotle couldn't answer. Confounded, Aristotle disappeared.
Then Plato appeared. The same thing happened again, and the philosophers' objection to Plato was the same as his objection to Aristotle. Plato also couldn't answer it and disappeared.

Then all the famous philosophers of history appeared one-by-one and our philosopher refuted every one with the same objection.

After the last philosopher vanished, our philosopher said to himself, "I know I'm asleep and dreaming all this. Yet I've found a universal refutation for all philosophical systems! Tomorrow when I wake up, I will probably have forgotten it, and the world will really miss something!" With an iron effort, the philosopher forced himself to wake up, rush over to his desk, and write down his universal refutation. Then he jumped back into bed with a sigh of relief.

The next morning when he awoke, he went over to the desk to see what he had written. It was, "That's what you say."

Raymond Smullyan, 5000 B.C. and Other Philosophical Fantasies. St. Martin's Press, 1983

domingo, julho 04, 2010

Apologia do trabalho

"Causas do conflito

Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários.

A solução socialista

Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para - os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.

A propriedade particular

De facto, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito da propriedade mobiliária e imobiliária? Assim, esta conversão da propriedade particular em propriedade colectiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu património e melhorarem a sua situação.

Mas, e isto parece ainda mais grave, o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural. Há, efectivamente, sob este ponto de vista, uma grandíssima diferença entre o homem e os animais destituídos de razão. Estes não se governam a si mesmos; são dirigidos e governados pela natureza, mediante um duplo instinto, que, por um lado, conserva a sua actividade sempre viva e lhes desenvolve as forças; por outro, provoca e circunscreve ao mesmo tempo cada um dos seus movimentos. O primeiro instinto leva-os à conservação e à defesa da sua própria vida; o segundo, à propagação da espécie; e este duplo resultado obtêm-no facilmente pelo uso das coisas presentes e postas ao seu alcance. Por outro lado, seriam incapazes de transpor esses limites, porque apenas são movidos pelos sentidos e por cada objecto particular que os sentidos percebem. Muito diferente é a natureza humana. Primeiramente, no homem reside, em sua perfeição, toda.a virtude da natureza sensitiva, e desde logo lhe pertence, não menos que a esta, gozar dos objectos físicos e corpóreos. Mas a vida sensitiva mesmo que possuída em toda a sua plenitude, não só não abraça toda a natureza humana, mas é-lhe muito inferior e própria para lhe obedecer e ser-lhe sujeita. O que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência, e em virtude desta prerrogativa deve reconhecer-se ao homem não só a faculdade geral de usar das coisas exteriores, mas ainda o direito estável e perpétuo de as possuir, tanto as que se consomem pelo uso, como as que permanecem depois de nos terem servido.

Uso comum dos bens criados e propriedade particular deles

Uma consideração mais profunda da natureza humana vai fazer sobressair melhor ainda esta verdade. O homem abrange pela sua inteligência uma infinidade de objectos, e às coisas presentes acrescenta e prende as coisas futuras; além disso, é senhor das suas acções; também sob a direcção da lei eterna e sob o governo universal da Providência divina, ele é, de algum modo, para si a sua lei e a sua providência. É por isso que tem o direito de escolher as coisas que julgar mais aptas, não só para prover ao presente, mas ainda ao futuro. De onde se segue que deve ter sob o seu domínio não só os produtos da terra, mas ainda a própria terra, que, pela sua fecundidade, ele vê estar destinada a ser a sua fornecedora no futuro. As necessidades do homem repetem-se perpetuamente: satisfeitas hoje, renascem amanhã com novas exigências. Foi preciso, portanto, para que ele pudesse realizar o seu direito em todo o tempo, que a natureza pusesse à sua disposição um elemento estável e permanente, capaz de lhe fornecer perpetuamente os meios. Ora, esse elemento só podia ser a terra, com os seus recursos sempre fecundos. E não se apele para a providência do Estado, porque o Estado é posterior ao homem, e antes que ele pudesse formar-se, já o homem tinha recebido da natureza o direito de viver e proteger a sua existência. Não se oponha também à legitimidade da propriedade particular o facto de que Deus concedeu a terra a todo o género humano para a gozar, porque Deus não a concedeu aos homens para que a dominassem confusamente todos juntos. Tal não é o sentido dessa verdade. Ela significa, unicamente, que Deus não assinou uma parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades à indústria humana e às instituições dos povos. Aliás, posto que dividida em propriedades particulares, a terra não deixa de servir à utilidade comum de todos, atendendo a que não há ninguém entre os mortais que não se alimente do produto dos campos. Quem os não tem, supre-os pelo trabalho, de maneira que se pode afirmar, com toda a verdade, que o trabalho é o meio universal de prover às necessidades da vida, quer ele se exerça num terreno próprio, quer em alguma parte lucrativa cuja remuneração, sai apenas dos produtos múltiplos da terra, com os quais ela se comuta. De tudo isto resulta, mais uma vez, que a propriedade particular é plenamente conforme à natureza. A terra, sem dúvida, fornece ao homem com abundância as coisas necessárias para a conservação da sua vida e ainda para o seu aperfeiçoamento, mas não poderia fornecê-las sem a cultura e sem os cuidados do homem. Ora, que faz o homem, consumindo os recursos do seu espírito e as forças do seu corpo em procurar esses bens da natureza? Aplica, para assim dizer, a si mesmo a porção da natureza corpórea que cultiva e deixa nela como que um certo cunho da sua pessoa, a ponto que, com toda a justiça, esse bem será possuído de futuro como seu, e não será lícito a ninguém violar o seu direito de qualquer forma que seja."


Rerum Novarum - 1891
"a morte é como o bacalhau: há 1001 maneiras de executar e apenas 1 de provar"

sexta-feira, julho 02, 2010

Vertigens

Por vezes encontramos encruzilhadas, linhas traçadas, entrelaçadas como meadas de lã tricotadas em formatos sempre originais e inovadores, que nos impedem de utilizar comportamentos padronizados, aprendidos e inculcados ao longo da nossa vida e por via das experiências reunidas.

Fosse a experiência verdadeiramente nossa e não uma mera ilusão passageira e fugaz, talvez se compreendesse o medo de perder aquilo que ridiculamente acreditamos possuir ou ter direito.

Somos navegadores em campo de mártires, procurando em redor por auxílio, apenas para olhar as costas dos desertores e as faces dos abatidos pregadas ao chão.

É neste momento que caímos, por dentro e por fora, de joelhos à terra e mãos ao rosto, mais que chorando, inquirindo e desafiando a força utópica dos destinos, entrecruzados como nós próprios nas teias que tecemos e nas quais nos deixamos adormecidademente enleados, suspensos à sombra do abismo que nos propomos escalar sem nunca o fazer. Não por medo. Apenas vertigens.


"Tinha uma vontade brutal de fazer qualquer coisa que a impedisse de voltar atrás. Tinha vontade de anular brutalmente os últimos sete anos da sua vida. Eram vertigens. Um inebriante, um incontrolável desejo de cair.

Poderia talvez dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas em vez de resistir-lhe, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra."

A Insustentável Leveza do Ser
Milan Kundera

quarta-feira, junho 30, 2010

quinta-feira, junho 24, 2010

Directions

acho que te conheço de algum lugar, tão distante e perdido que esqueci por completo qual. não consigo perceber ou explicar, mas foste mais além do agora, mais acima do que és. mas não te entendo. não entendo o que te tornaste, do que vieste, para onde vais. nem tu fazes ideia, também. perdido, deambulando confuso, convencido do caminho e direcção. mas seguindo sempre. sempre. sempre. sempre.

"Alice: Would you tell me, please, which way I ought to go from here?
The Cat: That depends a good deal on where you want to get to.
Alice: I don't much care where.
The Cat: Then it doesn't much matter which way you go.
Alice: …so long as I get somewhere.
The Cat: Oh, you're sure to do that, if only you walk long enough."

Alice and the Cat – Quotes:
Alice in Wonderland

domingo, junho 20, 2010

Balança com Ascendente em Virgem

Virgem é um Signo que não se deixa influenciar facilmente, tem reacções lentas e duráveis, possui um espírito laborioso e crítico, mas é um pouco introvertido e egocêntrico. O nativo de Virgem leva demasiado a sério a vida, os seus acontecimentos e as responsabilidades. O nativo de Balança é um ser acima de tudo equilibrado, ponderado, elegante, evoluído, disposto a dar o coração totalmente. Ora tudo isto está muito longe do que Virgem proporciona. O indivíduo Balança que tem Virgem como Ascendente, tende a trabalhar com mais precisão, exactidão e minúcia. Perturba-o o facto de ser instintivamente extrovertido e sente-se coagido quando contacta o seu semelhante. Este indivíduo deve procurar modificar o seu carácter para resolver os seus problemas de comunicação e conviver com toda a confiança quando se trata da relação com os outros. Esta combinação Balança/Virgem favorece as faculdades perceptivas e confere habilidade nas questões que requeiram lucidez e percepções aguçadas. A sua natureza não é perseverante e por vezes vacila em atitudes e opiniões.


As finanças desempenham um papel de destaque na sua vida, mas enfrenta dificuldades e obtém pouco sucesso. Como é uma pessoa que se volta para os outros, a vida social e as uniões estão favorecidas. Gosta de ser prestável se isso não for contra os seus interesses. Tem sensibilidade aos cheiros e por vezes é um tanto maníaco, as coisas nunca estão em ordem, nem as pessoas suficientemente limpas. É sentimental, mas está sempre à defesa, podendo tropeçar, no entanto, nas armadilhas do amor.
 
Tem um temperamento hipersensível, estético e requintado, além de ser uma pessoa bastante amável, com senso prático e dotada de uma certa habilidade. Poderá vir a ser um excelente professor e pode ser atraído pela medicina alternativa ou pelos alimentos naturais. A horticultura, a agricultura e a enfermagem também estarão de acordo com o seu gosto. Poderá ter grande talento para o artesanato, para a cerâmica, por exemplo. Como gosta de trabalhar com afinco, isso fá-lo-á crescer. É natural que sinta atracção pelo Signo de Peixes.
 
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