Um dia sonhei com um anjo que chorou comigo,
num lugar além das minhas memórias e das minhas dores,
sofri por ti e por mim, busquei a felicidade de todos,
vi-os infelizes e segui infeliz até agora e mais um pouco...
manda-me uma mensagem, se puderes,
tenho tantas coisas que quero perguntar e entender
que não sou o único louco neste mundo de misérias bem pagas
e de onde se tem sede num mar de lágrimas...
segunda-feira, maio 22, 2006
the greatest story ever told
percorro os dias entre lembranças distantes e o trabalho fatigante que me deixa descansar dessas memórias. aprendi a pôr no trabalho toda a energia que possuo, para conseguir chegar ao fim com tão pouco tempo que não possa pensar em mim e nas coisas que perdi, nas pessoas que passaram ao lado e que nunca mais conseguirei tocar.
resta-me tão pouco que já não consigo escrever com tanta frequência como costumava fazer. perco a lógica do mundo entre as contínuas viagens de carro, entre casa e a faculdade, cruzando sempre as mesmas ruas, dia após dia, hora após hora, noite após noite.
quando saio com os meus amigos não me consigo divertir. eles não percebem, nem têm que o perceber, mas sinto que quantas mais pessoas estão em meu redor mais só me sinto.
rio e digo disparates, entro nas conversas dos outros, que não conheço, na esperança de conseguir reencontrar a parte de mim que perdi. e sinto-me frustrado. sinto-me tão frustrado como quando não recebemos a resposta que gostavamos de ouvir, áquela pergunta que durante dias e noites infinitas ensaiamos algures dentro de nós, entre a cabeça e a garganta, e que nunca conseguimos dizer.
as palavras certas, que nunca sairam completamente, por medo de perder o que não temos, e nos fizeram falhar. será que terei falhado a minha vida? quantas vezes não me obrigo a despertar de sonhos feitos em suposições sem fundo de verdade, com raízes nos desejos do mundo ideal por onde vagueio, só para não ouvir a resposta. enquanto ao longe as conversas entrecruzadas dos amigos enchem a sala.
entre uma e outra gargalhada, sorrisos pouco sinceros de quem se gostava de rever em pequenos gestos dos outros, sem perder a integridade que conquistou por si. perderemos a nossa identidade quando nos damos a alguém? também não sei quanto perdi, do quanto dei.
às vezes desejo em segredo apenas desaparecer, deixar de existir por breves momentos, em que não teria que pensar e forçar-me a não lembrar. a amnésia, pensamos que é uma cura para muitas recordações mas, na verdade, é um analgésico de efeito breve. e imagino como deve ser bom sentir as luzes à nossa volta apagarem-se, dissolvendo-se no ar até não restar nada a que possa chamar meu. não há mais o meu corpo, a minha vida, o meu espírito, a minha consciência, ou os meus sonhos, sequer.
perco-me só mais um pouco, desejo ficar por lá uns tempos, e depois voltar, sem consciência de ter ido. e o lugar também não importa.
outras vezes, gostava de poder falar de ti, de como eras perfeita aos meus olhos, de todos as histórias que partilhámos. queria apenas que me ouvissem, sem se sentirem incomodados, chocados ou constrangidos. não queria que me tentassem compreender, ou sentir aquilo que sinto. só que me ouvissem, me deixassem contar tudo, de um fôlego, e depois me deixassem chorar, como se fossem pedras, sem sentimentos ou compaixão.
quarta-feira, maio 03, 2006
a tudo a quanto amar
a tudo a quanto amar
dou de mim o que tenho,
e, não chegando o que sou,
darei tudo o quanto amei,
e, chegando ao fim da vida
com nada mais que possa dar,
perdoem-me todos a quantos amei
tudo aquilo que não sou,
por tudo o que não dei,
é que, afinal, só mantenho
o que não vos posso mostrar,
mas lembrem-se, algum dia...
...após desvios dessa vida,
há sempre alguém a quem dar
este amor com que eu próprio
vos lembrei.
dou de mim o que tenho,
e, não chegando o que sou,
darei tudo o quanto amei,
e, chegando ao fim da vida
com nada mais que possa dar,
perdoem-me todos a quantos amei
tudo aquilo que não sou,
por tudo o que não dei,
é que, afinal, só mantenho
o que não vos posso mostrar,
mas lembrem-se, algum dia...
...após desvios dessa vida,
há sempre alguém a quem dar
este amor com que eu próprio
vos lembrei.
terça-feira, abril 25, 2006
Buenas noches!
acabadinho de regressar de terras de nuestros hermanos... prometo a reportagem para breve.
hasta mañana!
hasta mañana!
segunda-feira, abril 17, 2006
a cada passo
em cada passo que deres
a cada lugar onde fores
onde quer que estiveres
eu estou contigo
a cada dia que viver
a cada ano que passar
a cada pensamento que tiver
tu estás comigo
e quando o mundo esquecer
o amor guardado para depois
quando a memória falhar
então vens me buscar
e viveremos os dois
em cada passo que deres
a cada lugar onde fores
onde quer que estiveres
eu estou contigo
a cada dia que viver
a cada ano que passar
a cada pensamento que tiver
tu estás comigo
e quando o mundo esquecer
o amor guardado para depois
quando a memória falhar
então vens me buscar
e viveremos os dois
obrigado
segunda-feira, abril 10, 2006
por que me fazes sofrer, de uma forma tão profunda e desumana? por que a solidão me arrebata o peito, e me enche o vazio cada pequeno espaço que abriste em mim?
apareces de repente, destróis-me por dentro, em cada crença e defesa que construí, tornas tudo confuso e irreal, tudo tão intenso como a dor que agora me fere a alma, e vais-te embora, de repente, deixando a meio tudo o que estava iniciado, e deixando-me a mim, entregue a tudo o que levaste contigo e já não volto a ter.
qual a melhor maneira de viver, depois de destruídos das esperanças jovens que tínhamos? agarrados à ilusão de uma partida com um regresso prometido, ou à incerteza de reencontros eternamente adiados e suspensos numa espera infinita?
ainda seremos de novo tudo aquilo que deixamos passar? são as marcas que ficam que ainda dizem que foi verdadeiro. fotografias, lugares, ideias de conversas que tivemos e que inocentemente mostramos a outras pessoas, como se fossem coisas simples e com significado nulo.
dizem que dura um ano até que o tempo cure ou adormeça em nós as melhores lembranças, que são também as que mais doem e fazem sofrer. porque elas são as testemunhas do melhor e do pior, e fazem-nos sempre pensar sobre o que foi, o que era e o que é. obrigam-nos a comparar o que temos e o que já tivemos. E o que foi parece sempre ser mais doce e puro.
hoje não há nada para dar, nada para receber. e se não damos apercebemo-nos da dimensão eterna da nossa própria pobreza. e se não recebemos passamos a medir os dias e a vida pela infinita solidão que somos.
e no meio disto esqueço-me dos motivos pelos quais caí, pelos quais me ergueste. e esqueço a própria necessidade de sonhar, e os nossos bem ditos sonhos que nos guiaram pela mão até ao lugar onde pertencemos.
apareces de repente, destróis-me por dentro, em cada crença e defesa que construí, tornas tudo confuso e irreal, tudo tão intenso como a dor que agora me fere a alma, e vais-te embora, de repente, deixando a meio tudo o que estava iniciado, e deixando-me a mim, entregue a tudo o que levaste contigo e já não volto a ter.
qual a melhor maneira de viver, depois de destruídos das esperanças jovens que tínhamos? agarrados à ilusão de uma partida com um regresso prometido, ou à incerteza de reencontros eternamente adiados e suspensos numa espera infinita?
ainda seremos de novo tudo aquilo que deixamos passar? são as marcas que ficam que ainda dizem que foi verdadeiro. fotografias, lugares, ideias de conversas que tivemos e que inocentemente mostramos a outras pessoas, como se fossem coisas simples e com significado nulo.
dizem que dura um ano até que o tempo cure ou adormeça em nós as melhores lembranças, que são também as que mais doem e fazem sofrer. porque elas são as testemunhas do melhor e do pior, e fazem-nos sempre pensar sobre o que foi, o que era e o que é. obrigam-nos a comparar o que temos e o que já tivemos. E o que foi parece sempre ser mais doce e puro.
hoje não há nada para dar, nada para receber. e se não damos apercebemo-nos da dimensão eterna da nossa própria pobreza. e se não recebemos passamos a medir os dias e a vida pela infinita solidão que somos.
e no meio disto esqueço-me dos motivos pelos quais caí, pelos quais me ergueste. e esqueço a própria necessidade de sonhar, e os nossos bem ditos sonhos que nos guiaram pela mão até ao lugar onde pertencemos.
minha mc
domingo, abril 02, 2006
Tudo o mais é ruído.
Quando era miúdo e me sentavam no 2º lugar, da 3ª fila de bancos, na igreja, a ouvir a missa, desejava apenas que aquela hora passasse o mais depressa possível. Aqueles bancos eram duros, faziam doer e não havia outra posição para estar sentado senão aquela, de costas direitas, porque a mãe e a avó, de cada um dos meus lados, não permitiam que traçasse a perna por baixo do rabo, ou que me levantasse de vez em quando, e passeasse pelos corredores para desentorpecer as pernas, e a cabeça. Os breves momentos em que a oração se dizia de pé não chegavam para descansar de estar sentado. Também não percebia o que as velhas diziam, umas murmurando, outras gritando, naqueles momentos chave, como quando o padre, do cimo do altar, ergue a hóstia ao ar, para que todos pudessem testemunhar que o padeiro as sabia fazer redondinhas.
Havia alturas mais chatas que outras. Um delas era quando começavam as leituras, intercaladas por umas canções aborrecidas e sempre no mesmo ritmo, entoadas numa voz esganiçada, de quem parece acreditar que é mais importante lançar contra os nossos ouvidos uma nota aguda, do que articular convenientemente a letra, escarrapachada no livro à sua frente, de modo a que todos compreendessem o que ali era gritado. Nessas alturas, e até ao momento em que terminava a homilia, escapava de mim e via-me a pairar entre o tecto da igreja e as cabeças na assembleia. Pelo Natal penduravam uma grande estrela, suspensa sobre o altar, presa numa das traves do tecto, e eu, sonhando, imaginava-me a fazê-la passar por essa trave, enquanto flutuava lá no alto, sentindo cá em baixo, os olhares de admiração pousados em mim. Enquanto isto, remexia os dedos nas costas do banco da frente, arrancando pequenas gotas de cera seca, deixadas aí, caídas das velas da última procissão ou festa da 1ª comunhão.
Mais tarde, descobri que estar junto ao coro era muito mais interessante. Em primeiro lugar porque não tinha que fixar a minha atenção no padre, no centro da cerimónia, junto ao altar. O coro ficava de lado e o órgão escondia-nos atrás de si, onde não podíamos ver o altar e, de lá, não me podiam ver a mim. Em segundo lugar, porque dali - um ponto mais alto na igreja e de frente para a assembleia - podia olhar para as caras das pessoas e ver as expressões que faziam nas diferentes fases da missa. Podia ver quem chorava, quem ia limpando os macacos do nariz, os miúdos que brincavam sossegadamente, por detrás das pernas do pai, quando este se levantava do banco, para dizer alguma oração. Podia ver aquelas caras de dor, de pessoas que fora da igreja só viviam para chatear e aborrecer os outros, criando problemas e conflitos, mas ali eram o rosto da virtude e do arrependimento. Vi tudo isto, e assimilei, e sintetizei, e categorizei, e tirei conclusões próprias (como mandam as regras do raciocínio lógico e coerente). Todos os domingos o processo e os procedimentos eram os mesmos, e todas as semanas os resultados se repetiam.
Cheguei, cedo, à conclusão - um tanto ou quanto de índole protestante (mas, também, quem não protesta é porque não pensa e, como tal, não tem capacidade de se indignar) - que nenhuma das pessoas que ali estavam o faziam porque acreditavam nas orações que diziam, ou no espírito de fraternidade apregoado. Umas, a maior parte, iam ali porque a tradição familiar a isso o obrigava, quase como dever moral e, seguramente, como dever social, não fosse a pessoa ficar mal falada na terrinha de onde era. Os restantes iam lá porque são egoístas e egocêntricos, e por algum desaire na sua vida, acreditam no seu sofrimento como o único que, de facto, é aflitivo. Porque a missa é lugar, por tradição, onde se devem sentir melhor e colocar todos os fardos que carregam no chão. Porque aí o Amor maior alivia tudo, e os faz lembrar que há-de haver Amor nas suas vidas, ou nas daqueles por quem vão rezar, para se sentirem melhor consigo mesmas.
Quem não vai lá por alguma destas razões, fá-lo porque não encontra razão para ir. As missas tornaram-se baús para os Homens guardarem amarguras, porque para os momentos de felicidade há outros nomes, e outras celebrações. É, apenas, mais um espaço no horário forçando as pessoas a reflectir sobre si, ainda que em correlação com o mundo em volta. É uma hora egoísta, para alívio interno.
Para quem, como eu, olha para isto do lado de fora da janela, o sentido e o significado são poucos. E o verdadeiro conforto vem, antes, da lucidez de ver as coisas, e da luta por ganhar e manter essa lucidez, que nos assola por vezes, e de novo nos abandona, ao longo da vida. Tudo o mais, tudo o que a missa é, torna-se apenas ruído e uma maneira banal de inculcar, pela via da repetição e ingresso na tradição, a ideia de que existem certos valores, ainda que só os consigamos compreender através do encontro com as faces mais profundas de nós mesmos.
Havia alturas mais chatas que outras. Um delas era quando começavam as leituras, intercaladas por umas canções aborrecidas e sempre no mesmo ritmo, entoadas numa voz esganiçada, de quem parece acreditar que é mais importante lançar contra os nossos ouvidos uma nota aguda, do que articular convenientemente a letra, escarrapachada no livro à sua frente, de modo a que todos compreendessem o que ali era gritado. Nessas alturas, e até ao momento em que terminava a homilia, escapava de mim e via-me a pairar entre o tecto da igreja e as cabeças na assembleia. Pelo Natal penduravam uma grande estrela, suspensa sobre o altar, presa numa das traves do tecto, e eu, sonhando, imaginava-me a fazê-la passar por essa trave, enquanto flutuava lá no alto, sentindo cá em baixo, os olhares de admiração pousados em mim. Enquanto isto, remexia os dedos nas costas do banco da frente, arrancando pequenas gotas de cera seca, deixadas aí, caídas das velas da última procissão ou festa da 1ª comunhão.
Mais tarde, descobri que estar junto ao coro era muito mais interessante. Em primeiro lugar porque não tinha que fixar a minha atenção no padre, no centro da cerimónia, junto ao altar. O coro ficava de lado e o órgão escondia-nos atrás de si, onde não podíamos ver o altar e, de lá, não me podiam ver a mim. Em segundo lugar, porque dali - um ponto mais alto na igreja e de frente para a assembleia - podia olhar para as caras das pessoas e ver as expressões que faziam nas diferentes fases da missa. Podia ver quem chorava, quem ia limpando os macacos do nariz, os miúdos que brincavam sossegadamente, por detrás das pernas do pai, quando este se levantava do banco, para dizer alguma oração. Podia ver aquelas caras de dor, de pessoas que fora da igreja só viviam para chatear e aborrecer os outros, criando problemas e conflitos, mas ali eram o rosto da virtude e do arrependimento. Vi tudo isto, e assimilei, e sintetizei, e categorizei, e tirei conclusões próprias (como mandam as regras do raciocínio lógico e coerente). Todos os domingos o processo e os procedimentos eram os mesmos, e todas as semanas os resultados se repetiam.
Cheguei, cedo, à conclusão - um tanto ou quanto de índole protestante (mas, também, quem não protesta é porque não pensa e, como tal, não tem capacidade de se indignar) - que nenhuma das pessoas que ali estavam o faziam porque acreditavam nas orações que diziam, ou no espírito de fraternidade apregoado. Umas, a maior parte, iam ali porque a tradição familiar a isso o obrigava, quase como dever moral e, seguramente, como dever social, não fosse a pessoa ficar mal falada na terrinha de onde era. Os restantes iam lá porque são egoístas e egocêntricos, e por algum desaire na sua vida, acreditam no seu sofrimento como o único que, de facto, é aflitivo. Porque a missa é lugar, por tradição, onde se devem sentir melhor e colocar todos os fardos que carregam no chão. Porque aí o Amor maior alivia tudo, e os faz lembrar que há-de haver Amor nas suas vidas, ou nas daqueles por quem vão rezar, para se sentirem melhor consigo mesmas.
Quem não vai lá por alguma destas razões, fá-lo porque não encontra razão para ir. As missas tornaram-se baús para os Homens guardarem amarguras, porque para os momentos de felicidade há outros nomes, e outras celebrações. É, apenas, mais um espaço no horário forçando as pessoas a reflectir sobre si, ainda que em correlação com o mundo em volta. É uma hora egoísta, para alívio interno.
Para quem, como eu, olha para isto do lado de fora da janela, o sentido e o significado são poucos. E o verdadeiro conforto vem, antes, da lucidez de ver as coisas, e da luta por ganhar e manter essa lucidez, que nos assola por vezes, e de novo nos abandona, ao longo da vida. Tudo o mais, tudo o que a missa é, torna-se apenas ruído e uma maneira banal de inculcar, pela via da repetição e ingresso na tradição, a ideia de que existem certos valores, ainda que só os consigamos compreender através do encontro com as faces mais profundas de nós mesmos.
terça-feira, março 21, 2006
Ando sem tempo para sonhar durante a noite. Ela parece passar num ápice em que consigo descansar o corpo apenas o suficiente. Como se deixasse de existir porque não dou pelo passar da noite. Quando estou a domir, às vezes sinto que durmo. Porém, actualmente, o hoje é como uma continuação do ontem, como se nunca me lembrasse de ter parado. O dia segue na sequência de tarefas, de obrigações, de deveres e de satisfação de direitos, mas esse dia é como a noite. E as manhãs já só nascem nos momentos em que me sinto adormecer.
domingo, março 19, 2006
Este ser de amar quem já não é, como se o mundo desprendesse dos rios o grito de quem bate a si próprio, no peito, onde as lembranças causam abanões à consciência, e onde, afinal, todos somos mártires de alguém.
Pedimos todos os dias que a vida nos corra bem, porque precaver o corpo dalguma enxurrada que por aí fora nos leve é a arte natural de passear por este chão tropeço.
Aos aleijões perdemos o tempo entre coisas estúpidas e supérfluas, que também elas acabarão por apodrecer nalgum canto da casa que habitamos, porque o próprio lixo se torna uma bênção pelo alívio de o podermos deitar fora.
Reparos fazem-se a toda a gente, e a nós também, que não somos excepção de nada senão de nós mesmos e das ideias que temos, já que a vida é um mar brando, onde até as mais violentas tempestades têm uma razão de ser, quer as aceitemos quer não.
E os olhos cansam-se igualmente de ver todos os dias as mesmas cores e formas, as mesmas pessoas, que nunca conhecemos, afinal.
As armas dos nossos vícios apetrecham-nos de desculpas para evitar a realidade, por ser, talvez, demasiado dura para uma couraça demasiado mole, que se desfaz à mais pequena pinga de chuva.
Pedimos todos os dias que a vida nos corra bem, porque precaver o corpo dalguma enxurrada que por aí fora nos leve é a arte natural de passear por este chão tropeço.
Aos aleijões perdemos o tempo entre coisas estúpidas e supérfluas, que também elas acabarão por apodrecer nalgum canto da casa que habitamos, porque o próprio lixo se torna uma bênção pelo alívio de o podermos deitar fora.
Reparos fazem-se a toda a gente, e a nós também, que não somos excepção de nada senão de nós mesmos e das ideias que temos, já que a vida é um mar brando, onde até as mais violentas tempestades têm uma razão de ser, quer as aceitemos quer não.
E os olhos cansam-se igualmente de ver todos os dias as mesmas cores e formas, as mesmas pessoas, que nunca conhecemos, afinal.
As armas dos nossos vícios apetrecham-nos de desculpas para evitar a realidade, por ser, talvez, demasiado dura para uma couraça demasiado mole, que se desfaz à mais pequena pinga de chuva.
sábado, março 18, 2006
E, de repente, sou uma pessoa triste. Tão triste cá dentro, tão grande esta tristeza que sinto, que dela não consigo distinguir-me. Somos uma e a mesma coisa. Só quem observa por fora não dá conta. Só quem não conhece, nem tenta conhecer, não nota. Acho que estas coisas marcam os olhos, os tornam baços e com pouca vida. Outros distanciam-se o suficiente, apenas, para não se sentirem afectados, porque o desconforto que esta tristeza provoca ainda é grande. Deixam-se ficar junto à linha de água, suficientemente perto para que possam socorrer. São os braços dos pais a 4 centímtros do tronco do filho que começa a dar os primeiros passos. Longe o suficente para que faça por si próprio o caminho, perto o suficiente para não o deixar cair. Como se não cair fosse mais importante, como se a derrota fosse a pior consequência.
sexta-feira, março 17, 2006
Ohana
A família, e tudo o quanto dela faz parte e a ergue, é a única coisa que está acima de todas as outras, sem as substituir.
E, para mim, a razão pela qual existirmos.
E, para mim, a razão pela qual existirmos.
domingo, março 12, 2006
Império do Silêncio
O mundo, vejo-o através de um véu, que não é nem puro, nem branco, nem de cor alguma. É rasgado junto ao chão, encardido de sujidade seca, pó da aragem que o faz balouçar para trás e por diante.
O silêncio é uma dádiva pesada de simbolismo, de sentido e significados e para que exista pede o sacrifício de alguma coisa, que dantes o apagava; sons de pessoas e, até mesmo, de ideias claras e organizadas que oscilavam, com alguma segurança, entre o sentido prático da vida e o idealismo da perfeição.
Hoje, as ideias estão tão indefinidas como a tal cortina que deturpa o sentido do mundo em meu redor. E lembram-se apenas de fragmentos de uma vida passada, em que o sentido era viver, porque isso era bom, isso bastava para ser feliz.
Agora impõem-se os sentidos e os sentimentos, baloiçando ao vento, entre o idealismo da felicidade, ou de mais alguns momentos de felicidade que ainda podem vir e o descrédito que a mágoa e o sofrimento gravam na memória do peito.
As mãos sobem ao rosto, cobrindo-o, com muito maior frequência, sem se saber bem se o quero esconder, ou arrancar dele a frustração e vergonha de não ser capaz de o fazer. A razão de ser do nunca mais, que tranca à serenidade a necessidade de estar presente nos entretantos.
Tantos são os momentos, em que desperto para o mundo, como se toda a minha vida fosse um segredo sem propósito, por não haver ninguém de quem o esconder. As pessoas, ao mesmo tempo que recuperam, aos meus olhos, uma dignidade superior por cada batalha que travam, parecem estar cada vez mais distantes.
A música repetida, vezes e vezes sem conta, embalada numa noite de calor de Verão, trazem até aqui histórias perdidas, do tempo em que ainda não desejava voltar ao tempo dessas histórias.
Esses sons chegam e abrem-me ao meio, tirando para fora tudo o que o dia me leva a enraizar profundamente.
E a solidão, a solidão que chama todos os nomes daqueles que a podiam resgatar, a esta alma que me habita, enrouquece no soluçar de não ser ouvida, de não se conseguir ouvir sequer a si mesma. E adormece a chorar.
O silêncio é uma dádiva pesada de simbolismo, de sentido e significados e para que exista pede o sacrifício de alguma coisa, que dantes o apagava; sons de pessoas e, até mesmo, de ideias claras e organizadas que oscilavam, com alguma segurança, entre o sentido prático da vida e o idealismo da perfeição.
Hoje, as ideias estão tão indefinidas como a tal cortina que deturpa o sentido do mundo em meu redor. E lembram-se apenas de fragmentos de uma vida passada, em que o sentido era viver, porque isso era bom, isso bastava para ser feliz.
Agora impõem-se os sentidos e os sentimentos, baloiçando ao vento, entre o idealismo da felicidade, ou de mais alguns momentos de felicidade que ainda podem vir e o descrédito que a mágoa e o sofrimento gravam na memória do peito.
As mãos sobem ao rosto, cobrindo-o, com muito maior frequência, sem se saber bem se o quero esconder, ou arrancar dele a frustração e vergonha de não ser capaz de o fazer. A razão de ser do nunca mais, que tranca à serenidade a necessidade de estar presente nos entretantos.
Tantos são os momentos, em que desperto para o mundo, como se toda a minha vida fosse um segredo sem propósito, por não haver ninguém de quem o esconder. As pessoas, ao mesmo tempo que recuperam, aos meus olhos, uma dignidade superior por cada batalha que travam, parecem estar cada vez mais distantes.
A música repetida, vezes e vezes sem conta, embalada numa noite de calor de Verão, trazem até aqui histórias perdidas, do tempo em que ainda não desejava voltar ao tempo dessas histórias.
Esses sons chegam e abrem-me ao meio, tirando para fora tudo o que o dia me leva a enraizar profundamente.
E a solidão, a solidão que chama todos os nomes daqueles que a podiam resgatar, a esta alma que me habita, enrouquece no soluçar de não ser ouvida, de não se conseguir ouvir sequer a si mesma. E adormece a chorar.
sábado, março 11, 2006
Goodbye my lover
Did I disappoint you or let you down?
Should I be feeling guilty or let the judges frown?
'Cause I saw the end before we'd begun,
Yes I saw you were blinded and I knew I had won.
So I took what's mine by eternal right.
Took your soul out into the night.
It may be over but it won't stop there,
I am here for you if you'd only care.
You touched my heart you touched my soul.
You changed my life and all my goals.
And love is blind and that I knew when,
My heart was blinded by you.
I've kissed your lips and held your head.
Shared your dreams and shared your bed.
I know you well, I know your smell.
I've been addicted to you.
Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.
I am a dreamer but when I wake,
You can't break my spirit - it's my dreams you take.
And as you move on, remember me,
Remember us and all we used to be
I've seen you cry, I've seen you smile.
I've watched you sleeping for a while.
I'd be the father of your child.
I'd spend a lifetime with you.
I know your fears and you know mine.
We've had our doubts but now we're fine,
And I love you, I swear that's true.
I cannot live without you.
Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.
And I still hold your hand in mine.
In mine when I'm asleep.
And I will bear my soul in time,
When I'm kneeling at your feet.
Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.
I'm so hollow, baby, I'm so hollow.
I'm so, I'm so, I'm so hollow.
segunda-feira, março 06, 2006
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
quarta-feira, março 01, 2006
Though dreams remain like a secret
though stars are no longer so bright
when silence became the answer to me
I just knew you were no longer mine.
Gone all the mystery around you
Gone all the stories we lived
And silence remains instead
as the answer I no longer need.
And if heavens keep love so far
Will my lips keep telling your name?
Will your light fill this empty space?
May your love mend this soul once again?
though stars are no longer so bright
when silence became the answer to me
I just knew you were no longer mine.
Gone all the mystery around you
Gone all the stories we lived
And silence remains instead
as the answer I no longer need.
And if heavens keep love so far
Will my lips keep telling your name?
Will your light fill this empty space?
May your love mend this soul once again?
terça-feira, fevereiro 28, 2006
The Blower's Daughter
And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new
sábado, fevereiro 25, 2006
Enquanto as pessoas correm de um lado para o outro, vamos passando por elas, como se fossem apenas fantasmas, onde encontramos pequenos pedaços de nós, mas que não conseguirão nunca preencher-nos. Sentimo-nos tão especiais, isolados dos desejos do que somos, que perdemos uma parte da própria vontade.
Sento-me, assim, numa cadeira em frente a este ecrã, penso no frio lá fora, sentindo a mão direita enregelada, arrefecida pela movimento do rato.
Sento-me, assim, numa cadeira em frente a este ecrã, penso no frio lá fora, sentindo a mão direita enregelada, arrefecida pela movimento do rato.
De quantos meses, anos, décadas se fará a espera? Este aguardar em silêncio doloroso, pontualmente interrompido no choro convulso das lágrimas, que umas vezes caem, outras não.
***
Através da escuridão consigo ver a tua luz
e hás-de para sempre brilhar,
e posso sentir no meu o teu coração.
Na memória esse teu rosto,
o único que quero ainda adorar.
Olho para cima, para tudo o que és,
que aos meus olhos és apenas perfeição,
e este meu amor tanto durou
que depois das palavras e dos gestos,
afinal, tu és apenas tu;
tu és, ainda, apenas tu.
Tu que passas por mim,
deixas-me só com a tua dor,
e o tempo que tudo muda,
deixa porém uma certeza,
afinal, tu és apenas tu;
tu és, ainda, apenas tu.
Olho para cima, para tudo o que és,
que aos meus olhos és apenas perfeição,
e eu acredito ainda em ti,
e nunca a tua boca mo pediu,
e a ti vou-te lembrar,
e ao que vida te fez passar.
e neste mundo cinzento e frio,
encontrei por fim um amor,
porque afinal, tu és apenas tu;
tu és, ainda, apenas tu.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
kinder surpresa
Às vezes entro em cada embrulhada, que não sei com muita certeza se vou chegar a sair dela com vida, ou, no mínimo, ainda com alguma qualidade de vida.
Este ano, que para mim apenas começou no dia 13 de Fevereiro, de modo a deixar em 2005 tudo o que não é possível lembrar constantemente, sob pena de comprometermos seriamente a nossa sanidade mental, inscrevi-me em 11 cadeiras diferentes. Convém, porém, advertir que, destas 11, apenas 9 se protelam pela totalidade do semestre. E o que fazer com estas 9?
Aí está o meu verdadeiro problema. Não sei minimamente o que me passou pela cabeça no dia das inscrições - estaria com toda a certeza nalgum estado alterado de consciência, induzido por algum psicotrópico que infiltraram, à socapa, nas minhas doses diárias de iogurte. É a única explicação plausível! E mais me convenço que não apenas foi administrada à época naquelas doses, mas que ainda hoje o continua a ser. Caso contrário, não se explicaria que, após uma reflexão toldada pelas incertezas e pelo medo do fracasso académico, me tenha hoje vindo a inscrever em mais uma cadeira, que eu mesmo apelido de "suplementar", para me convencer que a tenho que "tomar", a bem da minha própria vitalidade, como se de uma receita médica de vitaminas se tratasse.
A patologia é severa; o tratamento moroso, doloroso e manifestamente insuficiente e ineficaz. Deste estado de descocamento cerebral ensaio um adeus a quem passa sorridente, de férias, como se o mundo fosse um lugar alegre, onde habitar se converte num enorme prazer, em lugar de um permanente estado de luta, para que nos consigamos manter vivos.
Em boa verdade, não sei muito bem se é isso que quero - manter-me vivo - mas, porém, a outra alternativa - que é não estar vivo, pelo simples facto de não dar importância - parece que já não me satisfaz como até agora. Há coisas pelas quais vale a pena estar presente, mais que não seja para lhes dar-mos a oportunidade de nos surpreenderem, e para que, nós mesmos, também tenhamos a oportunidade de nos deixarmos surpreender.
Este ano, que para mim apenas começou no dia 13 de Fevereiro, de modo a deixar em 2005 tudo o que não é possível lembrar constantemente, sob pena de comprometermos seriamente a nossa sanidade mental, inscrevi-me em 11 cadeiras diferentes. Convém, porém, advertir que, destas 11, apenas 9 se protelam pela totalidade do semestre. E o que fazer com estas 9?
Aí está o meu verdadeiro problema. Não sei minimamente o que me passou pela cabeça no dia das inscrições - estaria com toda a certeza nalgum estado alterado de consciência, induzido por algum psicotrópico que infiltraram, à socapa, nas minhas doses diárias de iogurte. É a única explicação plausível! E mais me convenço que não apenas foi administrada à época naquelas doses, mas que ainda hoje o continua a ser. Caso contrário, não se explicaria que, após uma reflexão toldada pelas incertezas e pelo medo do fracasso académico, me tenha hoje vindo a inscrever em mais uma cadeira, que eu mesmo apelido de "suplementar", para me convencer que a tenho que "tomar", a bem da minha própria vitalidade, como se de uma receita médica de vitaminas se tratasse.
A patologia é severa; o tratamento moroso, doloroso e manifestamente insuficiente e ineficaz. Deste estado de descocamento cerebral ensaio um adeus a quem passa sorridente, de férias, como se o mundo fosse um lugar alegre, onde habitar se converte num enorme prazer, em lugar de um permanente estado de luta, para que nos consigamos manter vivos.
Em boa verdade, não sei muito bem se é isso que quero - manter-me vivo - mas, porém, a outra alternativa - que é não estar vivo, pelo simples facto de não dar importância - parece que já não me satisfaz como até agora. Há coisas pelas quais vale a pena estar presente, mais que não seja para lhes dar-mos a oportunidade de nos surpreenderem, e para que, nós mesmos, também tenhamos a oportunidade de nos deixarmos surpreender.
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