sábado, janeiro 04, 2014

"Este livro que vos deixo"

«Queremos ver sempre à distância 
O que não está descoberto, 
Sem ligarmos importância 
Ao que está à vista e perto. 

És um rapaz instruído, 
És um doutor; em resumo: 
És um limão, que espremido, 
Não dá caroços nem sumo.

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias...

Diz que viver é sofrer...
Concordo. Mas não compreendo
Que ninguém ouse dizer
Quanto se aprende sofrendo!

Tanto da vida conheço
Que, ao ver o mundo tão torto,
Às vezes quando adormeço,
Desejava acordar morto.

Não sou esperto nem bruto,
Nem bem nem mal educado:
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.

Se no sentir fui distinto,
Talvez, por essa razão,
Agora levo e não sinto,
Os pontapés que me dão...

Só quando sinceramente
Sentimos a dor de alguém,
Podemos descrever bem
A mágoa que esse alguém sente.

Até nas quadras que faço
Aos podres que o mundo tem,
Sinto que sou um pedaço
Do mesmo podre também.

Queria que o mundo soubesse
Que a dor que tortura a vida
É quase sempre sentida
Por quem menos a merece.

Oh! Quem me dera, sozinho,
E em quatro versos somente,
Contar ao mundo inteirinho
A mágoa de toda a gente.

Não sei o que de mim pensam
Quando me vêem chorar;
Mas quero que se convençam
Que a dor também faz cantar.

Se umas quadras são conselhos
Que vos dou de boa fé;
Outras são finos espelhos
Onde o leitor vê quem é.

À carta que me mandaste,
Em troca à minha, que leste,
Preferia o que pensaste
Àquilo que me escreveste.

Contigo em contradição
Pode estar um grande amigo;
Duvida mais dos que estão
Sempre de acordo contigo.

Fala!... Não te faças branco.
Não compreendes que, de resto,
Vale mais ser rude e franco
Que falsamente modesto?

Para que te não iludas
Com amigos, pensa nisto:
Foi com um beijo que Judas
Levou à cruz Jesus Cristo.

Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.

Quando algum bem tu fizeres,
Não o digas a ninguém,
Repara que, se o disseres,
Fazes mais mal do que bem.

Quando te vês mal, e dizes
Que preferias a morte,
Pensa que outros menos felizes
Invejam a tua sorte.

Nas tuas horas mais tristes,
De mágoas e desenganos,
Pensa que já não existes,
Que morreste há muitos anos.

Jesus disse que se amassem
Aos que cristãos se proclamam;
Não disse que se matassem,
E eles matam-se e não se amam.

Tu que queres ser alguém
Pelo que julgas valer
Não perdoas que ninguém
Seja o que tu queres ser.

Nos versos que se improvisem,
Os poetas sabem ler,
Para além do que eles dizem,
Tudo o que querem dizer.

Se já sofreste, não chores,
Que a vida passa depressa...
Vamos ter dias melhores
E o passado pouco interessa.

Para que tentas prender
Um pensador de talento?
Não vês que vais dar sem querer,
Liberdade ao pensamento.

Para veres o que merecias
Quando tu me fazes mal,
Pensa só no que farias
A quem te fizesse tal.

Neste mundo, onde sobejam
Os homens de pouco siso,
Talvez os malucos sejam
Os que têm mais juízo.

Vós podeis chamar-me louco;
Democrata; socialista...
E comunista também.
Que sou de tudo isso um pouco,
Pois sou uma coisa mista
Do bom que tudo isso tem!»

António Aleixo.

Os poetas sabem ler.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

A regra de ouro

Ouvi falar da «Regra de Ouro» sob muitos nomes e formas ao longo da vida, desde os tempos do catecismo católico até às conversas mais banais que se possam escutar num café.

Contudo, apenas no 5.º ano de licenciatura, em 2007, a conheci com mais pormenor, ao estudar Filosofia do Direito - uma disciplina grandemente desvalorizada pelos alunos e ainda mais rapidamente esquecida assim que se abraça na prática qualquer profissão (não só as jurídicas).

A Regra de Ouro pode ser sumariada através de dois postulados éticos elementares: 

1. Faz aos outros o que queres que te façam a ti;
2. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Há poucos ensinamentos tão simples, tão óbvios e tão universalmente aceites.

Sendo assim, por que razão tantas vezes as pessoas que mais amamos e que também nos amam optam por um caminho de renovação interior que envolve uma vã tentativa de se esquecerem de quem são, de quem as ama incondicionalmente, de punição radical... de afastamento da Regra de Ouro?

A Regra de Ouro é um fundamento para o entendimento das mentes e dos corações e é tantas vezes atropelada.

Um amigo e eu perdemos-nos ambos um do outro. E isso levou-me a repensar o que sou e quem vou ser. Levou-me a olhar novamente para tudo o que soube e esqueci, sobre mim, sobre a história, sobre as relações humanas.

Faltou-nos compreensão, capacidade de perdão, e sobejou-nos fraqueza para falar sem armas apontadas ao outro.

O que nos faz falta é aplicar a regra de ouro à vida individual de cada um, em todos os momentos, e trazê-la para junto de nós quando for o tempo destinado.

No que toca às amizades, a Regra de Ouro faculta um guia sobre como ser amigo. Se queres alguém que se ria contigo, que se preocupe contigo e que esteja presente para ti, então tens de fazer e ser tudo isto para essa pessoa. E por que razão será isto tão difícil de alcançar? Se todos se guiassem por esta regra, não haveria conflito ou sentimentos magoados entre amigos.

Uma razão possível é que aquela pessoa nem sempre sabe como se tratar a si própria e, como resultado, trata os outros de forma pobre também. Talvez tenha tido provações grandes com a sua autoestima, ou faltou-lhe o amor e atenção incondicionais num momento essencial. Aprender a utilizar a Regra de Ouro já em adulto pode demorar e uma ou duas amizades podem acabar devido a comportamentos também eles pobres. Quando uma pessoa compreende o que é preciso para ser um verdadeiro amigo, o seu comportamento muda e fortes amizades podem ser construídas. 

Uma outra razão pela qual a Regra de Ouro é ignorada é que a outra pessoa, muitas vezes, não vê o benefício em "dar" a outro alguém. Olha a generosidade do espírito como um custo emocional que não acredita que possa alguma vez ser pago de volta. Esta pessoa normalmente prefere ficar na posição de recebedor, mas não é recíproca.

E até quando dois amigos olham para argumentos ou para uma discussão sob o ponto de vista da Regra de Ouro, isso significa que tratas o teu amigo com respeito, mesmo quando estás zangado com ele. Não lhe envias um e-mail agressivo, nem tão pouco o expões em frente de outros amigos; mas antes esperas até que os dois estejam sozinhos e possam falar dos assuntos com calma ou, pelo menos, de forma privada.

Por vezes a pessoa tenta e manipula outros não envolvidos na discussão para tomarem o seu lado na querela com um amigo. Podem contar a sua versão dos factos num esforço para lograr simpatia e podem envolver outros sem que o amigo tenha hipótese de responder. Comportamentos deste tipo podem criar um ponto de foco para qualquer que fosse a contenda original e podem servir como um catalisador para terminar a amizade. Quando um amigo não consegue aplicar a Regra de Ouro à discussão, o outro amigo pode simplesmente afastar-se da relação por esta carecer de respeito.

Pára, antes de "rebentares" com um amigo ou do comprometeres com as tuas opções, e pensa sobre como gostarias que as coisas acontecessem se estivessem sentados no lugar um do outro. Gostavas que o teu amigo gritasse ou explodisse contigo online, num e-mail, ou até mesmo em pessoa? Pondera nisto por um momento enquanto aguardas, e pode ser que a resposta a que chegues seja suficientemente temperada para permitir-vos a ambos resolver as vossas questões.

O mesmo é verdade para combinar encontros ou escolher atividades. Gostarias de esperar por um amigo que chega sempre atrasado? Alguém que não pode nunca encontrar-se contigo a meio caminho? Ou que insiste em ser sempre ele a escolher a atividade? Quando o teu amigo está a passar por uma situação difícil, genuinamente rezas ou desejas do fundo do coração que os problemas dele se resolvam? Ou secretamente tiras algum prazer desse sofrimento ou, pelo menos, desejas que resolva os seus problemas apenas para não teres que aborrecer-te com eles?

No que toca à amizade, é preciso conseguir pensar sobre as vezes em que somos descuidados com as palavras que dizemos, com as ações que tomamos ou que podíamos ter tomado para ajudar genuinamente o amigo.

Não seria melhor se tudo decorresse desta forma?

sexta-feira, novembro 22, 2013

É tempo

É tempo de deixar escapar,
Como a água, por entre os dedos,
Os sonhos e desejos,
As esperanças e os medos.

É tempo de deixar partir
Os laços ilusórios,
As fragilidades de admitir
Amores platónicos, irrisórios.

Ris-te na minha cara e cospes.
Um desdém de logro e nojo.
Para ti não passo de um pobre
Em quem pisas enquanto sobes.



segunda-feira, novembro 11, 2013

Costumava escrever bastante, neste blogue que mantenho desde 2005.

Não sou nem escritor, nem poeta, mas escrever ajudava-me a pensar mais pausadamente. Mais ordenadamente.

Permitia exorcizar as frustrações do dia e comemorar as vitórias. 

Perdi essa rotina. E quero retomá-la. Faz parte do meu equilíbrio esta reflexão escrita.

Costumava dar mais valor. Actualmente permito-me que tudo seja relativizado, demasiado reativizado.

É verdade que escrevo sobre mim e sobre quem está comigo. Não é importante justificar se o faço como ilustração de um evento ou medida calculada friamente.

Nestes textos há sempre um pouco dos dois.

Existe libertação e catarse, expiação e sintonia, escoriações e reparações.

Podia fazê-lo em privado (ou mais privado), mas cada vez mais vez verifico que é importante ir dando feedback aos outros do que vai bem, do que vai mal e do que já não vai.

É essencial guardar reserva do privado, do único e do que não nos pertence.

Mas é essencial também assumir como nossa uma perspetiva mais pessoal e genuína, que normalmente não disponibolizamos com facilidade no dia a dia.

Hoje tive um bom dia. Começou tranquilo, continuou equilibrado, permitiu-me ver e falar com vários amigos, reflectir em silêncio, organizar a próxima semana e finalmente escrever um pequeno texto sobre o meu dia.

Foi um bom domingo.

E, por isso, estou grato a quem pude ser útil, a quem me fez sentir parte da solução, a quem me me acompanhou, a quem conversou e a quem trabalhou arduamente durante todo este tempo.

Obrigado pelo meu bom domingo.

Boa semana a todos.

terça-feira, agosto 20, 2013

Where I am going I cannot keep
Still the memory of your faith.
For as my bitterness turns to sorrow,
Then my sorrow turns to shame,

Once I've learned we would be friends,
But as if will cannot hold fate,
Now I wonder how to stand
For all you care are my mistakes

I lost you to the shadow,
As you lost me to your life,
No one knowing how to face
The path both left behind

As this journey faces nonsense,
My life seems to loose its way.
Both became lonely promises,
As we hope one comes and say:
'- Here I am.'

sábado, junho 15, 2013

Hope

There's a hole right in between you and my idea of you. A gap I find everyday more difficult to reach and mend.

There's also hope in your best, hope it shines bright and high above the common sense, over the reachable fringe of certainty into the realm of faith and belief.

Believe... most of all when no proof can be found, when all seems lost and everything seems too much wrong.

Help me never let you down. Help me raise you up to the best version of yourself, if I can. If you let me. Let me accomplish my nature and purpose through you.

Number 2 may not come after, but only close. 2 is the bridge from 1 to 3 and from 3 to 1. I hold the supporting role so you can reach higher. I know how and why, but take me neither for pretentious or granted.

I've learned my place. I've felt success so close and failure so deep nothing makes much sense anymore. Nothing else but hope.

Let's hope hope's enough.
There's a hole right in between you and my idea of you. A gap I find everyday more difficult to reach and mend.

There's also hope in your best, hope it shines bright and high above the common sense, over the reachable fringe of certainty into the realm of faith and belief.

Believe... most of all when no proof can be found, when all seems lost and everything seems too much right.

Help me never let you down. Help me raise you up to the best version of yourself, if I can. If you let me. Let me accomplish my nature and purpose through you.

Number 2 may not come after, but only close. 2 is the bridge from 1 to 3 and from 3 to 1. I hold the supporting role so you can reach higher. I know how and why, but take me neither for pretentious nor granted.

I've learned my place. I've felt success so close and failure so deep nothing makes much sense anymore. Nothing else but hope.

Let's hope hope's enough.

quarta-feira, junho 12, 2013

Solitude

Have you ever been alone? Hiding deep inside a shadow of who used to be?

Keep me company.

segunda-feira, maio 27, 2013

Quotation mood

«Being deeply loved by someone gives you strength, while loving someone deeply gives you courage.»
Lao Tzu



«We're born alone, we live alone, we die alone. Only through our love and friendship can we create the illusion for the moment that we're not alone.» Orson Welles «A man reserves his true and deepest love not for the species of woman in whose company he finds himself electrified and enkindled, but for that one in whose company he may feel tenderly drowsy.» George Jean Nathan

domingo, maio 26, 2013

"Desculpa onde te meti" (?!)

Como pedir que façam cessar um sofrimento que nem sabem causar?

De repente sou deixado só, porque há caminhos que não posso partilhar.

Há momentos que nunca se poderão repetir e esperanças de vivência que definham e secam.

Porque na inocência temos liberdade para acreditar na melhor versão, no mais alto valor.

No conhecimento não temos desculpa nem justificação: ou recusamos participar ou pactuamos cumplicemente.

Não há meio-termo.

E, sem palavras, é-nos atirada uma responsabilidade que somos forçados a aceitar ou, em contrapartida, rejeitamos toda uma pessoa.

Ouvir sem intervir? Testemunhar no silêncio? Partir?

Que raio de espécie de amigos é esta que atira outro para o inferno da consciência, por escolhas que não são suas?

E ninguém parece incomodado com isso, como se tudo fosse normal e a equação ainda se mantivesse bilateral.

Mas agora é quadrada. E isso importa a alguém senão ao ignorante atirado para o meio?


Recalling

«Every great mistake has a halfway moment, a split second when it can be recalled and perhaps remedied.»

Sophia

Esgotei o meu mal, agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.

Sophia

sábado, maio 18, 2013

Sentei-me um pouco para pensar. De quando em vez uma caminhada permite arejar as ideias, deixar repousar o velho e concentrar no novo.
Por entre bêbados e drogados amontoados à beira das ruas, passeando como quem saboreia uma prisão de onde não podem fugir, eu e eles, acometo-me a escutar e observar.
Casais que se beijam nos recantos mais escuros, colegas de faculdade, hoje juízes e juízas que frequentam, afinal, com a mesma sofreguidão, os lugares da maior juventude.
Também ouço o casal ao lado, entre silêncio mudo e planos de viagem e escapadelas (muitas delas incumpridas). A mulher toca-lhe o braço, estende a outra mão sobre a mesa, agora afaga-lhe os pêlos junto ao punho.
Claramente quer conquistá-lo... ou reconquistar a cumplicidade que outrora partilhavam.
Ele não se move. Não reage ao toque, nem tão pouco àquela carícia prolongada sobre o antebraço.
Ela sente saudades. Ele também, mas não creio que seja dela.
Quando alguém pede "olha para mim", não está verdadeiramente a pedir, mas a suplicar.
Olhar para ela devia ser involuntário, livre, desejado e, acima de tudo, incontrolável.
Ele só quer cumprir o papel e sair. Muito jovem de aspecto, comparando com o do seu par.
Ela está pronta para avançar, pronta para mais. Para dar-lhe tudo, um filho, um futuro, uma continuação. Não é isso o mais importante? Semear-se para o futuro?
Mas ele é e sente-se jovem, preocupado com o devir. Quer acertar. Desta vez quer fazer tudo certo e não errar. Mas está cansado, do dia de trabalho, da conversa que acabou de presenciar e não recorda mais.
Hoje é sexta-feira e ele quer apenas chegar a casa, cumprir e dormir.

segunda-feira, maio 13, 2013

Hoje

Hoje deixei-me voltar a desanimar.

Atirei-me para o lado mais negro da alma, em que o desespero aguarda todas as ocasiões para dar estocadas ferozes em todos ao nosso redor e, especialmente, em nós mesmo.

Do suicídio certo à dúvida, pensamentos antes tão distantes regressam de novo ao dia-a-dia.

E a vontade permanece... de desaparecer para sempre. Mas a violência do acto, para com todos à minha volta, acaba sempre por prender-me o gesto.

Quem comigo fala não entende. Não se apercebe do negrume imenso em que me deixo arrastar. Pensam que está a ter um dia de cansaço, ou desânimo. Mas não...

Estes meus dias são sempre sempre a regra, e todos os outros são fruto de um esforço sobrehumano que ninguém consegue sempre suportar, a todas as horas, a todos os dias.

Perco o sentido das amizades e do respeito. Perco o valor das pessoas e da sua sinceridade. Torno-me egoísta e solitário.

Mais solitário.

A solidão é uma constante. Essa não é invenção.

Só. Sempre só. Para sempre só, mesmo que rodeado de conhecidos e queridos. ´É uma solidão absoluta, escudada atrás de uma face nobre e altiva, mas que aos pouco deixo cair.

Hoje abro a mente nestas palavras para as duas únicas pessoas em quem confio. Não para que se preocupem, mas para que saibam e tomem as suas escolhas. Ficar ou seguir. Ajudar ou partir. Ignorar ou desvalorizar.

Essa escolha não é minha. A minha depressão e angústia são os vossos testes individuais sobre a Fé e sentido mais profundo de amar alguém - como eu vos amo.

segunda-feira, maio 06, 2013

sentido

hoje a noite inspira-me a escrever,
a deixar passar os dedos e
simplesmente pairar em sonho e pensamento

há dias assim, onde a realidade se deixa tão distante
do mundo inteiro, guardado no mais profundo recanto

meditação catártica, escrita irracional que me transporta 

entre nuvens passadas, presentes e anunciadas

e ao fundo, docemente, oiço-te dizer,
com uma voz que embala o próprio mar:

- deixa passar o momento, deixa-te sentir simplesmente

e acorda mais tarde... 

- sonha com o que é, o que foi e o que virá

- acorda lentamente, de olhos bem fechados
sem pressa para os abrir

- sente a paz em redor, o silêncio, a confusão
do pensamento, que atordoa e envolve a mente,
tão racional e descrente durante todo o teu dia

- acorda de mansinho e tenta segurar a ti a
sensação do despertar

- transporta-a para o dia, trazida dos teus sonhos noturnos
e deixa que te guie, sem preocupações ou terrores,
porque tu és inquebrável enquanto o desejares

Se tanto me dói que as coisas passem


Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

                     Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, abril 05, 2013

desculpem-me todos,
mas esta morte é só minha.
não a partilho com ninguém.

terça-feira, abril 02, 2013

- Não dás ponto sem nó...
- Dou... mas tenho de estar distraído.

terça-feira, março 19, 2013

Gostava de ouvir-te, amigo, falar sobre a amizade, sobre o amor que une, o respeito, a admiração e o sentido metafísico que te leva a gostar de alguém.

Há um acordo de mentes, uma sintonia de vontades, uma inexperiência do outro que assusta, fustiga e vicia.

Não quero perder-te. Quero contar contigo e, acima de tudo, que me deixes tomar conta de ti como a um irmão. Conta comigo. Inspira-me com o que és, o teu testemunho tão diferente e original.

Guia-me na descoberta de ti. Abandona-te à confiança e não te deixarei nunca cair sozinho. Fala comigo como a um amigo sincero, porque há um sentido para tudo e se hoje aqui estamos é para tocarmos as vidas mútuas.

São camadas enevoadas que procuro afastar, cortinas de teias que descerro para olhar, nem que apenas por um segundo, a tua luz, a tua chama.

Sinto uma promessa de gratidão que incita o atrevimento. Desculpa a ousadia. Mas tenho de entrar e trazer-te comigo.

Há uma estima, uma vocação, um chamamento, uma alegria interior tão repentina e intensa. Tem de ser uma paixão. Não pela carne, mas pela mente, pelo espírito.

«É este o equívoco das paixões que oscilam entre o sublime e o grotesco».

E o que recebo afinal? Algo de ti, imperceptível?

O abismo desemboca aos meus pés como um teste à gravidade e ao equilíbrio. Paixão e obsessão. Cara e coroa da mesma moeda.

E humilhação? Apago-me perante ti, como que desprovido de virtude, orgulho ou estima própria?

Não é esse o propósito. Nem tão pouco justificável para que haja aceitação.

É antes um braço que estendo em primeiro lugar, para que a tua mão o possa agarrar - assim o queira.

Porque, como em Sartre, a minha aspiração é simples, o meu sonho também: o de um «tratado das paixões que se inspirasse nesta verdade tão simples e tão profundamente desconhecida [...]: se amamos, é porque é agradável».

Se te amo, é porque és agradável. Nada mais. Pois este é o maior elogio que podes receber. O maior que te posso dar. Para mim, tu és agradável.

Procuro descobrir o valor da paixão e, no entanto, sou insensivelmente levado a julgá-la. Julgar a paixão é julgar-te a ti. E julgar-te é colocar-me acima e não a par.

Quero ser par, não supra.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Se desta vida imperfeita eliminássemos tudo o que é inútil, a imperfeição deixaria ela própria de fazer sentido

Haruki Murakami

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

ó tempo que me deixas atrás
de grades e muralhas tão valentes.
tão de repente me vejo só
quanto de amor a transbordar

tempo que não te deixas ficar
nem um segundo, nem por um piscar
de olhos lacrimejando compaixão

tempo que libertas o mundo
da prisão do sentimento,
que amenizas a solidão

parte sempre, sempre, sempre,
porque ficando nunca se sente
de novo toda a gente
guardadas eternamente
neste pequeno coração



Quem acho na rua guardo, dentro de cada olhar, de cada gesto e palavra leio um pensamento, uma melodia interior, que ora toca em desafino ora em perfeita harmonia.

Resguardo entre as memórias os sentidos que me guiam, as linhas invisíveis que orientam as minhas mãos. Nos momentos raros e preciosos que reconheço, de tantos que deixo passar incólumes e intocados, encontro amigos surpreendentes, reencontro sensações.

Temperos de alma, inundações de vida que preenchem o peito e exigem ao coração que salte e se faça anunciar. Rebenta todas as amarras rochosas em que descansa, reergue-se em vermelho sangue, respira energia, contrapõe verdades, vence-se cansado e feliz.

Duas caras, dois pratos, duas vidas, duas distâncias, dois percursos, dois destinos, dois caminhos iniciados, dois tempos interrompidos e duas pessoas tão próximas, também duas tão distantes.

Há sopro de novidade, como o vento que percorre as margens do rio na madrugada. Uma mistura de novo, névoa, sonho e medo. E o perigo de abrir demais as ameias do peito a invasões estrangeiras. Estranhas, acutilantes, pulsantes de vida e juventude.

Quem nos acha perdidos, conduz-nos. Quem nos perde, encontra-nos mais tarde. Porque tudo o que somos flui incessantemente até ao céu e volta a nós em bênção ou maldição. Porque o sangue que nos percorre carrega história e muita gente, valor de tantas paixões físicas e mentais.

A harmonia de mentes clama sempre e não se deixa rebater. É hercúleo o esforço para conter o mar, sustentar ao alto a fantasia e a realidade alinhadas em perfeito equilíbrio. Perder um pouco é, por vezes, ganhar a vida que se escapava sem que dela nos déssemos conta.

Nos dias anteriores caminhei em curvas apertadas e estradas íngremes. Nos dias de hoje procuro linhas retas, caminhos trucidados de detritos que vou afastando. Atrás de cada pedra uma surpresa, um amigo ou um precipício escondidos.

Pela fé que me mova espero uma nova vida, de harmonia e paz. Mas os génios malignos atormentam-me, a alma enegrece sem razão e perco amor por ingratidão e devassa violência.




sábado, dezembro 15, 2012

segunda-feira, maio 07, 2012

Ain't no memories left
Ain't anymore rest
Your love's fading last
As my life's plugin' in

Never Let Me Go

sexta-feira, novembro 04, 2011

Define-nos a antítese, ou a verdade do que somos exige uma contraparte, nivelada pelo que temos e manifestamos?

Há um anjo que me agarra,
No poeiral do terreno
Que abraçando me ampara
Suspenso sobre o abismo

Há um anjo negro e branco,
Preso na sombra que me embala
Terno lamento
E de novo sem intento
Caio em desamparo.

Anjo branco, luz e sombra
Que me entonteces a mente louca
Acordas o sonho, a quimera negra
Que tão de certo
No meu antro rebaixado
Me agoniza a pena lestra
Que me leva ao teu regaço.

Altura enorme e crua que pede,
Anjo de terna morte
Que nada vive onde te enlaças.

Numa vingança tão violenta
Tão estupre e ansiosa
Anjo negro e anjo branco
Ao recanto esperando,
À coca, o tropeço derradeiro
Do servo errante.

o Mestre

Existe uma procura incessante, por um achado tão raro e distante do qual apenas rezam os livros de história, os contos bíblicos, Homero e os clássicos nas suas epopeias, os fascinados da nova era, da nova ordem, do novo despertar.

Há muitos nomes para o que se procura, muitas expectativas sobre o que se irá encontrar, e muita tinta, muitas ideias discorridas sobre os métodos, a preparação interior e exterior para atingir tal epifania do ser, como se a própria existência de quem procura estivesse ameaçada de morte, em perigo de extinção.
Entre livros de auto-ajuda, relatos de tradições ocultistas perdidas no tempo, na memória de ordens secretas com fins obscuros ou, pelo menos, cuja revelação esteja sujeita à prática iniciática, todos mais ou menos confluem na sua génese, naquilo que os moveu ao encontro de um despertar, de um conhecimento mais profundo.

O Homem dos dias de hoje – nele me incluo, ou doutro modo nunca disto me daria conta – procura o que tantos outros procuraram na antiguidade clássica, na idade medieval, no renascimento, no iluminismo, no modernismo, na contemporaneidade.

Procura-se um caminho, é certo, mas algo mais além do caminho. O caminho é o alvo fácil. Conhecer a existência do caminho e até os detalhes do percurso em nada acalmam os que têm sede de nele se aventurarem. Por vezes três passos são suficientes para satisfazer a curiosidade. Outras vezes, ascender a escadaria até aos últimos degraus da iluminação, do conhecimento último é suficiente para preencher o vazio, mas insuficiente para encontrar respostas contundentes.

Alguns apaziguam a sua natureza inquisitiva com a companhia de outros ambulantes, perdem-se na magia dos rakings e das iniciações, apresentam-se e auto-integram-se numa hierarquia imperfeita, reflexo da ordem cabalística dos céus. Criam-se cursos, conferem-se graus, iniciam-se e reiniciam-se praticantes e curiosos na esperança de apaziguamento intelectual muito além do espiritual, muito além do mental.

Há enraizada na humanidade uma amnésia colectiva, uma necessidade de redescoberta na ordem inversa da progressão do tempo. Um passado histórico da humanidade, esquecido e enterrado em eras, séculos e décadas, correntes doutrinais e académicas, escolas e confissões, dogmas e rejuvenescimentos.
Mas tudo busca, todos procuram um Mestre que lhes diga o que foram, o que são e o que serão.
O Mestre é quem falta no caminho percorrido e a percorrer, o último degrau na hierarquia. É a quem recorrer, o guia maior do templo que guarda os melhores indícios para as respostas às perguntas mais difíceis de formular.

Para o discípulo, o Mestre é aquele que conhece a pergunta verdadeira que reorienta a busca e é a certeza de companhia no meio da solidão.

O Mestre para muitos apresenta-se como o próprio caminho ou, vice-versa, o caminho é o próprio Mestre.
A mestria magistral, aquela que ensina sem ser pedida, a que está presente sem se revelar, a que se releva sem ofuscar; é esta a busca incessante do homem inquieto e cobarde.

A cobardia aqui é boa. Não me tomem por arrogante. Cobarde sou eu também que vivo na imensa busca de um saber transcendente, na esperança de encontrar alguém que me mostre o caminho para lá chegar.
A cobardia, sinto-a todos os dias quando sigo o caminho mais fácil para o trabalho, o que me leva em linha recta, sem desvios, e que me transporta, talvez pela parte mais feia da cidade, quando na rua ao lado existe um belo jardim pronto a ser atravessado.

Hoje procuro o Mestre dos mestres, na história, no presente, no futuro, como se a dimensão do tempo de nada importasse. E tenho para comigo, como tese que proponho explorar, que tal Mestre é uma ilusão se o julgarmos uno, indivisível, presente, omnisciente.

Os muitos que procuram um Mestre procuram um Deus em disfarce, um peregrino que resgate S. Martinho debaixo do intenso aluvião.

Chamam-lhe Mestre porque a palavra Deus soa, na Europa e em geral na ocidentalidade, como algo desconfiável, uma ideia sem sustentação científica como se a sustentação científica fosse pressuposto da fé e não, talvez, parte da sua antítese necessária e imutável.

Não me lanço na procura de Deus. Muitos tentaram e continuam a tentar, com bastante mais displicência, conhecimento e sabedoria que aquela que eu posso oferecer a tão imensa tarefa. Aos teólogos e ateus deixarei esse labor; aos primeiros a prova da existência, aos segundos a sua refutação.

Mas um Mestre é diferente de um Deus. A procura de um Mestre é menos pretensiosa, é mais pessoal.

Como próprio caminho, o Mestre é individual, fala ao coração e à razão de uma forma tão clara e directa que se torna incontestável a verdade relativa e absoluta do que afirma.

Tenho convivido com alguns mestres: uns autoproclamados, com mérito e sem mérito, outros aos quais reconheço mestria na sua dimensão humana e intelectual profunda – o que não deixa de ser a minha percepção, ajustada em função meu próprio mapa mental –, outros são mestres nas artes da escrita, da política, da associação comunicativa e de gentes.

Como pressuposto de teste, assumo que a todos estes a mestria acorra como uma dimensão, uma parte de um todo maior, uma inspiração, uma dádiva, uma canalização, um reflexo de um espírito, de um cérebro e de uma mente activa, toldada pelas vivências, pelas paixões, pelas lições apreendidas e dadas.

Conversarei com alguns destes pequenos mestres, com homens e mulheres insuspeitos mas que apresentem alguma das características puramente indiciáticas, suspeitas, incomuns ou meramente extraordinárias que nos propomos deslindar.

O objectivo desta obra é encontrar ou reencontrar esse Mestre natural, consensual, essa trave-mestra que temos presente ou da qual sentimos falta. Em boa verdade, um desafio não menos exigente que a própria procura da afirmação ou negação irrefutáveis de Deus.

Uma diferença impera, contudo. Procura-se o Mestre não para saber se é existente ou inexistente, apenas para o conseguir identificar quando um dia, verídico ou hipotético, estejamos na sua presença.

domingo, outubro 30, 2011

Lamparina

Lamparina, que danças
perdida uma chama de fogo
sangue e amor.

Iluminas esta vida vazia,
Pelo desespero entrecurtada
consumindo na tua luz um segredo

No teu regaço,
o calor de um beijo
No teu azeite,
uma só alma deixada.

Ao encontro do teu desejo,
A chama reluzente adorna
dois corpos inanimados

Lamparina antiga, deixada em oração,
Iluminaste quanto podias,
Mas nunca tão negro coração.


a epopeia dos sonhos leva-me longe, onde não há mestre ou estrela guia, numa perseguição infalível do que nunca posso agarrar

cerro os dentos e avanço, despedaço estilhaços e faço da terra chão circulante. das manhãs às noites, rios de gente que esperam, aguardam, reclamam e pedem um pouco de tom, um pouco de atenção, alarmantes as vozes que vagueiam entre choros e gargalhadas.

a minha atenção divide-se em mil pedaços, escoados entre vastos lagos de tempo e razão, amores perdidos e vontades conquistadas pela força do punho fechado.

não sou o monstro que me apareço, nem o anjo de asas desfraldadas.

há um pouco do que leva cada um, em mim, como em nós, um sopro de expectativa que ao longe, trazida por ecos, nos desperta em silêncio.

regressando hoje um dia a antes de ontem, as escolhas tomadas, incoerentes e certas, serão calhaus e pedras certeiras com a mira cega entre os olhos.

a manhã é assim mesmo, como a noite. o céu como a terra, a gente como a solidão. perpétuos ciclos elípticos, ilusórios como reais. e, de repente, não sei mais em que confiar.

no que vejo? no que sinto? no que ouço? no que espero? no que lembro? no que desconheço? no que sei e não mostro?

segunda-feira, março 07, 2011

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Épica Epopeia

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!


II


E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!


III


Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano.
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.


IV


E vós, ninfas do Douro onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene

quinta-feira, setembro 16, 2010

Come Home

"O que me move é a vocação divina da palavra, que não apenas nomeia mas que inventa e produz encantamento.
Estamos todos amarrados aos códigos colectivos com que comunicamos na vida quotidiana. Mas quem escreve quer dizer coisas que estão para além da vida quotidiana."
Mia Couto

quarta-feira, agosto 18, 2010

My thought My mind My heart

The cruelty of life is not in being given no second chances but in having new ones permanentely offered back.

quarta-feira, julho 28, 2010

sábado, julho 10, 2010

a desculpa dos "porquê?", como se o "porque sim!" não bastasse

por vezes, gostaria de saber pensar como uma pessoa normal. não sei o que há de normal nas pessoas normais, mas gostava de pensar como tal, de conseguir conversar como tal, de encontrar e sentir interesses como tal. Tal e qual qualquer pessoa normal, sinto vontade de experimentar, de conhecer, de me exprimir, talvez, por vezes, com demasiada veemência - tanta, que parece até presunção inaudita ou desajustada à conversa que se proporciona. A proporção da conversa face ao momento ou ao tema conversado é, também, algo que me aflige - será que sei?, será que saberei? será que interesso ou me interessa, sequer, o que penso que sei? E, no entranto da hesitação, o risco de que o momento, a oportunidade se eclipse, sem mais nem porquê, parece de tal forma previsível que uma pessoa alvitra hipóteses ou interrogações, consciente de que as mesmas servem um propósito de saber, mas, adicionalmente, o de não deixar cair em saco roto a conversa com pessoas que nos interessa conhecer. Digo conhecer, não compreender, isso não acontece... por maior e mais legítimo o interesse, dificilmente acontecerá. Não me entendo a mim próprio, pelo como entender-te a ti também através de conversa de circunstância, ainda que descontextuada do padrão "normal" de conversa de café? Não respondo a tais questões; não ouso sequer fazê-lo, mas espero consegui-lo, algures num tempo que seja limitado ou delimitado pelo recorte dos programas e agendamentos pelos quais formatamos encontros e nos deixamos formatar. Digo deixamos pois acredito na supremacia última do ser e da vontade que sou em ser. Em afirmar-me através do espaço, em perpetuar-me através do tempo. A minha auto-imposição não carece de requerimentos nem de autorizãções, e quem me olha nos olhos, como que lendo linhas soltas, apercebe-se da revolta do sentir desmesuradamente e do grito permanentemente abafado. Mas o grito inaudível sou eu, também. Talvez até mais que a sonoridade da minha voz ou a irrespeitável pseudo-intelectualidade que me arrogo. Não que não afirme o que saiba; faço-o e com prazer, como que ensinando o que me foi ensinado e assim posso ser eu mesmo uma profecia autorrealizada. E embora o apego enfraqueça o espírito, o espírito prevalece sempre, mais além do que me prende aos ditames sociais e da sociabilização entre aparentes irrisórios iguais - como se a própria igualdade quisesse ou desejasse arrogar-se mais que o papel de mediana entre os extremos personificativos em que nos movemos. Os limites, máximo e mínimo, existem. São absolutos e intransponíveis quão instransponível é própria concepção e fé que destes fazemos, como se o nosso mundo, aquilo que somos, fosse por estes balizados e destes não se evadisse - o que é uma ideia ridícula e errada. O tecido que nos entrecruza é vivo, humano e sentimental. Sentimental porque sente, física e psicologicamente; vivo porque se desvanece e o deixa de ser. Se assim não fosse, nem sequer o seria. Acreditar no alpha e no ómega, no saber e no desconhecer, corrermos atrás do conhecimento ou em perseguissão da ignorância não passa disso mesmo: ir atrás. Sempre atrás e nunca à frente. É preciso esquecer o que somos e acreditar no que vamos ser, não pelo que seremos mas pelo que já somos na fé do que seremos. É esta a verdadeira essência de ser, a insustentável leveza que nos atormenta e da qual, desligados, nos acreditamos apartados e necessitados de maior busca que não seja apreender o que até nós é trazido, na ilusão de que aquilo que é trazido não somos também nós que trazemos sempre, por mais roupagens que vistamos.

terça-feira, julho 06, 2010

A Universal Philosophical Refutation

A philosopher once had the following dream.

First Aristotle appeared, and the philosopher said to him, "Could you give me a fifteen-minute capsule sketch of your entire philosophy?" To the philosopher's surprise, Aristotle gave him an excellent exposition in which he compressed an enormous amount of material into a mere fifteen minutes. But then the philosopher raised a certain objection which Aristotle couldn't answer. Confounded, Aristotle disappeared.
Then Plato appeared. The same thing happened again, and the philosophers' objection to Plato was the same as his objection to Aristotle. Plato also couldn't answer it and disappeared.

Then all the famous philosophers of history appeared one-by-one and our philosopher refuted every one with the same objection.

After the last philosopher vanished, our philosopher said to himself, "I know I'm asleep and dreaming all this. Yet I've found a universal refutation for all philosophical systems! Tomorrow when I wake up, I will probably have forgotten it, and the world will really miss something!" With an iron effort, the philosopher forced himself to wake up, rush over to his desk, and write down his universal refutation. Then he jumped back into bed with a sigh of relief.

The next morning when he awoke, he went over to the desk to see what he had written. It was, "That's what you say."

Raymond Smullyan, 5000 B.C. and Other Philosophical Fantasies. St. Martin's Press, 1983

domingo, julho 04, 2010

Apologia do trabalho

"Causas do conflito

Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários.

A solução socialista

Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para - os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.

A propriedade particular

De facto, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito da propriedade mobiliária e imobiliária? Assim, esta conversão da propriedade particular em propriedade colectiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu património e melhorarem a sua situação.

Mas, e isto parece ainda mais grave, o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural. Há, efectivamente, sob este ponto de vista, uma grandíssima diferença entre o homem e os animais destituídos de razão. Estes não se governam a si mesmos; são dirigidos e governados pela natureza, mediante um duplo instinto, que, por um lado, conserva a sua actividade sempre viva e lhes desenvolve as forças; por outro, provoca e circunscreve ao mesmo tempo cada um dos seus movimentos. O primeiro instinto leva-os à conservação e à defesa da sua própria vida; o segundo, à propagação da espécie; e este duplo resultado obtêm-no facilmente pelo uso das coisas presentes e postas ao seu alcance. Por outro lado, seriam incapazes de transpor esses limites, porque apenas são movidos pelos sentidos e por cada objecto particular que os sentidos percebem. Muito diferente é a natureza humana. Primeiramente, no homem reside, em sua perfeição, toda.a virtude da natureza sensitiva, e desde logo lhe pertence, não menos que a esta, gozar dos objectos físicos e corpóreos. Mas a vida sensitiva mesmo que possuída em toda a sua plenitude, não só não abraça toda a natureza humana, mas é-lhe muito inferior e própria para lhe obedecer e ser-lhe sujeita. O que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência, e em virtude desta prerrogativa deve reconhecer-se ao homem não só a faculdade geral de usar das coisas exteriores, mas ainda o direito estável e perpétuo de as possuir, tanto as que se consomem pelo uso, como as que permanecem depois de nos terem servido.

Uso comum dos bens criados e propriedade particular deles

Uma consideração mais profunda da natureza humana vai fazer sobressair melhor ainda esta verdade. O homem abrange pela sua inteligência uma infinidade de objectos, e às coisas presentes acrescenta e prende as coisas futuras; além disso, é senhor das suas acções; também sob a direcção da lei eterna e sob o governo universal da Providência divina, ele é, de algum modo, para si a sua lei e a sua providência. É por isso que tem o direito de escolher as coisas que julgar mais aptas, não só para prover ao presente, mas ainda ao futuro. De onde se segue que deve ter sob o seu domínio não só os produtos da terra, mas ainda a própria terra, que, pela sua fecundidade, ele vê estar destinada a ser a sua fornecedora no futuro. As necessidades do homem repetem-se perpetuamente: satisfeitas hoje, renascem amanhã com novas exigências. Foi preciso, portanto, para que ele pudesse realizar o seu direito em todo o tempo, que a natureza pusesse à sua disposição um elemento estável e permanente, capaz de lhe fornecer perpetuamente os meios. Ora, esse elemento só podia ser a terra, com os seus recursos sempre fecundos. E não se apele para a providência do Estado, porque o Estado é posterior ao homem, e antes que ele pudesse formar-se, já o homem tinha recebido da natureza o direito de viver e proteger a sua existência. Não se oponha também à legitimidade da propriedade particular o facto de que Deus concedeu a terra a todo o género humano para a gozar, porque Deus não a concedeu aos homens para que a dominassem confusamente todos juntos. Tal não é o sentido dessa verdade. Ela significa, unicamente, que Deus não assinou uma parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades à indústria humana e às instituições dos povos. Aliás, posto que dividida em propriedades particulares, a terra não deixa de servir à utilidade comum de todos, atendendo a que não há ninguém entre os mortais que não se alimente do produto dos campos. Quem os não tem, supre-os pelo trabalho, de maneira que se pode afirmar, com toda a verdade, que o trabalho é o meio universal de prover às necessidades da vida, quer ele se exerça num terreno próprio, quer em alguma parte lucrativa cuja remuneração, sai apenas dos produtos múltiplos da terra, com os quais ela se comuta. De tudo isto resulta, mais uma vez, que a propriedade particular é plenamente conforme à natureza. A terra, sem dúvida, fornece ao homem com abundância as coisas necessárias para a conservação da sua vida e ainda para o seu aperfeiçoamento, mas não poderia fornecê-las sem a cultura e sem os cuidados do homem. Ora, que faz o homem, consumindo os recursos do seu espírito e as forças do seu corpo em procurar esses bens da natureza? Aplica, para assim dizer, a si mesmo a porção da natureza corpórea que cultiva e deixa nela como que um certo cunho da sua pessoa, a ponto que, com toda a justiça, esse bem será possuído de futuro como seu, e não será lícito a ninguém violar o seu direito de qualquer forma que seja."


Rerum Novarum - 1891
"a morte é como o bacalhau: há 1001 maneiras de executar e apenas 1 de provar"

sexta-feira, julho 02, 2010

Vertigens

Por vezes encontramos encruzilhadas, linhas traçadas, entrelaçadas como meadas de lã tricotadas em formatos sempre originais e inovadores, que nos impedem de utilizar comportamentos padronizados, aprendidos e inculcados ao longo da nossa vida e por via das experiências reunidas.

Fosse a experiência verdadeiramente nossa e não uma mera ilusão passageira e fugaz, talvez se compreendesse o medo de perder aquilo que ridiculamente acreditamos possuir ou ter direito.

Somos navegadores em campo de mártires, procurando em redor por auxílio, apenas para olhar as costas dos desertores e as faces dos abatidos pregadas ao chão.

É neste momento que caímos, por dentro e por fora, de joelhos à terra e mãos ao rosto, mais que chorando, inquirindo e desafiando a força utópica dos destinos, entrecruzados como nós próprios nas teias que tecemos e nas quais nos deixamos adormecidademente enleados, suspensos à sombra do abismo que nos propomos escalar sem nunca o fazer. Não por medo. Apenas vertigens.


"Tinha uma vontade brutal de fazer qualquer coisa que a impedisse de voltar atrás. Tinha vontade de anular brutalmente os últimos sete anos da sua vida. Eram vertigens. Um inebriante, um incontrolável desejo de cair.

Poderia talvez dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas em vez de resistir-lhe, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra."

A Insustentável Leveza do Ser
Milan Kundera

quarta-feira, junho 30, 2010

quinta-feira, junho 24, 2010

Directions

acho que te conheço de algum lugar, tão distante e perdido que esqueci por completo qual. não consigo perceber ou explicar, mas foste mais além do agora, mais acima do que és. mas não te entendo. não entendo o que te tornaste, do que vieste, para onde vais. nem tu fazes ideia, também. perdido, deambulando confuso, convencido do caminho e direcção. mas seguindo sempre. sempre. sempre. sempre.

"Alice: Would you tell me, please, which way I ought to go from here?
The Cat: That depends a good deal on where you want to get to.
Alice: I don't much care where.
The Cat: Then it doesn't much matter which way you go.
Alice: …so long as I get somewhere.
The Cat: Oh, you're sure to do that, if only you walk long enough."

Alice and the Cat – Quotes:
Alice in Wonderland

domingo, junho 20, 2010

Balança com Ascendente em Virgem

Virgem é um Signo que não se deixa influenciar facilmente, tem reacções lentas e duráveis, possui um espírito laborioso e crítico, mas é um pouco introvertido e egocêntrico. O nativo de Virgem leva demasiado a sério a vida, os seus acontecimentos e as responsabilidades. O nativo de Balança é um ser acima de tudo equilibrado, ponderado, elegante, evoluído, disposto a dar o coração totalmente. Ora tudo isto está muito longe do que Virgem proporciona. O indivíduo Balança que tem Virgem como Ascendente, tende a trabalhar com mais precisão, exactidão e minúcia. Perturba-o o facto de ser instintivamente extrovertido e sente-se coagido quando contacta o seu semelhante. Este indivíduo deve procurar modificar o seu carácter para resolver os seus problemas de comunicação e conviver com toda a confiança quando se trata da relação com os outros. Esta combinação Balança/Virgem favorece as faculdades perceptivas e confere habilidade nas questões que requeiram lucidez e percepções aguçadas. A sua natureza não é perseverante e por vezes vacila em atitudes e opiniões.


As finanças desempenham um papel de destaque na sua vida, mas enfrenta dificuldades e obtém pouco sucesso. Como é uma pessoa que se volta para os outros, a vida social e as uniões estão favorecidas. Gosta de ser prestável se isso não for contra os seus interesses. Tem sensibilidade aos cheiros e por vezes é um tanto maníaco, as coisas nunca estão em ordem, nem as pessoas suficientemente limpas. É sentimental, mas está sempre à defesa, podendo tropeçar, no entanto, nas armadilhas do amor.
 
Tem um temperamento hipersensível, estético e requintado, além de ser uma pessoa bastante amável, com senso prático e dotada de uma certa habilidade. Poderá vir a ser um excelente professor e pode ser atraído pela medicina alternativa ou pelos alimentos naturais. A horticultura, a agricultura e a enfermagem também estarão de acordo com o seu gosto. Poderá ter grande talento para o artesanato, para a cerâmica, por exemplo. Como gosta de trabalhar com afinco, isso fá-lo-á crescer. É natural que sinta atracção pelo Signo de Peixes.

sábado, junho 19, 2010

"Friendship isn’t hard to spot.

It’s an action, a feeling, a way of being all at once.
It’s a perception and a reality that is exchanged without speaking.
It’s the comfortable white space between the words in conversation.
It’s the smile in the eyes of someone that says, “We just met, but I know who you are.”
It’s that “come out and play” kind of feeling.

You can recognize a friend, because no matter what happens, with that person you are someone you want to be."

Liz Strauss

quinta-feira, junho 17, 2010

o princípio da incerteza

crescemos e mudamos.

temos essa percepção, de que tudo e todos os que nos rodeiam crescem num ciclo de longos ritmos e tendências. à medida que de uns nos afastamos, outros há que de nós se aproximam (ou a estes nos aproximamos) com alguma consciência do que fazemos.

existe um sentimento grave de perda e frustação quando nos afastamos de um amigo querido, por nossa própria vontade ou por força das circunstâncias em que ambos nos vemos envolvidos. existe um sentimento de dúvida sobre os motivos para o afastamento de alguém que amamos ou que amámos num determinado momento; um sentimento que nunca conseguiremos apagar totalmente do nosso espírito, como se se tratasse de uma marca "kármica", um desafio que transportaremos, possivelmente, para uma nova vida terrena - como frequentemente se encontra referência em tantas filosofias orientais. e faz-se um esforço para avançar, apesar de este sentimento de profunda perda - tão semelhante àquele sentido na morte ou separação de um ente querido, guardado nas nossas memórias.

a vida e a morte misturam-se profundamente no sentido de uma amizade, quer disso tenhamos consciência ou não. isto porque a amizade parece transcender a dimensão física das coisas e, como tal, nunca poderá ser reconduzida ao alpha e ao ómega pelos quais nos regemos neste mundo - a vida e a morte, o bom e o mau, o sim e o não. o dualismo do nosso mundo físico não se adequa à natureza eternamente inteligível da amizade. por mais anos que vivamos e convivamos com o nosso amigo jamais conseguiremos saber tudo sobre ele - porque iniciar uma relação de amizade é como começar a ler pelo meio um livro sem princípio nem fim.

na alegria dos novos encontros, reacende-se na alma uma esperança de partilha, em que é permitido iniciar uma nova leitura e em que, por contrapartida, alguém nos lê também a nós - pelo meio, como é suposto ser, folheando páginas, por vezes, da direita para a esquerda e, noutros casos, em sentido contrário.

e, nesta dialéctica da leitura mútua, há uma influência recíproca. qual Heisenberg, a mera observação parece ser por si só suficiente para interferir com o objecto observado. é claro que, ao formular esta hipótese, Heisenberg procurava explicar matematicamente fenómenos no âmbito da física cartesiana e da quântica, mas quantas vezes um aluno num teste não se sentiu perturbado ou de alguma maneira influenciado apenas por sentir o olhar do professor sobre si? quantas vezes não adaptamos o nosso comportamento à presença de um amigo ou por estarmos despertos para a existência de uma câmera de segurança num elevador?

assim, estamos todos tão singela e poderosamente ligados que assumimos uma amizade como nossa muito antes de percebermos que existe um amigo a observar-nos, a nós e ao momento presente da nossa história. muitas vezes só disso ganhamos consciência quando este começa a folhear as páginas anteriores de nós próprios, questionando-nos sobre o que fomos ou interregando sobre o rumo que permanentemente vamos traçando e redefinindo para as páginas seguintes.

as pessoas que nos marcam - os amigos - têm este virtuosismo de querer conhecer o que somos, o que fomos e o que vamos ser, talvez como esperando - como tendo esperança - de que em nós se possam conhecer a si ou ao caminho para si próprias e para a realização do seu potencial humano.

algumas vezes, deixá-las entrar é um passo difícil que exige que nos tornemos vulneráveis e que deixemos vulneráveis quem connosco convive na maior intimidade - deixar alguém verdadeiramente entrar e escutar os nossos mais íntimos pensamentos transforma-se num verdadeiro acto de amor. Neil Gaiman descreveu bem o amor que liga as pessoas - quer estas sejam verdadeiros amantes ou pessoas que se apreciem mútua e respeitosamente através de uma amizade:
«Have you even been in love? Horrible, isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens your heart and it means someone can get inside you and mess you up. You build up all these defences. You build up this whole armour, for years, so nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...


You give them a piece of you. They don't ask for it. They do something dumb one day like kiss you, or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so a simple phrase like "maybe we should just be friends" or "how very perceptive" turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a body-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love.»
na maior parte das vezes, a grande dificuldade está em deixar essa pessoa partir, sobretudo quando o tempo e os eventos que passaram juntos são já tão maiores que a percepção individual que cada um teve deles, ao ponto de torna-se difícil sequer lembrar o "como" tudo começou.

assim, sei dizer que tenho pelo menos um desejo para esta vida: não mais conseguir recordar como comecei a conhecer um amigo.

segunda-feira, maio 24, 2010

spacetime continuum distortion times two

the universe is not expanding; it is, in fact, bending itself by way of a force produced by the density of parallel universes "behind" ours. they stretch it, bending it around their focus of tension, creating distortions in the spacetime continuum of our universe, determining that what is perceived as either a constant or variable speed at which the celestial bodies apart from / gather with each other may not have actual relation to either space and time at which they appear. that is because not only the massive bodies generate distortions in the spacetime continuum inside the universe, but also because further spacetime distortions to the universe come from its peers outside itself. it is expected that this universe itself influences the other universes in its horizon of events.

domingo, maio 23, 2010

quarta-feira, maio 19, 2010

segunda-feira, maio 17, 2010

sexta-feira, maio 07, 2010

The Strength of the Risen

What is your deepest thought?

The question may seem shallow or void of any sense and purpose, but within the effort you put in understanding it you have me accomplishing my goal. Don’t worry about the out coming answer. It is as right or as wrong as you admit it to be in the thought behind all the other thoughts crossing you mind this instance.

Which purpose am I talking about?

Well, first of all the believing process innate to every man and woman. My goal is challenging you to believe. In what?, you are asking. In whatever feeling you perceive as good. The scope of emotions tremble by the feeblest thought of doubt crossing your mind, as doubt is no emotion, although you may tend to intellectually react to it as if you could already feel the anguish and fear it inputs in your mind and body. Doubt, however, is a thought on its own and it does not depend on the circumstances of your surroundings, but on the perspective and intensity by which you look at them and let them having you influenced.

But I am sure you read it all in some book. In some spiritual or living guidance manual. I read them too. I devoured them as a rushing impulse for physical and psychological tranquility. Being sure that is also your case, I’ll leave you there, with no other introspective phrases or questions… no other, apart from this: what is your deepest thought?

Tell me your thought, your deepest thought about everything, anything. The most truthful true lying behind all your questions, fueling your dreams and doubts, nurturing your hopes and fears. Repeat it to yourself whenever you have a question: “What is my deepest thought?”. And you’ll be surprised by how frail and distorted the perception of yourself is.

The difficulty, as I am sure you have figured out by now, is the amount of questions racing your mind every second of every hour of everyday and the enormous, untamable speed they trail after each other. How can you know what you are truly after when your focus spreads like butter over hot bread?

When the old preached “truth” above all other values and virtues they were not referring on having you being truthful to others. Being truthful in your relationship with your peers occurs as a sub product of the real object to which you must keep truthful all the times, at all times: you.

Truth will set you free. I’m also sure you’ve heard this one before. But what meaning did you extract from it? Was it referring to you telling everyone else what your “lies” have been (strong word, lies, sounding almost like sin)? Certainly you have already confessed a small lie to your friend, one line such as “I had to tell him I was sick so I was not going out that night”, but probably this attempt to exonerate your guilt (another strong word) did not manage to, somehow, restore your feeling to its potential for permanent joy. You’d probably be feeling much better if you had told directly to that person “I am sorry, but on the other night I lied about being sick because I was not really in the mood for going out with you” and, in response, you’d get something like “Don’t fret about it. I totally understand it and I was feeling the same way, but I was afraid of letting you know”.

So, what is it one is truly after? Is it giving truth to others or, instead, receiving comprehension and forgiveness? The trick here, however, is that only those who cannot forgive and cannot comprehend themselves try finding forgiveness and comprehension on the outside world - on a person, on an action. The truth in that case is that you have betrayed yourself at some point, you have betrayed your deepest thought about a certain situation and as you do not realize it you cannot assess that the one who needs to forgive you is, in fact, you.

Truth will set you free seems now to be a rather incorrect statement, because when you’re truthful to yourself and to your deepest thought, the thought behind all other layers of thought, you can never, ever, become a prisoner craving for release. Truth does NOT set you free, but it is otherwise your very own guarantee of freedom.

terça-feira, maio 04, 2010

Sabe a diferença entre um foguetão espacial e um míssil balístico?

Apresentarei três cenários:

Cenário 1: cidadão A trabalha, ou seja, paga IRS (espera-se!), ou seja o Estado recebe;

Cenário 2: cidadão B reforma-se e deixa de trabalhar, ou seja, o Estado passa a receber menos IRS (porque a taxa é tendencialmente inferior) e, simultaneamente, passa a gastar mais (mais uma reforma a ser paga - e, diga-se, devidamente!);

Cenário 3: cidadão C reforma-se, mas continua a trabalhar. Não só paga (potencialmente) mais IRS (sobre a pensão e sobre os rendimentos "extra"), como fica também com mais rendimento disponível para despender, ou seja, rendimento para aplicar directamente na economia ou em poupança (sim, a poupança também é, grosso modo, um método de financiamento indirecto que, na maioria dos casos, compete aos bancos - "receber depósitos e conceder financiamento"). O Estado paga uma pensão, mas recebe, adicionalmente, mais receitas pelo trabalho "extra" do cidadão C, quando comparado à falta de actividade pós-reforma do cidadão B.

Analisados estes cenários, qual destes cidadãos está, afinal, a prestar maior serviço ao país?

A questão subjacente ao artigo a que respondo, parece-me, não se encontra no facto de um cidadão ser mais ou menos activo em termos economico-profissionais após o momento em que lhe seja reconhecido o direito a uma reforma.

A questão é outra e bem mais profunda, alicerçada num postulado ético do direito ao trabalho. Um postulado que deve verificar-se sempre que haja uma relacção entre pessoas (quer laboral ou não).

A pergunta que se coloca é, pois, a de saber se o trabalho ou serviço que aquele cidadão C continua a prestar encontra legítima e justa correspondência no rendimento que dela advém.

Um dia, há alguns anos, perguntaram-me a diferença entre um foguetão, desenhado para lançar os nossos satélites para o espaço, e um comum míssil de guerra, ao que respondi negativamente.

Pois a resposta a esta questão, disseram-me, é só uma e universal para qualquer questão sobre o Homem, incluindo a de saber se o cidadão C deve continuar a trabalhar.

Pois tanto o míssil de guerra, quanto o deslumbrante foguetão são em tudo semelhantes... excepto no seu propósito e intenção.

sexta-feira, abril 23, 2010

Crio e recrio, pois não sei ser sem o fazer. Porque da minha criação nasce nova ideia, inspiração, num processo interminável onde o tempo não tem poder. O mundo que habito é meu e único, criado e recriado vezes e vezes sem fim, como sem fim vivo eternamente sem apego ou gratidão pela vida que me é dada no silencioso fulgor da emoção.
Ao prelúdio insofismável da manhã, luz e cor, azul e prata, vida e ar, são telas brancas aguardando a tinta da tua e minha criação. E o horizonte declinante, abaixo, muito abaixo das ondas revoltas e brandas do mar, acorda-te no sonho que traz a alma, para sempre suspensa por fios etéreos e ondulantes, feitos de pó das estrelas e luar

segunda-feira, abril 19, 2010

Tempo e Direcção

Entre os aromas de laranjeira no quintal, recordações de infância e juventude comparam aos ouvidos de quase-adulto como uma interrogação incessante do que motiva e conduz cada passo por entre canteiros e desabafos de olhos aflitos.

Como responder sem desprezar? Como ensinar sem subjogar? Quanto mais tolera o homem-velho a condescendência do homem-novo a seu lado, olhando a esperança como uma promessa e o futuro como uma esperança?

Perdido fica o homem que segue sempre sem saber que se deixou para trás. O corredor ultrapassado pela própria sombra, perdido para o reflexo de si sem saber que por mais rápido que corra chega sempre em segundo lugar. Onde falte a direcção, precipita-se o não-devir pela lei da velocidade.

Ir contra o sol oculta o caminho, mas a sombra do que se é fica sempre para trás.


terça-feira, dezembro 08, 2009

Quietness

She was the most beautiful girl he had ever seen. Her hair loose, falling on the side of her ear, waving above the shoulder. Her eyes tender chocolate brown sparkled by faint sprinkles of green. Legs crossed beneath her body, while she was sitting in the large chair in the front of the house reading some book. In the dime light of the early morning, she was the most beautiful sight he ever remembered seeing.

James stood still for an hour on the front porch of the old house. His feet wouldn’t move if he wanted them to. The coffee on his right hand untouched by his lips grew cooler as the steam raising up from the cup progressively vanished in the cold breeze blowing from Cadilac Mountain.

He followed the girl’s every move with his eyes, the way she scratched her noose and then composed her hair behind the ear. 'How cuter could it get?', James found himself thinking. As if listening to his thought, the girl slowly raised her eyes from the book on her lap back at James. He didn’t move or gazed away. For a moment in time, they were the only souls alive under the dawning skies.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Regina Spektor- The Call



It started out as a feeling

Which then grew into a hope
Which then turned into a quiet thought
Which then turned into a quiet word

And then that word grew louder and louder
'Til it was a battle cry

I'll come back
When you call me
No need to say goodbye

Just because everything's changing
Doesn't mean it's never been this way before
All you can do is try to know who your friends are
As you head off to the war

Pick a star on the dark horizon
And follow the light
You'll come back when it's over
No need to say goodbye

You'll come back when it's over
No need to say goodbye

Now we're back to the beginning
It's just a feeling and no one knows yet
But just because they can't feel it too
Doesn't mean that you have to forget

Let your memories grow stronger and stronger
'Til they're before your eyes

You'll come back
When they call you
No need to say goodbye

You'll come back
When they call you
No need to say goodbye

quinta-feira, setembro 03, 2009

Dreaming long before night comes
Prevents sleep to set on me,
Distractive from ancient thoughts

I'll be waking up soon,
Hoping you to be there,
By my side

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

os tambores da guerra começam a rufar, mas poucos ouvem o seu clamor. espreitadelas de soslaio sobre o direito de ver, como que vigiando ou inquirindo... e aos poucos morre o livre ser.

hoje sombrio manto se estende do oeste ao leste como véu. De penumbra e medo se cobre a terra verde, a vermelho tinge-se a ondulante cor do céu.

no clamor aflito de desejos, sonhos perdidos e naufragados despedaçam no rufo surdo a esperança do desesperado, salteador derrubado em fulgor intenso e beligerante. E do que é seu vê-se, por fim, o próprio cego apartado
 
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