terça-feira, janeiro 03, 2006

Sentidos


Todos desempenhamos um qualquer personagem na vida. Ou vivemos a vida daquele sujeito que gostávamos de ser, ou a vida do vizinho do lado, ou, ainda, interpretamos o nosso próprio personagem, da maneira mais próxima da imagem que temos de nós mesmos.

Mas, mais das vezes, parece que fazemos uma amálgama de todos os personagens da nossa história, tirando de cada um aquilo que melhor se ajuste às nossas próprias necessidades e as preencha, tentando moldar uma personalidade em função dos objectivos que queremos alcançar na vida, adoptando-a como nossa.

Fazêmo-lo, umas vezes, como reacção à sociedade, ao meio onde nos encontramos, procurando encontrar nela uma certa elasticidade que permita adequarmo-nos às exigências exteriores e à agressividade que lhes é inerente.

Passou por mim, há poucas horas, um ensinamento índio onde se dizia que, dentro de cada um, existem dois cães - um manso e um agressivo - que se mantêm numa luta constante. E quando se pergunta qual dos dois sairá vencedor, a resposta é que será aquele a que dermos comida.

A simplicidade aparente deste pensamento contrasta com a profundidade a que vai descerrar algumas sombras do nosso espírito. Há uma responsabilidade exclusivamente nossa de nutrirmos em nós mesmos o melhor, ou o pior, ou o nada. É uma escolha própria e indelegável, onde a motivação não pode vir de fora, sob pena de se extinguir facilmente.

Agora que penso bem, todo o meu dia esteve repleto de pequenas indicações que me conduziram até ao sentido deste texto. Há pouco, deparei-me, igualmente, com uma crónica, de Maria Costa Félix, sobre o sentido da vida, onde podia ler-se:

«Enquanto esperarmos por alguma ajuda exterior, limitamo-nos a ir vivendo. Sem encarar o facto de estarmos vivos como um, por cujo pleno aproveitamento somos responsáveis.».

A tónica desse artigo assentava nos conflitos entre «aquilo que somos e o que fazemos». Seremos, possivelmente, muito mais que aquilo que fazemos, e o nosso valor irá mais além das nossas próprias acções, ou estados de não-acção. E o medo, aí, teria como função indicar um caminho a seguir, porque motiva uma reflexão sobre cada um e nos leva a uma «relação de autenticidade connosco próprios, que nos faz sentir "validados"».

É este o impulso que todos procuramos, intimamente, dentro de nós, porque,

«em geral, o que mais nos incomoda é aquilo que, naquele momento, mais nos pode ajudar a descobrir o que é que nos dá sentido à vida.».

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