quarta-feira, dezembro 14, 2005

And the night goes by, and the work remains

São tantas as coisas de que gosto e tão poucas as que me satisfazem. Quanto mais trabalho, quanto mais embrenhado vou entrando nesse labor, menos penso, menos sinto, porque menos espaço me deixo para sentir. E o que preencho com aquela actividade deixa-me tão vazio como se, por dentro, o meu peito fosse feito de ar, preso entre paredes de chumbo.

Há momentos em que as coisas deixam de fazer muito sentido. Quando estamos cansados, quando queremos estar num outro lugar qualquer, sozinhos ou acompanhados. Quando queremos estar a fazer outra coisa qualquer, noutro lugar qualquer, sozinhos ou acompanhados. Mas nos mantemos onde estamos, com quem estamos. Regra geral sozinhos, porque estes pensamentos nunca surgem quando estamos embebedados pela promessa efémora da companhia dos outros, que acabam por ir a algum lado, como também nós vamos para o nosso lado e os desacompanhamos.

Quando se pensa onde estamos e como estamos, nunca haveremos de estar satisfeitos. Enquanto o vazio preencher o maior espaço que temos, havemos de sentir sempre que somos de outro lugar. O trabalho é como as companhias dos amigos, da família. Sabemos que estão lá sempre para nós. A diferença é que nunca estão exactamente aqui, no sítio onde precisamos mesmo deles. E a sua presença... a sua presença, por mais reconfortante que seja, não nos toca a alma, ou seja, não nos toca a sério.


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