Estas sombras que vejo longas, desabrochando atrás daquela cadeira, ao canto da memória de um velho, clamam o esquecimento das horas, de cada década, de cada século. Apelam àquela sensibilidade distante, das árvores milenares enraizadas nas terras, antes da chegada dos homens. Lançam um olhar escuro que intimida e atrai. Pergunto-lhes donde sai a luz que as alimenta... servas escuras do carvão. Irmãs do meio-dia. Não me respondem, visitam-se mutuamente, no silêncio da cadeira, que não baloiça, nem range. Pergunto-lhes quem são, de que se vestem... desprezadas de contornos definidos. Não percebo o que me dizem. Olho-as com atenção, são translúcidas, como o vento poeirento, mas escuras, negras, sem esse doirado que baila os jardins. Não escureci o suficiente para perceber a sua fala. Talvez o sol, seu irmão, me dê o tom negro à pele e, de tanto insistir, os seus braços me trespassem o corpo e, também eu, fique translúcido e as possa abraçar, finalmente.
sábado, setembro 17, 2005
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