Vou escrever uma coisa muito directa para ti.
Podes vir ao blog as vezes que quiseres, acedendo através dos computadores que quiseres e eu saberei sempre.
Podes vir à 2.ª, à 4.ª ou à 6.ª-feira.
Podes vir ao meio dia e meio ou às 7 da tarde. Ou às 6 da manhã, depois de chegares a casa de uma noitada.
Tu achas que não compreendo o que estás a fazer. Pensas que não te conheço.
Mas eu sei que achas que já passou muito tempo, que deves ser firme nas decisões tomadas, que houve um ciclo que se fechou e não há justificação para o retomar.
E de uma forma racional eu concordo contigo em tudo isto.
Mas pelo simples facto de concordar reconheço que mantemos uma sintonia de mentes, porque nesta postura somos demasiado parecidos um com o outro e não nos é difícil concordar com as razões um do outro.
E se assim é, racionalmente suponho que haja um acordo de espíritos que prevalece. Sabes o que é um acordo de espíritos? É a união de duas mentes para um propósito comum.
Não somos assim tão diferentes, nunca fomos. Nem nos objectivos que procuramos, nem na forma como o fazemos. E se não consegues reconhecer que isto é verdade, então tens de continuar a fazer uma autoanálise mais profunda.
Sabes por que é que digo que te conheço?
Não é por "adivinhar" a reacção que vais ter de seguida. É porque me revejo em ti e sei que faria o mesmo que tu.
Se estivesse no teu lugar, a minha reacção a este texto seria simplesmente deixar de vir ao blog para a minha presença deixar de ser notada. Não foi esse o teu primeiro instinto?
Mas no fundo, tanto tu como eu sabemos que não queremos perder a informação sobre o outro. Queremos saber o que se está a passar, mas mantendo o anonimato. Observar à distância.
E eu sei que também me conheces.
Sabes o que me magoa e sabes que tipo de pessoa sou. E parte do teu receio passa por acreditares que sou instável e que assim que cedas um milímetro eu aproveite a brecha para voltar a "invadir" a tua vida.
Tu sabes que vou ser sempre uma pessoa incómoda, no sentido em que vou sempre ser um chato moralista que te vai incomodar a consciência.
Mas achas que és muito diferente para mim?
Tu sempre me puxaste as orelhas quando as minhas atitudes fugiram ao que estava correcto.
Sabes por que te contei sempre tudo o que se passava comigo?
Porque nunca achei justo eu saber tanto sobre ti e não deixar-te ver que eu também tinha imperfeições graves.
Disseste-me que sabias tanta coisa que nunca contaste. E eu quis que as soubesses, porque era justo fazermos essa troca para te provar que não queria ter sobre ti nenhum ascendente nem vantagem. Assim como eu sabia coisas sobre ti, tu passaste a saber outras igualmente importantes e graves sobre mim.
E com isso tentei fazer com que não te sentisses só. Tentei demonstrar-te que todos temos lados negros que gostávamos de apagar do que somos e dos percursos que escolhemos.
Mas também queria mostrar-te que, ao mesmo tempo, são estas imperfeições que nos permitem corrigir o rumo, desafiar as consequências das nossas acções e redefinir um novo futuro mais ajustado ao projecto de vida que desejamos para nós mesmos.
E com esta troca queria que soubesses que comigo não era preciso teres vergonha nem arrependimentos de nada e que também não era preciso justificares nada.
E tu achaste que eu te estava a julgar. Mas não é verdade. Eu estive sempre a amar-te, como só um verdadeiro amigo pode fazer.
É verdade que no final me envolvi demais. Mas não te deixei mentir. Não podia fazê-lo.
Não só era uma herança muito pesada para eu guardar, mas também porque senti a obrigação de libertar-te de mais essa amarra em que te estavas a meter.
Mesmo que isso significasse que me irias odiar por muito tempo.
Pus a nossa amizade na balança e pesei-a contra a minha própria responsabilidade em guiar-te para uma libertação total dos segredos que te aprisionavam.
Pesei também o meu sofrimento face à perda da tua confiança e tentei avaliar a tua capacidade de perdoar.
E no final tomei a decisão que nos sacrificou.
Por estes motivos continuo a valorizar muito a tua amizade.
Porque se conseguires perdoar-me, não só fazes este sacrifício ter valido a pena, como descobrirás uma qualidade que possuis e tens dificuldade em assumir:
compaixão (vontade de perdoar, mesmo quando racionalmente não vês motivos para o fazer).
É mais fácil os amigos verem em nós esta qualidade, pois apreciam a essência do que somos e dos gestos de amizade que fazemos. Eles conhecem o nosso projecto de vida, aquilo a que aspiramos e apoiam-nos incondicionalmente.
Um abraço.