não esquecerei esse momento
que eternizei para mim:
o teu olhar tão intenso,
brilhante como és afinal,
de tanta vida a transbordar,
tão feliz que me pareces irreal...
...e chama-me um dia louco,
que irrisório ou infantil,
seria ainda tão pouco,
por não perder esta imagem:
os contornos do teu rosto,
sob luz fugidia em que o vi,
esbatidos na memória
no que resta dessa miragem...
...e deixa-me só, assim,
perdendo para todos a razão,
porque não ver-te de novo
sabe tão menos que a pouco...
e por tentar,
por tentar, ainda que em vão,
fazer de ti este meu sonho,
tão impossível e medonho,
haverei até de parecer,
dos loucos, o mais louco
se não és, afinal, ilusão.
quinta-feira, agosto 24, 2006
sábado, agosto 12, 2006
sábado, agosto 05, 2006
segunda-feira, julho 31, 2006
back for a while
tenho andado - talvez ainda ande - afastado destes sítios já tão antigos e perdidos dentro de mim. reconduzem-me às saudades incontroláveis, àquelas que aparecem do nada, onde quer que esteja, seja a ler um livro ou no intervalo do cinema.
tenho estado estes dias em casa, na casa dos meus pais - corrijo, porque casa, lar, foi algo que deixei para trás no dia em que parti para estudar fora. O meu lar abandonou-me, como me abandonei eu próprio a viver sem ele, sem lhe sentir a falta, mas desejando regressar a um lar meu, por mim construído, comigo nascido, comigo envelhecido. A miragem de uma conquista que não se consegue sozinho, à sombra de uma linha paralela criada à imagem e à mesma velocidade do mundo real.
ainda me vejo preso entre esse equilíbrio desigual do que vou criando e do que espero criar, que em perspectiva é o que presentemente possuo e as marcas que deixo à medida que sigo em frente. como se um dos mundos vivesse indexado ao outro e ainda assim se mantivesse dele apartado.
penso muito mais agora antes de escrever, que quando o fazia meses atrás e por meses sucessivos. tento pesar as palavras e o sentido das frases a ver se soam a verdades ou a romances novelísticos ditados para e pela minha memória, como uma estória que contasse repetidamente a mim próprio, para me forçar a acreditar.
sinto que é verdade que depois de Janeiro nem o melhor é tão bom, ou que até o pior já não custa tanto a suportar. uma perna de cada um dos lados de uma ribanceira íngreme que se vai abrindo sob mim, como se se afastassem os continentes deixando lugar ao mar, ondulante logo abaixo.
vejo o pouco que me é dado a conhecer e imagino como será o resto, como seria nunca sentir a falta de alguém, deixar cair as esperanças de que existiria sempre alguém à espera de mim nalgum sítio de onde não sou. De onde já não sou.
oiço falar daquele lar que me desertou, viajando nas bocas de tantos em meu redor, bons conhecedores dos costumes e do que é suposto ser correcto, sensato ou ousado, veneráveis detentores do saber de tudo o que não lhes diga directamente respeito, perdidos, sem saberem que também têm direito a um lar que deles lhes foi também, extorquido, abandonado ou dizimado.
pequenos encontrões que o tempo me dá, para me chamar à razão, como se desejasse claramente que não nos deixemos falhar por pouco, errar indefinidamente pela juventude, estagnados na insatisfação, cosendo remendos a panos já gastos, à espera que o melhor apareça, trazido pela sorte ou pela mudança natural do estado das coisas.
deixa-te tu aí parar, detido pelo que não podes ter, se assim quiseres, se esse for o rumo que escolheres com medo que te possas magoar, ou magoar ainda mais. gente presa entre comparações insolucionáveis, como a história dos infernos do irreconhemento eterno da tua própria imagem. Conversas infinitas contra o reflexo no espelho, batida a tua inteligência por si mesma.
eu cá seguirei, aos tombos, entre erros e tropeções, em dores e alegrias diminuidas se necessário. só não quero ficar.
tenho estado estes dias em casa, na casa dos meus pais - corrijo, porque casa, lar, foi algo que deixei para trás no dia em que parti para estudar fora. O meu lar abandonou-me, como me abandonei eu próprio a viver sem ele, sem lhe sentir a falta, mas desejando regressar a um lar meu, por mim construído, comigo nascido, comigo envelhecido. A miragem de uma conquista que não se consegue sozinho, à sombra de uma linha paralela criada à imagem e à mesma velocidade do mundo real.
ainda me vejo preso entre esse equilíbrio desigual do que vou criando e do que espero criar, que em perspectiva é o que presentemente possuo e as marcas que deixo à medida que sigo em frente. como se um dos mundos vivesse indexado ao outro e ainda assim se mantivesse dele apartado.
* * *
penso muito mais agora antes de escrever, que quando o fazia meses atrás e por meses sucessivos. tento pesar as palavras e o sentido das frases a ver se soam a verdades ou a romances novelísticos ditados para e pela minha memória, como uma estória que contasse repetidamente a mim próprio, para me forçar a acreditar.
sinto que é verdade que depois de Janeiro nem o melhor é tão bom, ou que até o pior já não custa tanto a suportar. uma perna de cada um dos lados de uma ribanceira íngreme que se vai abrindo sob mim, como se se afastassem os continentes deixando lugar ao mar, ondulante logo abaixo.
vejo o pouco que me é dado a conhecer e imagino como será o resto, como seria nunca sentir a falta de alguém, deixar cair as esperanças de que existiria sempre alguém à espera de mim nalgum sítio de onde não sou. De onde já não sou.
oiço falar daquele lar que me desertou, viajando nas bocas de tantos em meu redor, bons conhecedores dos costumes e do que é suposto ser correcto, sensato ou ousado, veneráveis detentores do saber de tudo o que não lhes diga directamente respeito, perdidos, sem saberem que também têm direito a um lar que deles lhes foi também, extorquido, abandonado ou dizimado.
* * *
pequenos encontrões que o tempo me dá, para me chamar à razão, como se desejasse claramente que não nos deixemos falhar por pouco, errar indefinidamente pela juventude, estagnados na insatisfação, cosendo remendos a panos já gastos, à espera que o melhor apareça, trazido pela sorte ou pela mudança natural do estado das coisas.
deixa-te tu aí parar, detido pelo que não podes ter, se assim quiseres, se esse for o rumo que escolheres com medo que te possas magoar, ou magoar ainda mais. gente presa entre comparações insolucionáveis, como a história dos infernos do irreconhemento eterno da tua própria imagem. Conversas infinitas contra o reflexo no espelho, batida a tua inteligência por si mesma.
eu cá seguirei, aos tombos, entre erros e tropeções, em dores e alegrias diminuidas se necessário. só não quero ficar.
quarta-feira, julho 12, 2006
terça-feira, julho 04, 2006
Do you have a Bonny Portmore, the one place you can't return anymore?
Oh Bonny Portmore I am sorry to see
Such a woeful destruction of your ornament tree
For it stood on your shore for many's the long day
Till the long boats from Antrim came to float it away.
Oh Bonny Portmore, you shine where you stand
And the more I think on you the more I think long
If I had you now as I had once before
All the Lords in Old England would not purchase Portmore.
All the birds in the forest they bitterly weep
Saying, "Where shall we shelter or where shall we sleep?"
For the oak and the ash they are all cutten down
And the walls of Bonny Portmore are all down to the ground.
Oh Bonny Portmore, you shine where you stand
And the more I think on you the more I think long
If I had you now as I had once before
All the Lords of Old England would not purchase Portmore.
terça-feira, junho 27, 2006
quinta-feira, junho 15, 2006
mi mancherai
sentirei a tua ausência se partires
faltar-me-á a tua serenidade
a tua voz espalhada no ar
e o amor que por ti sentia
sentirei a ausência se partires
perderei a minha vida.
e a alegria, querida amiga,
irá contigo onde fores
sentirei a tua ausência, a tua falta
por que partes?
por que se exingue o amor em ti?
porquê? porquê?
sei que nunca nada mudará
e sinto-te sempre em mim
sentirei a tua ausência, a tua falta
por que partes?
por que se exingue o amor em ti?
porquê? porquê?
sei que nunca nada mudará
e cá dentro sinto que...
faltar-me-á a imensidão
das nossas noites, dos nossos dias
e o teu sorriso no entardecer
o teu brilho de infância
sentirei a tua falta, doce amor
e encontro em mim este vazio...
porque a alegria, querida amiga,
irá contigo onde fores.
Josh Groban
sábado, junho 10, 2006
segunda-feira, maio 22, 2006
Um dia sonhei com um anjo que chorou comigo,
num lugar além das minhas memórias e das minhas dores,
sofri por ti e por mim, busquei a felicidade de todos,
vi-os infelizes e segui infeliz até agora e mais um pouco...
manda-me uma mensagem, se puderes,
tenho tantas coisas que quero perguntar e entender
que não sou o único louco neste mundo de misérias bem pagas
e de onde se tem sede num mar de lágrimas...
num lugar além das minhas memórias e das minhas dores,
sofri por ti e por mim, busquei a felicidade de todos,
vi-os infelizes e segui infeliz até agora e mais um pouco...
manda-me uma mensagem, se puderes,
tenho tantas coisas que quero perguntar e entender
que não sou o único louco neste mundo de misérias bem pagas
e de onde se tem sede num mar de lágrimas...
the greatest story ever told
percorro os dias entre lembranças distantes e o trabalho fatigante que me deixa descansar dessas memórias. aprendi a pôr no trabalho toda a energia que possuo, para conseguir chegar ao fim com tão pouco tempo que não possa pensar em mim e nas coisas que perdi, nas pessoas que passaram ao lado e que nunca mais conseguirei tocar.
resta-me tão pouco que já não consigo escrever com tanta frequência como costumava fazer. perco a lógica do mundo entre as contínuas viagens de carro, entre casa e a faculdade, cruzando sempre as mesmas ruas, dia após dia, hora após hora, noite após noite.
quando saio com os meus amigos não me consigo divertir. eles não percebem, nem têm que o perceber, mas sinto que quantas mais pessoas estão em meu redor mais só me sinto.
rio e digo disparates, entro nas conversas dos outros, que não conheço, na esperança de conseguir reencontrar a parte de mim que perdi. e sinto-me frustrado. sinto-me tão frustrado como quando não recebemos a resposta que gostavamos de ouvir, áquela pergunta que durante dias e noites infinitas ensaiamos algures dentro de nós, entre a cabeça e a garganta, e que nunca conseguimos dizer.
as palavras certas, que nunca sairam completamente, por medo de perder o que não temos, e nos fizeram falhar. será que terei falhado a minha vida? quantas vezes não me obrigo a despertar de sonhos feitos em suposições sem fundo de verdade, com raízes nos desejos do mundo ideal por onde vagueio, só para não ouvir a resposta. enquanto ao longe as conversas entrecruzadas dos amigos enchem a sala.
entre uma e outra gargalhada, sorrisos pouco sinceros de quem se gostava de rever em pequenos gestos dos outros, sem perder a integridade que conquistou por si. perderemos a nossa identidade quando nos damos a alguém? também não sei quanto perdi, do quanto dei.
às vezes desejo em segredo apenas desaparecer, deixar de existir por breves momentos, em que não teria que pensar e forçar-me a não lembrar. a amnésia, pensamos que é uma cura para muitas recordações mas, na verdade, é um analgésico de efeito breve. e imagino como deve ser bom sentir as luzes à nossa volta apagarem-se, dissolvendo-se no ar até não restar nada a que possa chamar meu. não há mais o meu corpo, a minha vida, o meu espírito, a minha consciência, ou os meus sonhos, sequer.
perco-me só mais um pouco, desejo ficar por lá uns tempos, e depois voltar, sem consciência de ter ido. e o lugar também não importa.
outras vezes, gostava de poder falar de ti, de como eras perfeita aos meus olhos, de todos as histórias que partilhámos. queria apenas que me ouvissem, sem se sentirem incomodados, chocados ou constrangidos. não queria que me tentassem compreender, ou sentir aquilo que sinto. só que me ouvissem, me deixassem contar tudo, de um fôlego, e depois me deixassem chorar, como se fossem pedras, sem sentimentos ou compaixão.
quarta-feira, maio 03, 2006
a tudo a quanto amar
a tudo a quanto amar
dou de mim o que tenho,
e, não chegando o que sou,
darei tudo o quanto amei,
e, chegando ao fim da vida
com nada mais que possa dar,
perdoem-me todos a quantos amei
tudo aquilo que não sou,
por tudo o que não dei,
é que, afinal, só mantenho
o que não vos posso mostrar,
mas lembrem-se, algum dia...
...após desvios dessa vida,
há sempre alguém a quem dar
este amor com que eu próprio
vos lembrei.
dou de mim o que tenho,
e, não chegando o que sou,
darei tudo o quanto amei,
e, chegando ao fim da vida
com nada mais que possa dar,
perdoem-me todos a quantos amei
tudo aquilo que não sou,
por tudo o que não dei,
é que, afinal, só mantenho
o que não vos posso mostrar,
mas lembrem-se, algum dia...
...após desvios dessa vida,
há sempre alguém a quem dar
este amor com que eu próprio
vos lembrei.
terça-feira, abril 25, 2006
Buenas noches!
acabadinho de regressar de terras de nuestros hermanos... prometo a reportagem para breve.
hasta mañana!
hasta mañana!
segunda-feira, abril 17, 2006
a cada passo
em cada passo que deres
a cada lugar onde fores
onde quer que estiveres
eu estou contigo
a cada dia que viver
a cada ano que passar
a cada pensamento que tiver
tu estás comigo
e quando o mundo esquecer
o amor guardado para depois
quando a memória falhar
então vens me buscar
e viveremos os dois
em cada passo que deres
a cada lugar onde fores
onde quer que estiveres
eu estou contigo
a cada dia que viver
a cada ano que passar
a cada pensamento que tiver
tu estás comigo
e quando o mundo esquecer
o amor guardado para depois
quando a memória falhar
então vens me buscar
e viveremos os dois
obrigado
segunda-feira, abril 10, 2006
por que me fazes sofrer, de uma forma tão profunda e desumana? por que a solidão me arrebata o peito, e me enche o vazio cada pequeno espaço que abriste em mim?
apareces de repente, destróis-me por dentro, em cada crença e defesa que construí, tornas tudo confuso e irreal, tudo tão intenso como a dor que agora me fere a alma, e vais-te embora, de repente, deixando a meio tudo o que estava iniciado, e deixando-me a mim, entregue a tudo o que levaste contigo e já não volto a ter.
qual a melhor maneira de viver, depois de destruídos das esperanças jovens que tínhamos? agarrados à ilusão de uma partida com um regresso prometido, ou à incerteza de reencontros eternamente adiados e suspensos numa espera infinita?
ainda seremos de novo tudo aquilo que deixamos passar? são as marcas que ficam que ainda dizem que foi verdadeiro. fotografias, lugares, ideias de conversas que tivemos e que inocentemente mostramos a outras pessoas, como se fossem coisas simples e com significado nulo.
dizem que dura um ano até que o tempo cure ou adormeça em nós as melhores lembranças, que são também as que mais doem e fazem sofrer. porque elas são as testemunhas do melhor e do pior, e fazem-nos sempre pensar sobre o que foi, o que era e o que é. obrigam-nos a comparar o que temos e o que já tivemos. E o que foi parece sempre ser mais doce e puro.
hoje não há nada para dar, nada para receber. e se não damos apercebemo-nos da dimensão eterna da nossa própria pobreza. e se não recebemos passamos a medir os dias e a vida pela infinita solidão que somos.
e no meio disto esqueço-me dos motivos pelos quais caí, pelos quais me ergueste. e esqueço a própria necessidade de sonhar, e os nossos bem ditos sonhos que nos guiaram pela mão até ao lugar onde pertencemos.
apareces de repente, destróis-me por dentro, em cada crença e defesa que construí, tornas tudo confuso e irreal, tudo tão intenso como a dor que agora me fere a alma, e vais-te embora, de repente, deixando a meio tudo o que estava iniciado, e deixando-me a mim, entregue a tudo o que levaste contigo e já não volto a ter.
qual a melhor maneira de viver, depois de destruídos das esperanças jovens que tínhamos? agarrados à ilusão de uma partida com um regresso prometido, ou à incerteza de reencontros eternamente adiados e suspensos numa espera infinita?
ainda seremos de novo tudo aquilo que deixamos passar? são as marcas que ficam que ainda dizem que foi verdadeiro. fotografias, lugares, ideias de conversas que tivemos e que inocentemente mostramos a outras pessoas, como se fossem coisas simples e com significado nulo.
dizem que dura um ano até que o tempo cure ou adormeça em nós as melhores lembranças, que são também as que mais doem e fazem sofrer. porque elas são as testemunhas do melhor e do pior, e fazem-nos sempre pensar sobre o que foi, o que era e o que é. obrigam-nos a comparar o que temos e o que já tivemos. E o que foi parece sempre ser mais doce e puro.
hoje não há nada para dar, nada para receber. e se não damos apercebemo-nos da dimensão eterna da nossa própria pobreza. e se não recebemos passamos a medir os dias e a vida pela infinita solidão que somos.
e no meio disto esqueço-me dos motivos pelos quais caí, pelos quais me ergueste. e esqueço a própria necessidade de sonhar, e os nossos bem ditos sonhos que nos guiaram pela mão até ao lugar onde pertencemos.
minha mc
domingo, abril 02, 2006
Tudo o mais é ruído.
Quando era miúdo e me sentavam no 2º lugar, da 3ª fila de bancos, na igreja, a ouvir a missa, desejava apenas que aquela hora passasse o mais depressa possível. Aqueles bancos eram duros, faziam doer e não havia outra posição para estar sentado senão aquela, de costas direitas, porque a mãe e a avó, de cada um dos meus lados, não permitiam que traçasse a perna por baixo do rabo, ou que me levantasse de vez em quando, e passeasse pelos corredores para desentorpecer as pernas, e a cabeça. Os breves momentos em que a oração se dizia de pé não chegavam para descansar de estar sentado. Também não percebia o que as velhas diziam, umas murmurando, outras gritando, naqueles momentos chave, como quando o padre, do cimo do altar, ergue a hóstia ao ar, para que todos pudessem testemunhar que o padeiro as sabia fazer redondinhas.
Havia alturas mais chatas que outras. Um delas era quando começavam as leituras, intercaladas por umas canções aborrecidas e sempre no mesmo ritmo, entoadas numa voz esganiçada, de quem parece acreditar que é mais importante lançar contra os nossos ouvidos uma nota aguda, do que articular convenientemente a letra, escarrapachada no livro à sua frente, de modo a que todos compreendessem o que ali era gritado. Nessas alturas, e até ao momento em que terminava a homilia, escapava de mim e via-me a pairar entre o tecto da igreja e as cabeças na assembleia. Pelo Natal penduravam uma grande estrela, suspensa sobre o altar, presa numa das traves do tecto, e eu, sonhando, imaginava-me a fazê-la passar por essa trave, enquanto flutuava lá no alto, sentindo cá em baixo, os olhares de admiração pousados em mim. Enquanto isto, remexia os dedos nas costas do banco da frente, arrancando pequenas gotas de cera seca, deixadas aí, caídas das velas da última procissão ou festa da 1ª comunhão.
Mais tarde, descobri que estar junto ao coro era muito mais interessante. Em primeiro lugar porque não tinha que fixar a minha atenção no padre, no centro da cerimónia, junto ao altar. O coro ficava de lado e o órgão escondia-nos atrás de si, onde não podíamos ver o altar e, de lá, não me podiam ver a mim. Em segundo lugar, porque dali - um ponto mais alto na igreja e de frente para a assembleia - podia olhar para as caras das pessoas e ver as expressões que faziam nas diferentes fases da missa. Podia ver quem chorava, quem ia limpando os macacos do nariz, os miúdos que brincavam sossegadamente, por detrás das pernas do pai, quando este se levantava do banco, para dizer alguma oração. Podia ver aquelas caras de dor, de pessoas que fora da igreja só viviam para chatear e aborrecer os outros, criando problemas e conflitos, mas ali eram o rosto da virtude e do arrependimento. Vi tudo isto, e assimilei, e sintetizei, e categorizei, e tirei conclusões próprias (como mandam as regras do raciocínio lógico e coerente). Todos os domingos o processo e os procedimentos eram os mesmos, e todas as semanas os resultados se repetiam.
Cheguei, cedo, à conclusão - um tanto ou quanto de índole protestante (mas, também, quem não protesta é porque não pensa e, como tal, não tem capacidade de se indignar) - que nenhuma das pessoas que ali estavam o faziam porque acreditavam nas orações que diziam, ou no espírito de fraternidade apregoado. Umas, a maior parte, iam ali porque a tradição familiar a isso o obrigava, quase como dever moral e, seguramente, como dever social, não fosse a pessoa ficar mal falada na terrinha de onde era. Os restantes iam lá porque são egoístas e egocêntricos, e por algum desaire na sua vida, acreditam no seu sofrimento como o único que, de facto, é aflitivo. Porque a missa é lugar, por tradição, onde se devem sentir melhor e colocar todos os fardos que carregam no chão. Porque aí o Amor maior alivia tudo, e os faz lembrar que há-de haver Amor nas suas vidas, ou nas daqueles por quem vão rezar, para se sentirem melhor consigo mesmas.
Quem não vai lá por alguma destas razões, fá-lo porque não encontra razão para ir. As missas tornaram-se baús para os Homens guardarem amarguras, porque para os momentos de felicidade há outros nomes, e outras celebrações. É, apenas, mais um espaço no horário forçando as pessoas a reflectir sobre si, ainda que em correlação com o mundo em volta. É uma hora egoísta, para alívio interno.
Para quem, como eu, olha para isto do lado de fora da janela, o sentido e o significado são poucos. E o verdadeiro conforto vem, antes, da lucidez de ver as coisas, e da luta por ganhar e manter essa lucidez, que nos assola por vezes, e de novo nos abandona, ao longo da vida. Tudo o mais, tudo o que a missa é, torna-se apenas ruído e uma maneira banal de inculcar, pela via da repetição e ingresso na tradição, a ideia de que existem certos valores, ainda que só os consigamos compreender através do encontro com as faces mais profundas de nós mesmos.
Havia alturas mais chatas que outras. Um delas era quando começavam as leituras, intercaladas por umas canções aborrecidas e sempre no mesmo ritmo, entoadas numa voz esganiçada, de quem parece acreditar que é mais importante lançar contra os nossos ouvidos uma nota aguda, do que articular convenientemente a letra, escarrapachada no livro à sua frente, de modo a que todos compreendessem o que ali era gritado. Nessas alturas, e até ao momento em que terminava a homilia, escapava de mim e via-me a pairar entre o tecto da igreja e as cabeças na assembleia. Pelo Natal penduravam uma grande estrela, suspensa sobre o altar, presa numa das traves do tecto, e eu, sonhando, imaginava-me a fazê-la passar por essa trave, enquanto flutuava lá no alto, sentindo cá em baixo, os olhares de admiração pousados em mim. Enquanto isto, remexia os dedos nas costas do banco da frente, arrancando pequenas gotas de cera seca, deixadas aí, caídas das velas da última procissão ou festa da 1ª comunhão.
Mais tarde, descobri que estar junto ao coro era muito mais interessante. Em primeiro lugar porque não tinha que fixar a minha atenção no padre, no centro da cerimónia, junto ao altar. O coro ficava de lado e o órgão escondia-nos atrás de si, onde não podíamos ver o altar e, de lá, não me podiam ver a mim. Em segundo lugar, porque dali - um ponto mais alto na igreja e de frente para a assembleia - podia olhar para as caras das pessoas e ver as expressões que faziam nas diferentes fases da missa. Podia ver quem chorava, quem ia limpando os macacos do nariz, os miúdos que brincavam sossegadamente, por detrás das pernas do pai, quando este se levantava do banco, para dizer alguma oração. Podia ver aquelas caras de dor, de pessoas que fora da igreja só viviam para chatear e aborrecer os outros, criando problemas e conflitos, mas ali eram o rosto da virtude e do arrependimento. Vi tudo isto, e assimilei, e sintetizei, e categorizei, e tirei conclusões próprias (como mandam as regras do raciocínio lógico e coerente). Todos os domingos o processo e os procedimentos eram os mesmos, e todas as semanas os resultados se repetiam.
Cheguei, cedo, à conclusão - um tanto ou quanto de índole protestante (mas, também, quem não protesta é porque não pensa e, como tal, não tem capacidade de se indignar) - que nenhuma das pessoas que ali estavam o faziam porque acreditavam nas orações que diziam, ou no espírito de fraternidade apregoado. Umas, a maior parte, iam ali porque a tradição familiar a isso o obrigava, quase como dever moral e, seguramente, como dever social, não fosse a pessoa ficar mal falada na terrinha de onde era. Os restantes iam lá porque são egoístas e egocêntricos, e por algum desaire na sua vida, acreditam no seu sofrimento como o único que, de facto, é aflitivo. Porque a missa é lugar, por tradição, onde se devem sentir melhor e colocar todos os fardos que carregam no chão. Porque aí o Amor maior alivia tudo, e os faz lembrar que há-de haver Amor nas suas vidas, ou nas daqueles por quem vão rezar, para se sentirem melhor consigo mesmas.
Quem não vai lá por alguma destas razões, fá-lo porque não encontra razão para ir. As missas tornaram-se baús para os Homens guardarem amarguras, porque para os momentos de felicidade há outros nomes, e outras celebrações. É, apenas, mais um espaço no horário forçando as pessoas a reflectir sobre si, ainda que em correlação com o mundo em volta. É uma hora egoísta, para alívio interno.
Para quem, como eu, olha para isto do lado de fora da janela, o sentido e o significado são poucos. E o verdadeiro conforto vem, antes, da lucidez de ver as coisas, e da luta por ganhar e manter essa lucidez, que nos assola por vezes, e de novo nos abandona, ao longo da vida. Tudo o mais, tudo o que a missa é, torna-se apenas ruído e uma maneira banal de inculcar, pela via da repetição e ingresso na tradição, a ideia de que existem certos valores, ainda que só os consigamos compreender através do encontro com as faces mais profundas de nós mesmos.
terça-feira, março 21, 2006
Ando sem tempo para sonhar durante a noite. Ela parece passar num ápice em que consigo descansar o corpo apenas o suficiente. Como se deixasse de existir porque não dou pelo passar da noite. Quando estou a domir, às vezes sinto que durmo. Porém, actualmente, o hoje é como uma continuação do ontem, como se nunca me lembrasse de ter parado. O dia segue na sequência de tarefas, de obrigações, de deveres e de satisfação de direitos, mas esse dia é como a noite. E as manhãs já só nascem nos momentos em que me sinto adormecer.
domingo, março 19, 2006
Este ser de amar quem já não é, como se o mundo desprendesse dos rios o grito de quem bate a si próprio, no peito, onde as lembranças causam abanões à consciência, e onde, afinal, todos somos mártires de alguém.
Pedimos todos os dias que a vida nos corra bem, porque precaver o corpo dalguma enxurrada que por aí fora nos leve é a arte natural de passear por este chão tropeço.
Aos aleijões perdemos o tempo entre coisas estúpidas e supérfluas, que também elas acabarão por apodrecer nalgum canto da casa que habitamos, porque o próprio lixo se torna uma bênção pelo alívio de o podermos deitar fora.
Reparos fazem-se a toda a gente, e a nós também, que não somos excepção de nada senão de nós mesmos e das ideias que temos, já que a vida é um mar brando, onde até as mais violentas tempestades têm uma razão de ser, quer as aceitemos quer não.
E os olhos cansam-se igualmente de ver todos os dias as mesmas cores e formas, as mesmas pessoas, que nunca conhecemos, afinal.
As armas dos nossos vícios apetrecham-nos de desculpas para evitar a realidade, por ser, talvez, demasiado dura para uma couraça demasiado mole, que se desfaz à mais pequena pinga de chuva.
Pedimos todos os dias que a vida nos corra bem, porque precaver o corpo dalguma enxurrada que por aí fora nos leve é a arte natural de passear por este chão tropeço.
Aos aleijões perdemos o tempo entre coisas estúpidas e supérfluas, que também elas acabarão por apodrecer nalgum canto da casa que habitamos, porque o próprio lixo se torna uma bênção pelo alívio de o podermos deitar fora.
Reparos fazem-se a toda a gente, e a nós também, que não somos excepção de nada senão de nós mesmos e das ideias que temos, já que a vida é um mar brando, onde até as mais violentas tempestades têm uma razão de ser, quer as aceitemos quer não.
E os olhos cansam-se igualmente de ver todos os dias as mesmas cores e formas, as mesmas pessoas, que nunca conhecemos, afinal.
As armas dos nossos vícios apetrecham-nos de desculpas para evitar a realidade, por ser, talvez, demasiado dura para uma couraça demasiado mole, que se desfaz à mais pequena pinga de chuva.
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