sábado, janeiro 04, 2014

"Este livro que vos deixo"

«Queremos ver sempre à distância 
O que não está descoberto, 
Sem ligarmos importância 
Ao que está à vista e perto. 

És um rapaz instruído, 
És um doutor; em resumo: 
És um limão, que espremido, 
Não dá caroços nem sumo.

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias...

Diz que viver é sofrer...
Concordo. Mas não compreendo
Que ninguém ouse dizer
Quanto se aprende sofrendo!

Tanto da vida conheço
Que, ao ver o mundo tão torto,
Às vezes quando adormeço,
Desejava acordar morto.

Não sou esperto nem bruto,
Nem bem nem mal educado:
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.

Se no sentir fui distinto,
Talvez, por essa razão,
Agora levo e não sinto,
Os pontapés que me dão...

Só quando sinceramente
Sentimos a dor de alguém,
Podemos descrever bem
A mágoa que esse alguém sente.

Até nas quadras que faço
Aos podres que o mundo tem,
Sinto que sou um pedaço
Do mesmo podre também.

Queria que o mundo soubesse
Que a dor que tortura a vida
É quase sempre sentida
Por quem menos a merece.

Oh! Quem me dera, sozinho,
E em quatro versos somente,
Contar ao mundo inteirinho
A mágoa de toda a gente.

Não sei o que de mim pensam
Quando me vêem chorar;
Mas quero que se convençam
Que a dor também faz cantar.

Se umas quadras são conselhos
Que vos dou de boa fé;
Outras são finos espelhos
Onde o leitor vê quem é.

À carta que me mandaste,
Em troca à minha, que leste,
Preferia o que pensaste
Àquilo que me escreveste.

Contigo em contradição
Pode estar um grande amigo;
Duvida mais dos que estão
Sempre de acordo contigo.

Fala!... Não te faças branco.
Não compreendes que, de resto,
Vale mais ser rude e franco
Que falsamente modesto?

Para que te não iludas
Com amigos, pensa nisto:
Foi com um beijo que Judas
Levou à cruz Jesus Cristo.

Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.

Quando algum bem tu fizeres,
Não o digas a ninguém,
Repara que, se o disseres,
Fazes mais mal do que bem.

Quando te vês mal, e dizes
Que preferias a morte,
Pensa que outros menos felizes
Invejam a tua sorte.

Nas tuas horas mais tristes,
De mágoas e desenganos,
Pensa que já não existes,
Que morreste há muitos anos.

Jesus disse que se amassem
Aos que cristãos se proclamam;
Não disse que se matassem,
E eles matam-se e não se amam.

Tu que queres ser alguém
Pelo que julgas valer
Não perdoas que ninguém
Seja o que tu queres ser.

Nos versos que se improvisem,
Os poetas sabem ler,
Para além do que eles dizem,
Tudo o que querem dizer.

Se já sofreste, não chores,
Que a vida passa depressa...
Vamos ter dias melhores
E o passado pouco interessa.

Para que tentas prender
Um pensador de talento?
Não vês que vais dar sem querer,
Liberdade ao pensamento.

Para veres o que merecias
Quando tu me fazes mal,
Pensa só no que farias
A quem te fizesse tal.

Neste mundo, onde sobejam
Os homens de pouco siso,
Talvez os malucos sejam
Os que têm mais juízo.

Vós podeis chamar-me louco;
Democrata; socialista...
E comunista também.
Que sou de tudo isso um pouco,
Pois sou uma coisa mista
Do bom que tudo isso tem!»

António Aleixo.

Os poetas sabem ler.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

A regra de ouro

Ouvi falar da «Regra de Ouro» sob muitos nomes e formas ao longo da vida, desde os tempos do catecismo católico até às conversas mais banais que se possam escutar num café.

Contudo, apenas no 5.º ano de licenciatura, em 2007, a conheci com mais pormenor, ao estudar Filosofia do Direito - uma disciplina grandemente desvalorizada pelos alunos e ainda mais rapidamente esquecida assim que se abraça na prática qualquer profissão (não só as jurídicas).

A Regra de Ouro pode ser sumariada através de dois postulados éticos elementares: 

1. Faz aos outros o que queres que te façam a ti;
2. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Há poucos ensinamentos tão simples, tão óbvios e tão universalmente aceites.

Sendo assim, por que razão tantas vezes as pessoas que mais amamos e que também nos amam optam por um caminho de renovação interior que envolve uma vã tentativa de se esquecerem de quem são, de quem as ama incondicionalmente, de punição radical... de afastamento da Regra de Ouro?

A Regra de Ouro é um fundamento para o entendimento das mentes e dos corações e é tantas vezes atropelada.

Um amigo e eu perdemos-nos ambos um do outro. E isso levou-me a repensar o que sou e quem vou ser. Levou-me a olhar novamente para tudo o que soube e esqueci, sobre mim, sobre a história, sobre as relações humanas.

Faltou-nos compreensão, capacidade de perdão, e sobejou-nos fraqueza para falar sem armas apontadas ao outro.

O que nos faz falta é aplicar a regra de ouro à vida individual de cada um, em todos os momentos, e trazê-la para junto de nós quando for o tempo destinado.

No que toca às amizades, a Regra de Ouro faculta um guia sobre como ser amigo. Se queres alguém que se ria contigo, que se preocupe contigo e que esteja presente para ti, então tens de fazer e ser tudo isto para essa pessoa. E por que razão será isto tão difícil de alcançar? Se todos se guiassem por esta regra, não haveria conflito ou sentimentos magoados entre amigos.

Uma razão possível é que aquela pessoa nem sempre sabe como se tratar a si própria e, como resultado, trata os outros de forma pobre também. Talvez tenha tido provações grandes com a sua autoestima, ou faltou-lhe o amor e atenção incondicionais num momento essencial. Aprender a utilizar a Regra de Ouro já em adulto pode demorar e uma ou duas amizades podem acabar devido a comportamentos também eles pobres. Quando uma pessoa compreende o que é preciso para ser um verdadeiro amigo, o seu comportamento muda e fortes amizades podem ser construídas. 

Uma outra razão pela qual a Regra de Ouro é ignorada é que a outra pessoa, muitas vezes, não vê o benefício em "dar" a outro alguém. Olha a generosidade do espírito como um custo emocional que não acredita que possa alguma vez ser pago de volta. Esta pessoa normalmente prefere ficar na posição de recebedor, mas não é recíproca.

E até quando dois amigos olham para argumentos ou para uma discussão sob o ponto de vista da Regra de Ouro, isso significa que tratas o teu amigo com respeito, mesmo quando estás zangado com ele. Não lhe envias um e-mail agressivo, nem tão pouco o expões em frente de outros amigos; mas antes esperas até que os dois estejam sozinhos e possam falar dos assuntos com calma ou, pelo menos, de forma privada.

Por vezes a pessoa tenta e manipula outros não envolvidos na discussão para tomarem o seu lado na querela com um amigo. Podem contar a sua versão dos factos num esforço para lograr simpatia e podem envolver outros sem que o amigo tenha hipótese de responder. Comportamentos deste tipo podem criar um ponto de foco para qualquer que fosse a contenda original e podem servir como um catalisador para terminar a amizade. Quando um amigo não consegue aplicar a Regra de Ouro à discussão, o outro amigo pode simplesmente afastar-se da relação por esta carecer de respeito.

Pára, antes de "rebentares" com um amigo ou do comprometeres com as tuas opções, e pensa sobre como gostarias que as coisas acontecessem se estivessem sentados no lugar um do outro. Gostavas que o teu amigo gritasse ou explodisse contigo online, num e-mail, ou até mesmo em pessoa? Pondera nisto por um momento enquanto aguardas, e pode ser que a resposta a que chegues seja suficientemente temperada para permitir-vos a ambos resolver as vossas questões.

O mesmo é verdade para combinar encontros ou escolher atividades. Gostarias de esperar por um amigo que chega sempre atrasado? Alguém que não pode nunca encontrar-se contigo a meio caminho? Ou que insiste em ser sempre ele a escolher a atividade? Quando o teu amigo está a passar por uma situação difícil, genuinamente rezas ou desejas do fundo do coração que os problemas dele se resolvam? Ou secretamente tiras algum prazer desse sofrimento ou, pelo menos, desejas que resolva os seus problemas apenas para não teres que aborrecer-te com eles?

No que toca à amizade, é preciso conseguir pensar sobre as vezes em que somos descuidados com as palavras que dizemos, com as ações que tomamos ou que podíamos ter tomado para ajudar genuinamente o amigo.

Não seria melhor se tudo decorresse desta forma?

sexta-feira, novembro 22, 2013

É tempo

É tempo de deixar escapar,
Como a água, por entre os dedos,
Os sonhos e desejos,
As esperanças e os medos.

É tempo de deixar partir
Os laços ilusórios,
As fragilidades de admitir
Amores platónicos, irrisórios.

Ris-te na minha cara e cospes.
Um desdém de logro e nojo.
Para ti não passo de um pobre
Em quem pisas enquanto sobes.



segunda-feira, novembro 11, 2013

Costumava escrever bastante, neste blogue que mantenho desde 2005.

Não sou nem escritor, nem poeta, mas escrever ajudava-me a pensar mais pausadamente. Mais ordenadamente.

Permitia exorcizar as frustrações do dia e comemorar as vitórias. 

Perdi essa rotina. E quero retomá-la. Faz parte do meu equilíbrio esta reflexão escrita.

Costumava dar mais valor. Actualmente permito-me que tudo seja relativizado, demasiado reativizado.

É verdade que escrevo sobre mim e sobre quem está comigo. Não é importante justificar se o faço como ilustração de um evento ou medida calculada friamente.

Nestes textos há sempre um pouco dos dois.

Existe libertação e catarse, expiação e sintonia, escoriações e reparações.

Podia fazê-lo em privado (ou mais privado), mas cada vez mais vez verifico que é importante ir dando feedback aos outros do que vai bem, do que vai mal e do que já não vai.

É essencial guardar reserva do privado, do único e do que não nos pertence.

Mas é essencial também assumir como nossa uma perspetiva mais pessoal e genuína, que normalmente não disponibolizamos com facilidade no dia a dia.

Hoje tive um bom dia. Começou tranquilo, continuou equilibrado, permitiu-me ver e falar com vários amigos, reflectir em silêncio, organizar a próxima semana e finalmente escrever um pequeno texto sobre o meu dia.

Foi um bom domingo.

E, por isso, estou grato a quem pude ser útil, a quem me fez sentir parte da solução, a quem me me acompanhou, a quem conversou e a quem trabalhou arduamente durante todo este tempo.

Obrigado pelo meu bom domingo.

Boa semana a todos.

terça-feira, agosto 20, 2013

Where I am going I cannot keep
Still the memory of your faith.
For as my bitterness turns to sorrow,
Then my sorrow turns to shame,

Once I've learned we would be friends,
But as if will cannot hold fate,
Now I wonder how to stand
For all you care are my mistakes

I lost you to the shadow,
As you lost me to your life,
No one knowing how to face
The path both left behind

As this journey faces nonsense,
My life seems to loose its way.
Both became lonely promises,
As we hope one comes and say:
'- Here I am.'

sábado, junho 15, 2013

Hope

There's a hole right in between you and my idea of you. A gap I find everyday more difficult to reach and mend.

There's also hope in your best, hope it shines bright and high above the common sense, over the reachable fringe of certainty into the realm of faith and belief.

Believe... most of all when no proof can be found, when all seems lost and everything seems too much wrong.

Help me never let you down. Help me raise you up to the best version of yourself, if I can. If you let me. Let me accomplish my nature and purpose through you.

Number 2 may not come after, but only close. 2 is the bridge from 1 to 3 and from 3 to 1. I hold the supporting role so you can reach higher. I know how and why, but take me neither for pretentious or granted.

I've learned my place. I've felt success so close and failure so deep nothing makes much sense anymore. Nothing else but hope.

Let's hope hope's enough.
There's a hole right in between you and my idea of you. A gap I find everyday more difficult to reach and mend.

There's also hope in your best, hope it shines bright and high above the common sense, over the reachable fringe of certainty into the realm of faith and belief.

Believe... most of all when no proof can be found, when all seems lost and everything seems too much right.

Help me never let you down. Help me raise you up to the best version of yourself, if I can. If you let me. Let me accomplish my nature and purpose through you.

Number 2 may not come after, but only close. 2 is the bridge from 1 to 3 and from 3 to 1. I hold the supporting role so you can reach higher. I know how and why, but take me neither for pretentious nor granted.

I've learned my place. I've felt success so close and failure so deep nothing makes much sense anymore. Nothing else but hope.

Let's hope hope's enough.

quarta-feira, junho 12, 2013

Solitude

Have you ever been alone? Hiding deep inside a shadow of who used to be?

Keep me company.

segunda-feira, maio 27, 2013

Quotation mood

«Being deeply loved by someone gives you strength, while loving someone deeply gives you courage.»
Lao Tzu



«We're born alone, we live alone, we die alone. Only through our love and friendship can we create the illusion for the moment that we're not alone.» Orson Welles «A man reserves his true and deepest love not for the species of woman in whose company he finds himself electrified and enkindled, but for that one in whose company he may feel tenderly drowsy.» George Jean Nathan

domingo, maio 26, 2013

"Desculpa onde te meti" (?!)

Como pedir que façam cessar um sofrimento que nem sabem causar?

De repente sou deixado só, porque há caminhos que não posso partilhar.

Há momentos que nunca se poderão repetir e esperanças de vivência que definham e secam.

Porque na inocência temos liberdade para acreditar na melhor versão, no mais alto valor.

No conhecimento não temos desculpa nem justificação: ou recusamos participar ou pactuamos cumplicemente.

Não há meio-termo.

E, sem palavras, é-nos atirada uma responsabilidade que somos forçados a aceitar ou, em contrapartida, rejeitamos toda uma pessoa.

Ouvir sem intervir? Testemunhar no silêncio? Partir?

Que raio de espécie de amigos é esta que atira outro para o inferno da consciência, por escolhas que não são suas?

E ninguém parece incomodado com isso, como se tudo fosse normal e a equação ainda se mantivesse bilateral.

Mas agora é quadrada. E isso importa a alguém senão ao ignorante atirado para o meio?


Recalling

«Every great mistake has a halfway moment, a split second when it can be recalled and perhaps remedied.»

Sophia

Esgotei o meu mal, agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.

Sophia

sábado, maio 18, 2013

Sentei-me um pouco para pensar. De quando em vez uma caminhada permite arejar as ideias, deixar repousar o velho e concentrar no novo.
Por entre bêbados e drogados amontoados à beira das ruas, passeando como quem saboreia uma prisão de onde não podem fugir, eu e eles, acometo-me a escutar e observar.
Casais que se beijam nos recantos mais escuros, colegas de faculdade, hoje juízes e juízas que frequentam, afinal, com a mesma sofreguidão, os lugares da maior juventude.
Também ouço o casal ao lado, entre silêncio mudo e planos de viagem e escapadelas (muitas delas incumpridas). A mulher toca-lhe o braço, estende a outra mão sobre a mesa, agora afaga-lhe os pêlos junto ao punho.
Claramente quer conquistá-lo... ou reconquistar a cumplicidade que outrora partilhavam.
Ele não se move. Não reage ao toque, nem tão pouco àquela carícia prolongada sobre o antebraço.
Ela sente saudades. Ele também, mas não creio que seja dela.
Quando alguém pede "olha para mim", não está verdadeiramente a pedir, mas a suplicar.
Olhar para ela devia ser involuntário, livre, desejado e, acima de tudo, incontrolável.
Ele só quer cumprir o papel e sair. Muito jovem de aspecto, comparando com o do seu par.
Ela está pronta para avançar, pronta para mais. Para dar-lhe tudo, um filho, um futuro, uma continuação. Não é isso o mais importante? Semear-se para o futuro?
Mas ele é e sente-se jovem, preocupado com o devir. Quer acertar. Desta vez quer fazer tudo certo e não errar. Mas está cansado, do dia de trabalho, da conversa que acabou de presenciar e não recorda mais.
Hoje é sexta-feira e ele quer apenas chegar a casa, cumprir e dormir.

segunda-feira, maio 13, 2013

Hoje

Hoje deixei-me voltar a desanimar.

Atirei-me para o lado mais negro da alma, em que o desespero aguarda todas as ocasiões para dar estocadas ferozes em todos ao nosso redor e, especialmente, em nós mesmo.

Do suicídio certo à dúvida, pensamentos antes tão distantes regressam de novo ao dia-a-dia.

E a vontade permanece... de desaparecer para sempre. Mas a violência do acto, para com todos à minha volta, acaba sempre por prender-me o gesto.

Quem comigo fala não entende. Não se apercebe do negrume imenso em que me deixo arrastar. Pensam que está a ter um dia de cansaço, ou desânimo. Mas não...

Estes meus dias são sempre sempre a regra, e todos os outros são fruto de um esforço sobrehumano que ninguém consegue sempre suportar, a todas as horas, a todos os dias.

Perco o sentido das amizades e do respeito. Perco o valor das pessoas e da sua sinceridade. Torno-me egoísta e solitário.

Mais solitário.

A solidão é uma constante. Essa não é invenção.

Só. Sempre só. Para sempre só, mesmo que rodeado de conhecidos e queridos. ´É uma solidão absoluta, escudada atrás de uma face nobre e altiva, mas que aos pouco deixo cair.

Hoje abro a mente nestas palavras para as duas únicas pessoas em quem confio. Não para que se preocupem, mas para que saibam e tomem as suas escolhas. Ficar ou seguir. Ajudar ou partir. Ignorar ou desvalorizar.

Essa escolha não é minha. A minha depressão e angústia são os vossos testes individuais sobre a Fé e sentido mais profundo de amar alguém - como eu vos amo.

segunda-feira, maio 06, 2013

sentido

hoje a noite inspira-me a escrever,
a deixar passar os dedos e
simplesmente pairar em sonho e pensamento

há dias assim, onde a realidade se deixa tão distante
do mundo inteiro, guardado no mais profundo recanto

meditação catártica, escrita irracional que me transporta 

entre nuvens passadas, presentes e anunciadas

e ao fundo, docemente, oiço-te dizer,
com uma voz que embala o próprio mar:

- deixa passar o momento, deixa-te sentir simplesmente

e acorda mais tarde... 

- sonha com o que é, o que foi e o que virá

- acorda lentamente, de olhos bem fechados
sem pressa para os abrir

- sente a paz em redor, o silêncio, a confusão
do pensamento, que atordoa e envolve a mente,
tão racional e descrente durante todo o teu dia

- acorda de mansinho e tenta segurar a ti a
sensação do despertar

- transporta-a para o dia, trazida dos teus sonhos noturnos
e deixa que te guie, sem preocupações ou terrores,
porque tu és inquebrável enquanto o desejares

Se tanto me dói que as coisas passem


Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

                     Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, abril 05, 2013

desculpem-me todos,
mas esta morte é só minha.
não a partilho com ninguém.

terça-feira, abril 02, 2013

- Não dás ponto sem nó...
- Dou... mas tenho de estar distraído.

terça-feira, março 19, 2013

Gostava de ouvir-te, amigo, falar sobre a amizade, sobre o amor que une, o respeito, a admiração e o sentido metafísico que te leva a gostar de alguém.

Há um acordo de mentes, uma sintonia de vontades, uma inexperiência do outro que assusta, fustiga e vicia.

Não quero perder-te. Quero contar contigo e, acima de tudo, que me deixes tomar conta de ti como a um irmão. Conta comigo. Inspira-me com o que és, o teu testemunho tão diferente e original.

Guia-me na descoberta de ti. Abandona-te à confiança e não te deixarei nunca cair sozinho. Fala comigo como a um amigo sincero, porque há um sentido para tudo e se hoje aqui estamos é para tocarmos as vidas mútuas.

São camadas enevoadas que procuro afastar, cortinas de teias que descerro para olhar, nem que apenas por um segundo, a tua luz, a tua chama.

Sinto uma promessa de gratidão que incita o atrevimento. Desculpa a ousadia. Mas tenho de entrar e trazer-te comigo.

Há uma estima, uma vocação, um chamamento, uma alegria interior tão repentina e intensa. Tem de ser uma paixão. Não pela carne, mas pela mente, pelo espírito.

«É este o equívoco das paixões que oscilam entre o sublime e o grotesco».

E o que recebo afinal? Algo de ti, imperceptível?

O abismo desemboca aos meus pés como um teste à gravidade e ao equilíbrio. Paixão e obsessão. Cara e coroa da mesma moeda.

E humilhação? Apago-me perante ti, como que desprovido de virtude, orgulho ou estima própria?

Não é esse o propósito. Nem tão pouco justificável para que haja aceitação.

É antes um braço que estendo em primeiro lugar, para que a tua mão o possa agarrar - assim o queira.

Porque, como em Sartre, a minha aspiração é simples, o meu sonho também: o de um «tratado das paixões que se inspirasse nesta verdade tão simples e tão profundamente desconhecida [...]: se amamos, é porque é agradável».

Se te amo, é porque és agradável. Nada mais. Pois este é o maior elogio que podes receber. O maior que te posso dar. Para mim, tu és agradável.

Procuro descobrir o valor da paixão e, no entanto, sou insensivelmente levado a julgá-la. Julgar a paixão é julgar-te a ti. E julgar-te é colocar-me acima e não a par.

Quero ser par, não supra.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Se desta vida imperfeita eliminássemos tudo o que é inútil, a imperfeição deixaria ela própria de fazer sentido

Haruki Murakami
 
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